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Desde as oito horas da manhã de 9 de dezembro, um sábado, mais de uma centena de pessoas contagiava com seu jovial alarido a sisuda Rua XV de Novembro. Era o momento culminante do Desafio Bovespa – “um negócio explosivo” em termos de educação financeira, na frase do presidente Raymundo Magliano Filho –, uma competição em que estudantes e professores de escolas públicas e privadas, após assistirem a aulas sobre as características e funcionamento do mercado de capitais, simulavam investimentos em ações de companhias brasileiras, tendo à mão todos os recursos tecnológicos disponíveis.
No fim da tarde dessa finalíssima se conheceriam os vencedores – a grande ganhadora foi uma escola pública, por sinal – e seus prêmios. Nada mais apropriado, portanto, que o ambiente de alegre expectativa de participantes, pais e professores. “Depois de três meses, finalmente, chegou o grande dia”, dizia a dona de casa Ideli Lopes Santos, 57 anos, que, acompanhada da filha Fernanda, fora torcer pela vitória do Colégio Santo Ivo. Adriano Soncini, 17 anos, participante do Colégio Santo Américo, contava com a festa dos colegas da escola e o alto astral do pai, Alfredo Soncini, 58 anos, que, “entusiasmado, independentemente do resultado”, dizia já investir em ações e observara o esforço de Adriano para conhecer o mercado, motivado pelo Desafio. Sílvia Regina, 18 anos, que mal conseguira dormir, tanta era a ansiedade, foi à Bolsa com seis colegas do Colégio Saint Exupéry: “Trouxemos corneta, peruca colorida e vamos fazer muito barulho para manter o bom humor e ajudar nossos colegas”.
No bojo da popularização – Ao lado do Projeto Educar, iniciativa educacional dirigida às diversas faixas etárias, o Desafio Bovespa é a mais nova etapa do programa de popularização da Bovespa e nasceu após uma visita de Magliano Filho à Bolsa de Quito, no Equador, criadora do projeto pioneiro. Em Quito, “eles fazem uma brincadeira com estudantes simulando as empresas, mas a partir do depoimento do presidente desenvolvemos essa disputa, aproveitando o pregão eletrônico e outros recursos, mais avançados”, informa Luís Antônio Abdal, assessor de Comunicação e Marketing da Bovespa. O sucesso foi imediato. Além fronteiras, a Bolsa da Tailândia se interessou e a Bovespa já lhe apresentou o modelo do projeto, informa Magliano Filho. Internamente, a segunda edição será ampliada, para incorporar universitários a partir do segundo semestre deste ano. “Alem disso, vamos esticar o Desafio Bovespa, que será realizado entre março e dezembro, possibilitando a participação de novas escolas, melhor preparo das equipes e a presença de estudantes de outros Estados”, diz Abdal.
Partindo de um universo de 150 escolas do ensino médio público e privado da cidade de São Paulo, o primeiro Desafio Bovespa mobilizou cerca de mil pessoas, entre estudantes, professores e familiares. Desse total, 90 puderam participar do evento, por intermédio de sorteio. Divididas em três etapas, cada uma com 30 escolas concorrentes, as disputas ocorreram nos dias 30 de setembro, 21 de outubro, 25 de novembro, ficando a final para 9 de dezembro. Na opinião do consultor Mauro Halfeld, que fez uma palestra no evento final, os participantes captaram bem o espírito do Desafio: “Não tenho dúvida de que esse tipo de iniciativa é muito importante para ajudar a conscientizar as pessoas sobre o uso correto e o caráter de poupança. Muitos sendo influenciados nas carreiras que seguirão”.
Escola pública – A tradicional Escola Estadual Fernão Dias Paes, do bairro de Pinheiros, foi a campeã do Desafio Bovespa. A equipe obteve rentabilidade de 118,7% nas simulações de investimento em ações e recebeu R$ 25 mil em dinheiro para ser aplicado num clube de investimento. “Meus alunos têm condições de competir com os de escolas particulares e, por isso, é um orgulho vencer a competição para podermos mostrar suas qualidades”, disse o orientador da equipe, Arthur Damasceno Vicente, que leciona Matemática e Administração. Juliana Laudisio e Felipe Moscardi, ambos de 17 anos, ficaram radiantes. “Descobri como é importante saber lidar com o dinheiro para viver melhor e acabei por descobrir uma profissão interessante”, disse Felipe. “Eu participei por causa do prêmio, mas acabei amando conhecer as finanças e a pensar em grupo”, afirmou Juliana.
Em segundo lugar, com R$ 20 mil, ficou o Colégio Marajoara, cuja equipe conseguiu 95,84% de rentabilidade para a carteira. “Eu me interessei muito por economia e pelo mercado de capitais e vou fazer uma faculdade que tenha a ver com esse universo”, declarou Gabriel Rocha Melo, um dos participantes. O professor de Matemática, Física e Química, Paulo Amaral Gonçalves Bianco comemorou: “Estou feliz por ter conseguido essa colocação, com os estudantes tendo adotado uma posição sólida e confiante”.
O terceiro lugar ficou com a Escola Estadual Leopoldo Santana (79,06% e prêmio de R$ 15 mil); o quarto, com o Colégio Santa Lúcia Filippini (73,15% e R$ 10 mil); e o quinto, com o Colégio Santa Luzia (71,86% e R$ 5 mil). Cada professor das equipes vencedoras também foi premiado com um notebook e R$ 1 mil, em crédito, para aplicar nos clubes formados pelos alunos. As escolas receberam um computador e uma impressora multifuncional.
Ampliando conhecimentos – Mais que os prêmios em si, os colegiais puderam fazer um curso extracurricular com noções de economia brasileira e o sobe-desce do mercado de capitais. Ampliaram seus conhecimentos nos intervalos da competição com leitura de jornais, participações em simulados da FolhaInvest, discussões em sala de aula e com parentes. “Fiz uma apostila com todas as informações que encontrei sobre a Bovespa e o material que colhi da minha visita à Expomoney”, diz Arthur Vicente, o professor campeão. Entre outros estímulos, Vicente promoveu uma visita de seus alunos à Bolsa. “Meus alunos são bons e capazes, só precisavam de uma oportunidade como essa para demonstrar seu valor.”
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Essa segurança levou o grupo da Fernão Dias a comprar ações com firmeza, ainda que pudesse pôr tudo a perder se a decisão não fosse acertada. Outros foram mais cautelosos. É o caso do Colégio Marajoara, cuja meta era chegar à final – acabou conquistando o segundo lugar. “Estávamos bem seguros e cada aluno trabalhou afinado com o outro”, diz Paulo Amaral Bianco, 35 anos, professor de Matemática,Física e Química e chefe da equipe. “Mas eles também precisavam aprender que, no funcionamento do mercado de verdade, manter uma posição boa é uma decisão vitoriosa”.
Mesmo para quem não ficou entre os primeiros colocados, não faltaram lições. O Colégio Unisa esteve bem colocado nas rodadas iniciais, mas perdeu por divergências internas, segundo Leonardo Zanella Marques, 18 anos. Desde que se inscreveu, ele passou a prestar atenção nos noticiários de TV, jogou nos simulados, aderiu à vestimenta executiva (foi à final de terno, camisa social e gravata). Gostaria que o grupo tivesse seguido suas escolhas, “semelhantes às do Marajoara”. Não deu. Mas ele pretende “voltar a competir ainda mais preparado”.
Já o Colégio Santo Ivo, que também estava entre os melhores nas rodadas intermediárias, reuniu os melhores alunos de matemática para que pudessem receber noções de educação financeira. “A gente não tinha idéia de como seria a competição. Mas conseguimos nos sair muito bem, embora tivéssemos ficado em sétimo na final”, explica a professora Sílvia Alexandre Ferreira, responsável pelo grupo. Vanisse Buonaducci, 39 anos, diretora da Escola Estadual Professora Zenaide Lopes de Oliveira Godoy, chegou à conclusão semelhante. “Quando fiquei sabendo do torneio, vi que era uma excelente oportunidade para motivar nossos alunos a buscar conhecimentos extracurriculares. Eles ficaram em sétimo lugar na primeira classificação, o que já nos deixou satisfeitos”.
Para além de premiados e não premiados, todos venceram, como se vê. Os colegiais tiveram acesso a novos temas, conversaram com suas famílias, debateram entre si e com seus professores, tudo com apoio da tecnologia e de metodologia estimulante. Por isso, “o negócio é explosivo”, no dizer de Magliano Filho, que acrescenta: “Essa é uma forma moderna e interativa de educação financeira. E é pela educação que vamos mudar este país”. (Rosangela Santiago.) |
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Lições de um consultor de investimentos
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| Equipe do Fernão Dias, a vencedora |
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Fernanda Laudísio (2.a da dir. para a esq.): conhecendo o valor do dinheiro
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Planejamento financeiro foi o tema da palestra do consultor Mauro Halfeld aos colegiais, no final do Desafio Bovespa. Primeira provocação aos jovens: como faço para conseguir guardar dinheiro? Ele respondeu com um convite ao passado, mais precisamente, 1973. Mostrou o anúncio de um objeto de desejo daquela época, um Dodge Polara 1800, no valor de Cz$ 23.950,00. O objetivo era mostrar que a aquisição de um carro exige preparação, tem tempo certo para acontecer – há outros valores em jogo. “Os jovens querem um carro para conquistar garotas, mas não pensam no futuro, quando mais precisarão ter acumulado dinheiro. Se vocês aplicarem o dinheiro de um automóvel terão uma velhice tranqüila”, argumentou Halfeld. É só fazer as contas. O Dodge 1973 pouco valeria hoje, ainda que vendido como raridade. Mas o dinheiro, aplicado em dólares, valeria R$ 10.846,00; em caderneta de poupança, R$ 66.729,00; e no Índice Bovespa, R$ 387.508,00.
Planejamento vale para tudo – até para evitar o juro do crediário, do cheque especial e do cartão de crédito, que pode corroer o patrimônio das pessoas. “Quanto mais acesso a este tipo de informação tiverem e fizerem bom uso dela, melhor vocês estarão no futuro", disse Halfeld.
A palestra causou impacto. Juliana Laudisio, 17 anos, do colégio Fernão Dias – o vencedor do Desafio –, decidiu mudar os planos de usar o dinheiro para comprar um veículo novo logo que possível. “Como o dinheiro do prêmio tem de permanecer no clube por um ano, pensava em pegar o que desse para dar de entrada num carro”, comentou. “Agora, não quero mais isso, quero garantir a aposentadoria”. Outro que pensava no sonhado carro e resolveu esperar um momento melhor para comprá-lo foi Gabriel Rocha Melo, 17 anos, do Colégio Marajoara, segundo colocado: “Percebi que é uma fria pensar num veículo agora, quando posso juntar mais e ter um melhor no futuro, além de garantir estabilidade financeira”. (R.S.) |
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