|
Políticas de curto prazo ameaçam futuro da economia
Ministros de finanças, em geral, parecem pouco preocupados com o futuro, alerta o Prêmio Nobel de Economia de 2006, Edmund S. Phelps, professor de Política Econômica da Universidade Columbia, em Nova York. Eles agem com um perigoso grau de irracionalidade, ignorando que a prosperidade hoje vivida pela economia mundial não é eterna. “O Ocidente está poupando de menos. Não deveríamos suplementar a poupança privada com poupança pública.”
 |
| Edmund Phelps |
| O Fed está confiante na queda da taxa de inflação nos EUA |
|
Aos 74 anos, Phelps deu aulas e aconselhamento na Itália e na França, lecionou na Argentina e no Brasil – foi professor visitante da FGV –, é doutor honoris causa das Universidades Paris-Dauphin, Islândia, Nova de Lisboa, Mannheim e Tor Vergara e mestre honorário das Universidades Renmin, de Tecnologia e Negócios em Administração; e Mundell, de Empreendedorismo (Pequim).
Desemprego e inflação são seus focos principais. Ele ganhou o Prêmio Nobel ao aprofundar o estudo da relação entre curto e longo prazo na formulação das estratégias econômicas. Seu trabalho contestou o que os economistas batizaram como curva de Philips – a relação suave entre a evolução da taxa do salário nominal e do índice de desemprego – que levou muitos a julgar que seria possível controlar a inflação via aumento do desemprego.
O que Phelps demonstrou é atualíssimo para a conjuntura brasileira: ele atestou que a correlação de Philips é incompleta, pois deve incluir o papel das expectativas inflacionárias. Uma política de estabilização pode apenas arrefecer flutuações de curto prazo no desemprego.
Deixou claro que inflação baixa, hoje, conduz à expectativa de que o índice se mantenha, facilitando o manejo da política econômica e a boa saúde da economia, impulsionando mercados, como o de ações.
Seus estudos pioneiros ajudaram outros ganhadores do Nobel, como Robert Lucas e Edward Prescott, a enveredar por questões como a poupança intrageracional e a inclusão social. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva à Revista Bovespa, em Buenos Aires, em janeiro:
Após 12 anos da adoção de medidas para estabilizar a economia, o Brasil tem inflação controlada e a população não teme uma volta atrás. A âncora cambial que alicerçava esse processo foi abandonada em 1999, elevando o desemprego que oscilou até atingir o ápice em 2001. A perspectiva de eleição de um governo de esquerda fez a taxa de câmbio explodir e, na seqüência da mudança política, os juros aumentaram mais, a despeito de inflação controlada.
— Eu me lembro desse absurdo…
Depois a taxa de câmbio cedeu, o desemprego encolheu e a expectativa é de inflação estável a um nível reduzido. O País é exemplo da teoria sobre a importância das expectativas quanto à inflação e ao desemprego?
— Quando um banco central decide adotar política de dinheiro mais frouxo, para impulsionar a produção e o emprego, inicialmente há um ganho na produção e no emprego, junto com um aumento da taxa de inflação. Mas isso ocorre tendo como dada a inflação esperada. Uma vez que as expectativas quanto à inflação se adaptem a uma taxa inflacionária maior, a curva de Philips mudará por si só, para cima. E você precisará de inflação ainda maior para continuar com esse nível já elevado de desemprego. É uma espiral. E se chega à hiperinflação e à quebra do sistema monetário.Os BCs aprenderam a lição e buscam evitar a política de dinheiro frouxo.
Como não se espera inflação em alta, o desemprego deverá cair no Paîs?
— Sim. Em termos aproximados, ele deve retornar ao nível – seja qual for ele – que teria alcançado caso a inflação tivesse permanecido elevada.
No processo que relaciona inflação e desemprego, qual o real papel dos juros – quase sempre altos no Brasil?
— No curto prazo, é o instrumento dos BCs para tentar reduzir a demanda por investimentos, na esperança de que a pressão exercida sobre os mercados pelo corte de despesa eventualmente decorrente da medida conduza à queda da inflação. Veja bem: um instrumento de curto prazo.
Pode-se falar de uma curva de Phelps?
— Bem… Não há exatamente… Bem, há uma espécie de curva de Phelps implícita na idéia de que, quando a demanda é alta, a inflação corrente ultrapassa a inflação esperada e o desemprego fica acima de seu nível natural. Há, portanto, uma conexão entre a diferenca entre a inflação corrente e a esperada, de um lado, e a diferença entre desemprego e o seu nível natural, do outro. Essa é uma entre as relações estruturais que faço. A inflação inesperada está ligada a desvios no nivel natural de desemprego. Quando a taxa de inflação fica acima do esperado, o emprego tende a crescer a um nível algo superior a seu nível natural.
Quanto o desemprego nos Estados Unidos teria de subir para debelar recentes pressões inflacionárias?
— O Fed, graças a seu sistema de reservas e a Ben Bernanke, tem se mostrado bastante confiante de que a taxa de inflação está em queda nos EUA. Isso se dá, suponho, porque a previsão deles se baseia, em parte, no esfriamento do boom imobiliário e, talvez, em algum desaquecimento do mercado acionário, o que ainda não ocorreu. Há um sentimento geral de que teremos três ou quatro anos, pelo menos, de um mini-boom de investimentos. Quanto tempo isso durará, posto que não pode ser para sempre? Não sei dizer até que ponto essas previsões estão corretas. Se estiverem, seu colorário é o de algum aumento do desemprego – talvez dos atuais 4,5% para algo como 5% ou 5,25%. Enfim, se a taxa de inflação ceder em grau importante nos próximos 12 ou 18 meses, isso provavelmente será acompanhado do retorno a taxas de desemprego mais altas.
Por que é tão difícil fazer previsões a respeito de desemprego?
— Porque nunca sabemos qual é a taxa natural de desemprego de uma economia. Ela está sujeita a todas as forças reais, não-monetárias, da economia. Todas essas forças existentes no mundo causam impacto no nível de emprego natural. Quando terminou o boom de investimentos, em 2000, cometi o erro de ir à TV e dizer que, se o boom terminou, o nível de emprego vai retornar ao patamar em que estava antes de ele começar, ou seja, 5,5%. Foi um pouco grosseiro da minha parte. Eu sabia disso, mas me esqueci de dizer que ninguém podia ter certeza de que o boom tinha acabado. Talvez 30% dele sobrevivesse e o nível de emprego não caminharia para o patamar citado. Forças reais atuam sobre a demanda de investimento e afetam o nível de emprego. Mas é o tipo de coisa que o mercado financeiro, definitivamente, não entende.
Por quê?
— Talvez tenham de ler meu livro Structural slumps, de 1994, ou os estudos que escrevi nos anos 2000 e 2001, um dos quais se chama Structural booms. A discussão parece muito sofisticada, mas na verdade o seu ponto básico é o de um simples axioma. Se as perspectivas futuras são brilhantes, haverá uma elevação do interesse dos empresários em ter uma unidade adicional de diversos ativos, estimulando a atividade investidora e, incidentalmente, o mercado de ações. A longo prazo, esse panorama reduzirá o nível natural de desemprego propriamente dito, tanto quanto durarem as perspectivas cor-de-rosa da economia. Não se deve pensar que há algo mecânico no nível natural de desemprego de uma economia.
Há um retorno ao foco na macroeconomia pelos acadêmicos que decidem o Prêmio Nobel. Seria uma tendência?
— Não creio. É um ponto fora da curva. De fato, meu trabalho teve influência nos estudos sobre expectativas racionais de Robert Lucas e de Edward Prescott. Mostrei o caminho para redirecionarmos a pesquisa na direção do que determina o nível natural de desemprego numa economia. Quando se tem uma política monetária sensata, ocorre uma espécie de deixa-para-lá em relação ao assunto. Grandes ciclos de prosperidade alcançam, no fim, expectativas que estão além da nossa mente… Os BCs, em sua maioria, seriam bem-sucedidos em eliminar essas questões e, assim, a única coisa que restou para estudarmos foram as mudanças no níveis naturais de emprego.
Na década de 90, governos e BCs esperaram demais de uma única ferramenta, a política monetária?
— A missão fundamental do BC é controlar as taxas de inflação. Isso, algumas vezes, permite um caminho tortuoso sobre quão rápido deve ou não agir. Não passa disso o que os BCs podem fazer. Uma política monetária, embora responsável, deixa espaço para inúmeras disfunções na economia. Pode-se ter, a despeito de uma inflação estabilizada, uma demanda por investimento muito fraca, por causa de uma série de razões. Pode-se ter nível zero de inovação. Ou um crescimento econômico muito fraco. Ou mesmo excesso de capital. Muita coisa pode dar errado além da inflação…
Alguns BCs se esquecem disso?
— Não saberia dizer… Mas a política monetária só pode atacar um ponto. É preciso outros instrumentos para atacar todas as doenças… Uma economia não pode se considerar gloriosa só por ter expectativas de inflação baixa no futuro.
Seu trabalho também indica que as gerações atuais podem aumentar o bem-estar das gerações futuras. Como ambas podem se beneficiar de uma mudança no nível de poupança?
— Às vezes, a economia não se comporta tão bem como deveria, idealmente, porque há limites para as autoridades coordenarem nossas decisões. Exemplo: não podemos entrar em acordo com as gerações futuras. Se pudéssemos, elas decidiriam que economizássemos um pouco mais generosamente hoje. A razão pela qual o comitê do Prêmio Nobel identificou qualidades nesse meu trabalho foi que ele é emblemático de uma classe de problemas, nos quais há um corte de coordenação entre decisões atuais e futuras. Mesmo no plano individual, não posso negociar com meu próprio futuro a fim de fazer certas coisas. Não fumar, não beber, não usar minha saúde e por aí afora. E se esse é o caso, então talvez eu vá fumar mais e beber mais agora porque afinal… que diabos!… o que eu serei capaz de fazer no futuro? O ponto foi sobretudo o de premiar um achado cujo significado é mais teórico do que prático.
Por que não é defensor radical do livre-mercado?
— Quando estava na França, meu prêmio foi anunciado e causou uma polêmica forte entre a centro-esquerda e a centro-direita. A centro-esquerda me culpava por ser o autor da idéia de subsidiar baixos salários e o clima. A centro-direita me acusava de ser contra o capitalismo. Como alguém que trouxe uma nova defesa do capitalismo para ser discutida. Meu amigo francês, em sua coluna no Le Monde, escreveu que eu sou as duas coisas: de centro-direita e de centro-esquerda e o que quer que venha adiante.
E a sua autodefinição a respeito?
— Não sou um defensor do livre mercado porque estou convencido de que a economia é um lugar muito confuso, cheio de introduções informativas e repleto de compreensões incompletas sobre como funciona e, como resultado disso, emergem também toda espécie de mudança na atividade econômica possível e um monte de doenças para todos. De modo que os investidores sofrem com riscos morais: os executivos podem fugir com o dinheiro, trabalhadores também porque podem não ser pagos. Os poupadores sofrem também porque os bancos podem emprestar o seu dinheiro sem critério, de modo que o retorno acaba não indo para eles. Por tudo isso, deve haver normas e instrumentos para proteger os investidores, os trabalhadores e os poupadores. E também para proteger os empresários, pois a comida não pode fugir do prato das crianças só porque os empresários foram infelizes com este ou aquele projeto.
Como vê o controle da economia pelo Estado?
— Não o defendo, de forma alguma.
Suas idéias seguem por caminho intermediário entre tais extremos?
— Sim. Assim como eu sou contra o comunismo e o socialismo de mercado, também sou contra idéias de livre mercado que pregam o governo zero. Na cerimônia de entrega do Nobel, em Estocolmo, descrevi meu conceito de boa economia. Ela deve ser, ao mesmo tempo, empreendedora e inclusiva. Deve trazer trabalhadores de salários baixos para seu interior, mas ao mesmo tempo deve ser uma economia inovadora graças a um alto grau de atividade empresarial.
Até que ponto é eficiente administrar a economia via ajustes de impostos, despesas públicas e juros? É questão de sintonia fina ou não é suficiente?
— É difícil generalizar a respeito da eficácia ou ineficácia da sintonia fina. Milton Friedman ficou famoso por se opor a ela. Os economistas que atuaram do lado da oferta, e não da demanda – conhecidos como supply siders –, de fato não prestaram muita atenção a isso. Toda vez que havia uma recessão, partiam para corte de impostos. Eu penso que, idealmente, as economias deveriam administrar bons superávits orçamentários em bons anos e déficits orçamentários em tempos ruins, mas operacionalmente essa é uma verdade difícil. De modo que temos uma tendência a ter déficits orçamentários sempre. As coisas nunca são boas o suficiente para justificarem superávits orçamentários, não é mesmo? O que eu acho que é uma pena pois, por razões demográficas, estamos caminhando em direção a um futuro com níveis elevados e necessários de gastos sociais para cuidar dos idosos.
Não há um céu de brigadeiro no horizonte, portanto...
— É verdade. E nossos ministros das finanças não estão se preparando para nada disso. O Ocidente deveria estar investindo como louco na China para acumular ativos lucrativos cuja renda possa ser usada para enfrentar necessidades sociais dentro de casa. Ao contrário, a China investe no Ocidente e o Ocidente não investe em si próprio. É uma situação paradoxal. A China, com certeza, age mais ou menos racionalmente. O Ocidente não, está poupando de menos. Não deveríamos suplementar a poupança privada com poupança pública. Nós vivemos em tempos prósperos, grosso modo, ao menos no Hemisfério Ocidental. Mesmo os argentinos pensam que estão vivendo em prosperidade! O Brasil não está tão bem, mas também não está mal de todo.
O sentido de prosperidade na Argentina se dá em relação a um período de crise profunda vivida há apenas quatro anos e meio, não?
— Com certeza. É uma afirmação em termos relativos.
E com relação ao Brasil, onde não vivemos essa crise de modo tão profundo, os indicadores externos da economia andam bem e os internos já foram muito piores, apesar de não termos um crescimento econômico significativo…
— Nem têm um nível de investimento crescente. O que disse é, de fato, avaliação comparativa…Vivemos em um mundo de relativa prosperidade…
Mas ela não durará para sempre, não é?
— Eu não diria dessa forma. A prosperidade pode prosseguir, mas… Você está certa, mas eu não diria assim, pois é melhor manter as coisas em termos simples e dizer que teremos todas essas necessidades de gasto público daqui a 20 ou 30 anos e nossos ministros das finanças não estão fazendo nenhuma provisão para tanto. E ainda por cima estão, de fato, tomando dinheiro emprestado!...
Isso faz recordar os déficits gêmeos dos EUA. Ambos o preocupam?
— Sim, com toda certeza. É a mais emblemática expressão do que acabamos de falar: os EUA deveriam ter superávits para enfrentar o futuro próximo e têm déficits.
Visualiza alguma tendência de mudança em relação a eles ou à política econômica empregada em relação a ambos?
— Há pressão sobre o governo para desistir de alguns cortes de impostos que instituiu no começo do processo. Esses cortes foram simpáticos à população ao trazerem consigo a idéia de que seriam úteis para provocar outra fase de recuperação econômica ao país. De fato, tivemos uma recuperação forte, com um boom imobiliário e uma continuação do boom da internet. Mas já está na hora de rever essa política e acho que já há um novo espírito de compromisso a esse respeito. |
|