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| Mulheres em Ação |
| Dia Internacional da Mulher |
| Miriam Scavone |
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Diferença com data para acabar
Imagine comemorar o Dia Internacional da Mulher sem precisar falar do que aconteceu, festejando a data só como marco de um movimento que atingiu todos os objetivos, incentivou a satisfação pessoal e o sucesso econômico das nações, possibilitou o uso do potencial humano sem barreiras entre os sexos e fez homens e mulheres de todo o planeta comungarem dos mesmos direitos e responsabilidades. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), isso acontecerá, com certeza... mas vai levar tempo.
A ONU acredita que se as conquistas continuarem na velocidade atual – e ela não é pequena –, só em 2490 as disparidades de gênero desaparecerão completamente do mundo. Já é possível prever quais países chegarão na frente. Os nórdicos – Suécia, Finlândia, Islândia, Noruega e Dinamarca –, com certeza. Assim como Alemanha, Filipinas, Nova Zelândia, Reino Unido e Irlanda. Segundo o Global Gender Gap Report, ranking divulgado em novembro de 2006 pelo Fórum Econômico Mundial que traz as nações mais e menos igualitárias em termos de gênero, são esses os dez países que mais avançaram rumo à igualdade. O levantamento envolveu 115 nações que abrigam 90% da população mundial. Levou-se em conta quatro indicadores: educação, saúde, oportunidade econômica e profissional e participação no quadro político do País.
Posição medíocre – O ranking mundial mostrou que já foram erradicadas do mundo 90% das disparidades no que se refere a educação e saúde. Entretanto, nenhum país possui igualdade total dentro de seu território. Os pontos mais vulneráveis continuam a ser a oportunidade profissional e econômica e a participação no quadro político. Mesmo na Suécia, país que lidera o ranking e é modelo no assunto, uma mulher recebe 71% do salário de um colega na mesma posição. E os Estados Unidos, por sua vez, ficaram na 22ª posição, porque só 15% dos cargos parlamentares, ministeriais e de chefes de Estado estavam na mão de mulheres em 2005.
O desempenho do Brasil não foi o pior, muito menos o melhor. Ficou na mediana (67ª posição). Média que poderia subir se fossem derrubados três obstáculos desafiadores: o abismo salarial entre os dois sexos, os poucos cargos políticos ocupados por mulheres e a desigualdade no acesso à educação. As mulheres ocupam a maioria dos bancos das universidades (57,4%) e estudam mais que os homens, mas, em termos proporcionais, ingressam menos que no ensino fundamental. Quanto à participação no governo, basta dizer que nunca foi superada a média de 12% da presença de mulheres no Legislativo – apesar de mais da metade da população ser do sexo feminino.
Conquistas nas leis – “Temos que ver também o aspecto positivo. O movimento das mulheres pela igualdade obteve conquistas numa velocidade impressionante, sem parâmetros na história”, comenta Flavia Piovesan, professora-doutora na área de Direitos Humanos e membro do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem). “As mudanças podem ser lentas, mas elas são constantes.”
No Brasil, o primeiro marco foi o ano de 1932, quando foi estendido à mulher o direito ao voto. Em 1988, veio a maior das conquistas: a Constituição Federal, que consagrou, pela primeira vez na história do País, a igualdade de gênero como direito fundamental. Em 2002, o Novo Código Civil consolidou as mudanças constitucionais. Além disso, o governo brasileiro, em 1994, retirou todas as ressalvas que havia feito ao ratificar a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher, em 1979. Ao menos no aspecto legal, nada, absolutamente nada, poderia obstruir a igualdade de gênero no Brasil. Então, o que tem impedido que ela aconteça na prática?
Mais oportunidades – Se o ranking dependesse apenas do quesito saúde, o Brasil levaria o primeiro prêmio, junto com mais 33 países. E se fossem levadas em conta apenas oportunidades econômicas e profissionais, estaria na 63ª posição. Pior ainda se o quesito avaliado fosse cargos no governo: 86ª posição. “A igualdade é lei, mas a mudança cultural exige um tempo muito maior para acontecer”, comenta Flavia. “No ambiente público a democratização tem andado a passos largos, mas falta a mudanças de mentalidade mais profunda na esfera privada e familiar. Os papéis masculinos e femininos precisam ser radicalmente redefinidos, e isso inclui, por exemplo, a divisão, de fato, dos cuidados com a casa e a família.” Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 91,3% das brasileiras que trabalham fora fazem serviços domésticos quando estão em casa. Entre os homens, a cifra cai para 42,6%.
Mercado de trabalho – Mesmo com mais educação e menos filhos, a brasileira continua a ganhar, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma média de 33% do salário do brasileiro. E há indícios de que o abismo aumenta nos cargos mais altos. “Essa diferença diminui à medida que a participação feminina cresce no mercado de trabalho. Só nos últimos 12 anos, ela passou de 42 para 48%”, assinala o economista Paulo Tafner, pesquisador do Ipea e coordenador do projeto Brasil: o estado de uma nação, que produz, anualmente, uma edição com o retrato do País em vários setores. “As empresas estão percebendo e quantificando mais precisamente a produtividade feminina. Por outro lado, a mulher está mais treinada, tanto em habilidades técnicas quanto em gerenciais e de comando.”
Isso poderá derrubar mais rapidamente o teto de vidro, barreira cultural que muitas vezes impede a ascensão feminina a altos cargos nas empresas e no governo, especialmente em áreas não relacionadas à saúde, educação ou assistência social, campos tradicionalmente reservados às mulheres. E assim as brasileiras, quem sabe, nem precisem aguardar até 2490 para comemorar a conquista da igualdade total e irrestrita. Na prática. |
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Laís Abramo
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| Laís Abramo |
| O custo de contratar mulheres é semelhante ao dos homens |
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As mulheres estão entrando com mais força no mercado, afirma a especialista em questões de gênero e trabalho na América Latina Laís Abramo. Ela é a primeira mulher a assumir a chefia do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil. Formada em Ciências Sociais pela USP, vivia no Chile desde 1988, onde iniciou sua carreira em órgãos das Nações Unidas, trabalhando na OIT e na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). De volta ao Brasil em 2004, assumiu em 2005 a direção do escritório da OIT em Brasília. Mãe de dois filhos, Gabriel, de 14 anos, e Laura, de 19, adicionou mais um papel à sua dupla – e agora tripla jornada de trabalho –, pois, no início do ano, seu marido foi nomeado embaixador do Chile no Brasil.
A senhora fez carreira como profissional de instituições importantes da ONU, como a OIT e a Cepal. O fato de ser mulher desempenhou um papel neste percurso?
— Organizações como a OIT evidentemente estão comprometidas com o objetivo da promoção da igualdade de gênero na sua estrutura. Ainda assim, mesmo nestas instituições, a situação das mulheres ainda não é de igualdade. Tem se avançado muito, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, principalmente no que diz respeito aos cargos de direção. No caso do Brasil, sou diretora do escritório da OIT desde maio de 2005, e é a primeira vez que uma mulher assume um cargo como este. Na América Latina, a primeira vez que uma mulher ocupou o cargo de diretora de um escritório foi em 2000, na Argentina. Como em todo ambiente de trabalho, ainda existem barreiras de acesso aos cargos de direção, além da questão da compatibilização da vida profissional com a vida familiar. E existe o problema de acesso às redes de poder, importantes em termos de oportunidades e promoções. O acesso das mulheres a essas redes ainda é bastante difícil. E existe maior exigência em relação ao desempenho: para ser considerada boa profissional, a mulher tem de provar isso a cada momento.
Coordenou uma pesquisa sobre os custos do trabalho de homens e mulheres na América Latina, concluindo pela necessidade de promover maior equilíbrio entre trabalhadores de ambos os sexos.
— De fato, as mulheres estão entrando no mercado de trabalho com força cada vez maior. Mas o grande problema é que ainda são vistas como as principais responsáveis pelos cuidados com a casa e os filhos. Ainda não aconteceu uma divisão mais equilibrada de responsabilidades familiares entre homens e mulheres. Apesar de ingressar no mercado de trabalho, a mulher continua sendo responsável pela administração da casa, dos afetos, dos cuidados domésticos. Os homens ainda não assumiram seu papel nesta esfera. É importante que isso seja repactuado, que a empresa seja um ambiente mais favorável para esta articulação entre o trabalho e as outras dimensões da vida e haja políticas de reconciliação entre o trabalho e a vida familiar que permitam tanto ao homem quanto à mulher uma vida mais equilibrada.
Como trata os custos de contratação de mulheres?
— Existe uma visão de que o custo de contratação das mulheres seria mais elevado, o que justificaria o fato de seus salários serem mais baixos. Na verdade, isto é um mito: quem paga as despesas com licença-maternidade, e a maioria dos outros custos ligados à reprodução não é a empresa, mas a Previdência. Pesquisa feita em cinco países da América Latina constatou que o custo adicional da contratação das mulheres é irrelevante e não pode justificar os salários menores. (René Decol) |
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| Rosiska Darcy de Oliveira
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| Mais espaço político
na sociedade |
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Rosiska Darcy de Oliveira
Formada em direito pela PUC do Rio de Janeiro, Rosiska Darcy de Oliveira nunca exerceu a advocacia, mas se tornou uma das maiores defensoras da educação e das mulheres, no Brasil e no mundo. “Comecei como jornalista, mas minha carreira foi interrompida pela ditadura”, conta. Como muitos exilados políticos que tiveram de deixar o País, foi morar na Suíça, onde se doutorou em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra e foi professora por 10 anos, voltando depois à PUC. Representante do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), consultora do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criou a ONG Centro de Liderança da Mulher, no Rio, que dirige atualmente.
Em trabalho, afirma que em algum momento as mulheres passaram a “falar o masculino sem sotaque” para serem aceitas no mundo do trabalho. Hoje elas já estão falando com sua própria voz?
— Ainda não. Eu acho que é uma tendência, uma tendência que se afirma, e há exemplos importantes. Estou chegando de Paris, onde a candidatura da Ségolène Royal à Presidência da França é um fato político extraordinário, porque é uma candidatura baseada na feminilidade, baseada nos valores femininos, na capacidade da mulher. Então acho que há um espaço político cada vez maior para a mulher. Elas não precisam mais se disfarçar em homens para ser respeitadas. Pelo contrário, o feminino hoje está merecendo o respeito da sociedade. Há uma expectativa de que as mulheres possam trazer algo de bom, algo de novo, uma visão de mundo diferente para a sociedade.
Disse também que não se trata mais de pensar em um mundo onde as mulheres vão se adaptar, mas sim “adaptar o mundo à existência das mulheres”.
— Este é o conteúdo de um dos meus livros, Reengenharia do tempo. A verdade é que as mulheres entraram no mundo dos homens, quer dizer, no mundo do trabalho, disfarçando, escondendo a vida privada. A vida privada era considerada um “defeito”, que era atribuído às mulheres, como se não fosse uma questão dos homens e das mulheres. Mas, como são as mulheres que assumem a vida privada, passou a ser um problema delas. Então elas passaram a viver duas vidas em 24h, algo esgotante, e que escondia o verdadeiro problema que é compatibilizar, tanto para homens quanto para mulheres, a vida privada com a vida do trabalho. Em um país como o Brasil, onde a participação da mulher no mercado de trabalho já é quase igual à do homem, é preciso fazer uma reengenharia do tempo. O mercado de trabalho tem de levar em consideração a vida privada. Coisa que ele pode, até agora ignorar, porque a mulher se encarregava... Mas não é possível sacrificar a vida privada, porque é nela que se formam os valores, se dá a educação, a vida afetiva, a vida amorosa. Enfim, sacrificar a vida privada é sacrificar uma parte importante da existência.
Que atividades profissionais teve em Paris?
— Fui participar de um painel de alto nível, formado por cinco pessoas, que está aconselhando o diretor geral da Unesco, a quem foi atribuída a responsabilidade de fazer um programa mundial de educação para o desenvolvimento sustentável. É um trabalho gigantesco, há muitas variáveis culturais, um projeto importante e complexo. Fiquei fascinada. A questão do desenvolvimento sustentável entrou definitivamente na pauta mundial.
Qual é a relação entre a mulher e o desenvolvimento sustentável?
— As mulheres são um elo essencial na questão do desenvolvimento sustentável. Antes de escola, antes de qualquer coisa, quem forma valores são as mães. Elas têm função estratégica na formação de valores, de personalidade, de mudança de comportamentos. Sobretudo nas regiões mais pobres, as mulheres têm uma relação direta com a terra e com o meio ambiente. (René Decol) |
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