Mercado tem fôlego para crescer mais
Ciclo de alta das
ações começou em 2003

O mercado de ações no Brasil vive um momento ímpar de crescimento. Ao contrário da “exuberância irracional” a que se referiu na década passada Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve Board (Fed, o banco central dos Estados Unidos), sobre Nova York, o mercado brasileiro passa por uma fase de “exuberância racional”. Explica-se: não se trata de uma bolha especulativa, mas sim de fenômeno baseado em bons fundamentos econômicos.

A expansão já dura quatro anos e não tem data marcada para terminar, acreditam os especialistas. Ela é animada pela combinação inédita – e feliz – de juros internos declinantes, percepção de queda do risco País, abundância de recursos internacionais, adesão das companhias emissoras às melhores práticas de governança corporativa e crescente popularização do investimento em ações. Juntos, esses fatores resultam num mercado em forte crescimento, com a entrada de novas empresas e investidores e a valorização dos papéis. Sucedem-se, assim, ondas positivas. “Estamos vivendo um ciclo virtuoso”, resume Marcos Duarte, sócio da Polo Capital, empresa de gestão de recursos com sede no Rio de Janeiro.

O atual ciclo de alta começou em 2003, depois de três anos seguidos de queda. De lá para cá, o Ibovespa avançou de 11.268 pontos para 44.474 pontos, com ganho acumulado de 295%. Em 2006, a alta das ações mais negociadas na Bovespa foi de 32,9%. Por 29 vezes, o índice bateu suas máximas históricas de pontuação. As ações foram a aplicação mais rentável de 2006. Medida em dólares, a valorização do Ibovespa foi ainda maior: 45,5%. Nos últimos quatro anos – marcados pela valorização do real diante do dólar –, a alta em dólar chega a 552%. Na série histórica do Ibovespa deflacionada pelo dólar comercial, nota-se que o índice fechou 23 anos em alta e 16 anos em baixa. Um período de quatro anos consecutivos de bonança, como o atual, só ocorreu anteriormente uma vez: de 1968 a 1971. Naquela época, o Ibovespa cresceu de US$149 para US$884 . No ano passado, chegou a US$20.802.

Há fôlego para um quinto ano consecutivo de valorização? Muitos gestores de investimento acreditam que o potencial de alta continua forte. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduziu de 0,5 ponto porcentual para 0,25 ponto o ritmo do corte dos juros em janeiro, mas a tendência de queda foi mantida. Nos Estados Unidos, o Fed indicou que a economia local terá um pouso suave e, portanto, os juros não vão disparar. Isso favorece a atração de capitais.

O Brasil recebe investidores internacionais que esperam maiores retornos nos mercados emergentes. “Se não houver nenhum choque externo, o cenário positivo será mantido este ano”, prevê Duarte. O diretor de renda variável do BNP Paribas, Jacopo Valentino, acrescenta: “O ambiente interno e externo é muito positivo. Os juros estão caindo no Brasil e a economia mundial está em fase de crescimento, com a incorporação da China e da Índia. Isso vai continuar. Enquanto houver globalização financeira e movimentação de capitais, a Bolsa vai continuar subindo por aqui”.

As projeções do HSBC Investments indicam que o Ibovespa poderá atingir 51 mil pontos em dezembro. A corretora Itaú acredita em 52 mil e a corretora Bradesco, em mais ainda: 55 mil pontos. Tais previsões correspondem a altas de 15% a 24% para o Ibovespa em 2007. Não é pouco. Nesse nível, a renda variável continuará sendo atraente para os investidores diante da queda gradual da taxa básica – o Banco Central reduziu a Selic de 13,25% ao ano para 13% ao ano, em janeiro - e da estimativa de juro real de 8% a 9%, em 2007, que não leva em conta a tributação da renda.

Aníbal Cesar, do Bradesco
Planos ambiciosos para o mercado de ações

Do ponto de vista macroeconômico, não se espera grandes mudanças, o que contribui para manter o otimismo quanto ao investimento em ações e a busca de capital barato pelas empresas na Bolsa. “Teremos mais do mesmo”, diz o economista Edmar Bacha, do Itaú BBA, com alta reputação internacional e um dos pais do Plano Real. Segundo ele, os juros cairão mais um pouco este ano e o câmbio ficará estável. Nessas condições, a inflação continuará sob controle e a economia deverá crescer de forma moderada. Isso, se a conjuntura internacional permanecer favorável e o risco-país continuar baixo. “Não vejo nenhum cataclisma a caminho”, diz Bacha.

No começo de fevereiro, o risco Brasil medido pelo JP Morgan bateu novo recorde de baixa, situando-se em 180 pontos básicos acima dos juros pagos pelo Tesouro dos Estados Unidos para papéis de mesmo prazo. Houve uma virada impressionante no humor dos investidores globais com relação ao Brasil. Em 27 de setembro de 2002, o risco País chegou a 2.436 pontos, no auge da desconfiança dos mercados com a política econômica do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, já favorito ao cargo. A manutenção dos pilares da estabilidade pelo presidente petista – câmbio flutuante, sistema de metas de inflação e geração de superávit primário – reverteu as expectativas pessimistas e, desde então, a Bolsa não parou de crescer.


Bancos sugerem ações – Racionais como sempre, os grandes grupos financeiros do País perceberam as oportunidades abertas pela exuberância racional e colocaram o mercado de ações no centro de sua estratégia de crescimento em 2007. Bradesco e Itaú, os dois maiores do setor privado, estão investindo bastante para aumentar as receitas de underwriting e gestão de recursos. O Bradesco está relançando o banco de investimentos BBI em fevereiro, sob a batuta de Bernardo Parnes, ex-Merrill Lynch. Em meados de fevereiro, na mudança para a sede do BBI na Avenida Paulista, área nobre de São Paulo, a corretora Bradesco dobrou sua mesa de operações, que agora tem 90 posições. “Continuamos otimistas com o mercado de ações. Nossos planos são ambiciosos”, diz Aníbal César J. dos Santos, presidente da instituição.

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O Itaú também aposta nas emissões e distribuições de ações como as atividades mais promissoras do mercado de capitais. “O que era visto como uma janela de oportunidade virou garagem”, diz o executivo Jean-Marc Etlin, vice-presidente do banco de investimentos Itaú BBA, egresso da Union Bank of Switzerland (UBS). Em 2006, o Itaú BBA participou de 25% dos lançamentos de ações, assessorando sete empresas a ingressar no mercado por meio de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs, na sigla em inglês). Etlin prevê que mais de 30 empresas farão IPOs neste ano na Bovespa, superando a marca de 26 lançamentos obtida em 2006, não por acaso a maior desde a década de 1990. A demanda por bons papéis, especialmente pelos investidores estrangeiros – que abocanharam 70% dos lançamentos de ações em 2006 –, continua firme.

As ofertas públicas na Bolsa chegaram a R$ 52,9 bilhões desde 2004, quando a Natura captou R$ 768 milhões e o mercado, que estava estagnado, voltou a crescer. No ano passado, a forte demanda viabilizou a captação total de R$ 30,2 bilhões pelas companhias abertas por meio de 42 distribuições públicas de ações. Houve um crescimento de 117% em relação aos recursos captados em 2005, de R$ 13,9 bilhões. Em 2004, foram R$ 8,8 bilhões. A participação dos IPOs, que representam a entrada de novas companhias e simbolizam a revitalização do mercado primário - os lançamentos são feitos voluntariamente no Novo Mercado, ambiente onde as regras de governança corporativa são mais rígidas – também tem sido impressionante. As novatas captaram R$ 4,5 bilhões em 2004 (sete empresas), R$ 5,4 bilhões em 2005 (nove ofertas) e R$ 15,2 bilhões em 2006 (26 lançamentos, incluindo a emissão de dois Brazilian Depositary Receipts).

Com isso, novos nomes e setores econômicos passaram a disputar os investidores na Bovespa. Copasa, Vivax, Gafisa, Company, Totvs, Equatorial, American Banknote, CSU, Brasil Agro, Lupatech, GP Investments (BDR) e Datasul fizeram a estréia no primeiro semestre de 2006. No segundo semestre, foi a vez de MMX, Abyara, Medial, Klabin Segall, Santos Brasil, M.Dias Branco, Brascan, Profarma, Terna, Brasil Ecodiesel, Odontoprev, Positivo Informática, Lopes e Dufry (BDR). Novas companhias virão nos próximos meses. É um fenômeno com reflexos positivos para a economia como um todo, pois aumenta as perspectivas de investimentos, geração de empregos e desenvolvimento econômico. “Está havendo uma injeção de anabolizante nas empresas”, diz Marcos Duarte. “Os recursos captados na Bolsa geram uma capacidade de financiamento que, em algum momento, será transmitida para a população. O setor imobiliário, por exemplo, é fértil para gerar crescimento.” Neste ano, Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, Rodobens Negócios Imobiliários, Tecnisa e Iguatemi Empresa de Shopping Centers fincaram bandeira no Novo Mercado.

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Não é por acaso que o Novo Mercado tornou-se a porta de entrada obrigatória das empresas na Bolsa no Século XXI. A preferência dos investidores pelas companhias com maior nível de transparência e respeito aos acionistas minoritários é inequívoca. “O mercado quer ações de empresas com boas perspectivas de crescimento, liquidez em Bolsa e práticas de governança corporativa”, afirma Etlin. E o Novo Mercado da Bovespa oferece direitos iguais (uma ação, um voto), regras mais estáveis e Câmara de Arbitragem para solucionar conflitos.

Nas palavras do economista Luis Paulo Rosenberg, o Brasil passa por uma verdadeira “revolução capitalista”. No ano passado, subiu para 94 o número de empresas nos segmentos diferenciados de governança corporativa. Destas, 44 ingressaram no Novo Mercado, 14 no Nível 2 e 36 no Nível 1. Juntas, essas empresas representaram 58% da soma do valor de mercado das 394 companhias listadas na Bovespa. Também representaram 58% do volume financeiro e 67% da quantidade de negócios no mercado à vista. Seus papéis mantiveram a tendência de valorização superior à media do mercado. O índice de Tag Along (ITAG) subiu 45% e o Índice de Governança Corporativa (IGC) cresceu 41% – ambos acima do Ibovespa.

Esse desempenho reflete-se na valorização recorde das companhias. O valor de mercado (capitalização bursátil) das 350 empresas com ações negociadas na Bovespa alcançou R$ 1,54 trilhão em dezembro de 2006, montante 37% superior ao de 2005. Dos setores de atividade com maior valor de mercado, destacaram-se as instituições financeiras, com R$ 334 bilhões (21,6% do total); empresas de petróleo, gás e biocombustíveis, com R$ 236 bilhões (15,3%); companhias de telecomunicações, com R$ 154 bilhões (10%); mineradoras, com R$ 151 bilhões (9,8%) e companhias de energia elétrica, com R$ 146 bilhões (9,5%).

Edmar Bacha, do BBA-Itaú
Dinheiro mais barato numa economia sem cataclisma

O aumento da liquidez no mercado acionário brasileiro refletiu a caçada internacional por bons papéis. O volume total negociado na Bovespa apresentou crescimento de 49% em 2006 e atingiu R$ 599 bilhões. Foi o melhor movimento na história centenária da Bolsa. A nova marca elevou a média diária de negócios para R$ 2,4 bilhões, 51% acima do ano anterior. As operações à vista responderam por 92,8% do volume financeiro total. As opções atingiram 3,9% e o mercado a termo, 3,3%. No ano, as dez ações mais negociadas – Petrobras PN, Vale do Rio Doce PNA, Bradesco PN, Usiminas PNA, Telemar PN, Itaubanco PN, Petrobras ON, Vale do Rio Doce ON, Companhia Siderúrgica Nacional ON e Cemig PN – responderam por 46% do mercado a vista.

A demanda por ações de empresas com boa governança corporativa é crescente e influencia as cotações. Dos 58 papéis da carteira teórica do Ibovespa, os que mais subiram no ano passado foram ALL UNT (alta de 124%), Tim Participações ON (107%), Acesita PN (99%), Sabesp ON (94%) e Bradespar PN (78%). No mesmo período, as maiores baixas do índice foram registradas pelas ações Telemar PN (queda de 19,6%), Telemar Norte Leste PNA (18%), Braskem PNA (17%), Telemig Participações PN (5,8%); Pão de Açúcar CBD PN (1,8%). No caso da Telemar, a queda foi influenciada por uma disputa da empresa com os acionistas minoritários. Em dezembro, a maioria dos portadores de ações preferenciais rejeitou o plano de reestruturação da empresa. A Telemar havia proposto a troca de ações preferenciais por ordinárias para entrar no Novo Mercado. Descontentes com a relação de troca oferecida, gestores de investimentos se mobilizaram e conseguiram impedir a transação. Em junho, os minoritários criaram uma entidade de representação, a Associação dos Investidores no Mercado de Capitais (Amec). Participaram da fundação 27 administradores de recursos, entre eles as empresas de gestão do Bradesco, do Banco do Brasil e do Itaú. Todos com o compromisso de defender os direitos dos seus cotistas em fundos de ações e clientes de carteiras administradas. “O objetivo é defender os minoritários”, afirmou o presidente da Amec e sócio da Mauá Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo. Sinal de amadurecimento do mercado, o ativismo societário – prática comum nos Estados Unidos e na Europa – veio para ficar.


Dólares fartos – Dólares não faltam para animar as companhias abertas nacionais a aderirem aos padrões modernos de governança corporativa. A participação dos investidores estrangeiros nessa fase de exuberância da Bolsa do Brasil tem sido fundamental para a evolução do mercado. No ano passado, seus negócios cresceram cerca de 60% na Bovespa. As compras de ações alcançaram R$ 212,8 bilhões e as vendas somaram R$ 211 bilhões. O saldo foi positivo em R$ 1,75 bilhão, o que elevou para R$ 16,9 bilhões a injeção líquida de capitais externos nos últimos quatro anos. O apetite é tão grande que os estrangeiros aumentaram de 32,8%, em 2005, para 35,5%, em 2006, sua participação no volume total negociado. Muitos analistas acreditam que a predominância dos dólares continue em 2007. “Os estrangeiros estão comprando e vão continuar”, diz Valentino, acrescentando: “Os preços relativos das ações no Brasil estão interessantes em relação aos de outros países emergentes. Ainda não subimos tanto.” Quanto mais perto o Brasil estiver de subir os dois degraus que faltam para ser considerado nível seguro de investimentos (investment grade), pelas agências de classificação de risco, mais poderá se intensificar a enxurrada de recursos. Uma parte dos dólares dos fundos de pensão norte-americanos que só investem em empresas de países de baixo risco seria destinada ao País. Nada mais natural.

Países com economias estáveis precisam de estabilidade econômica e bolsas fortes para crescer. E não existem bolsas relevantes sem uma base ampla de acionistas na população. O Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer quando cotejado com países como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Espanha, que têm milhões de investidores na bolsa. Os investidores diretos na Bovespa somam menos de 250 mil, mas o apetite dos brasileiros pelas ações cresce a olhos vistos. Desde 2000, as pessoas físicas têm sido responsáveis por mais de 20% das transações na Bovespa. Cinco anos antes, suas ordens representavam apenas 11% do total. Embora essa participação relativa tenha diminuído nos últimos dois anos – em 2004, chegou a 27,5% do volume total - diante do avanço dos estrangeiros, os investidores individuais dividem um bolo cada vez maior.

Com o programa de popularização Bovespa Vai até Você e o esforço das corretoras para disseminar a educação financeira e angariar novos clientes, as pessoas físicas vêem com bons olhos a compra de ações. Somente no ano passado foram criados 420 clubes de investimento, um recorde. Desde o lançamento do programa, em setembro de 2002, surgiram 1.364 clubes. No total, a Bovespa listou 1.631 clubes de investimento em dezembro passado, com mais de 130 mil cotistas e ativos de R$ 9,6 bilhões.

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O interesse crescente dos investidores pessoas físicas pode ser medido pelos negócios no Home Broker, sistema de compra e vendas de ações pela internet. Com o Home Broker, oferecido pelas corretoras de valores, os clientes têm a liberdade de operar diretamente no pregão da Bovespa. Em 2006, os negócios por meio desse canal bateram novos recordes. Em relação ao ano anterior, o volume médio mensal cresceu 82%, passando de R$ 3,3 bilhões para R$ 6 bilhões. O número de negócios subiu 78,5%, em média, alcançando 752,4 mil operações por mês. Os acessos ao sistema aumentaram 78,7%, passando de 34.843 para 62.266 por mês. Somente o Bradesco registrou, no final de dezembro, 63 mil investidores cadastrados em seu Home Broker. Um ano antes, eram 38 mil. O maior banco privado do País tem 17 milhões de clientes. Ou seja: há espaço para conquistar novos investidores para a Bolsa. “O potencial de crescimento é enorme”, diz Aníbal César J. dos Santos. A exuberância racional tem tudo para continuar.

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