|
Agronegócio traz mais empresas para o mercado
As notícias espalham-se como o vento: “Relatório da ONU, apresentado no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, pede que países adotem o etanol”;
“A União Européia admite importar 30% de etanol – por falta de terras, a meta de abastecer 10% da frota de veículos até 2020 só será atingida dessa forma”; “Brasil é modelo mundial com seu álcool de cana, diz Bill Clinton”; “Estados Unidos aumentam este ano em 15% a área plantada de milho”, para produzir etanol mais caro e trabalhoso que o nosso, de cana. O Brasil já tem o que o mundo quer e é talvez o único que pode responder à demanda do mundo nos próximos anos, em termos de alimentos, combustíveis, fibras, rações.
Na esteira de um avanço em tecnologia agrícola e sofisticada pesquisa genética, que multiplicou a produtividade e reduziu custos, o agronegócio brasileiro modernizou-se, deixando para trás o rótulo de economia primária e, portanto, atrasada. Sextuplicou em 40 anos a produção de grãos (espera-se este ano uma safra de 130 milhões de toneladas, em lugar dos 20 milhões de 1960), barateou preços para funcionar como um salário indireto e fornecer comida no mercado interno, continuou a avançar nas exportações, a ponto de representar quase 90% do superávit comercial. Modernizou-se, enfim, no que diz respeito à produção e à distribuição.
Faltava um passo em direção a essa modernização: a descoberta do mercado de capitais como instrumento de financiamento do seu crescimento. Já não falta mais. Nos últimos dois anos e meio, nove companhias fizeram ofertas públicas de ações e ingressaram no Novo Mercado, redesenhando sua gestão a ponto de responder às mais altas exigências de governança e transparência, compatíveis com o padrão internacional. Outras três estão na fila da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e não será surpresa se uma meia dúzia de companhias tomar a decisão de abrir o capital nos próximos meses.
Ao lado das companhias ligadas ao setor imobiliário, a caminhada do agronegócio rumo à Bolsa teve também participação importante no processo de valorização das ações. Novas empresas, com amplas e boas perspectivas, sobretudo no mercado externo, criam alternativas de aplicação, de médio e longo prazo, para pessoas físicas e fundos institucionais, a começar pelos investidores estrangeiros. Por isso mesmo, o Ibovespa vem batendo recordes sucessivos este ano: cruzou a marca dos 50 mil pontos no dia 3 de maio e rompeu a barreira dos 52 mil a 15 de maio. Mais relevante ainda: pôde recuperar-se da perturbação provocada pela Bolsa de Xangai, que teve queda abrupta no dia 27 de fevereiro (potencializada, nos dias seguintes, pelos desarranjos no mercado subprime de imóveis dos Estados Unidos). Naquele dia, o Ibovespa caiu mais de 6%, fechando o mês com queda acumulada no ano de 1,3%. Em meados de março, porém, a atração do mercado se impunha e o índice retomava a trajetória ascendente, cravando 13% de alta acumulada no ano no dia 14 de maio. Bancos e grandes consultorias já revisam suas projeções, prevendo um Ibovespa entre 56 mil e 60 mil pontos em dezembro.
Horizonte de oportunidades – A transformação do agronegócio é a contrapartida das empresas para adequar-se aos novos tempos. É com ela que poderão habilitar-se a aproveitar o amplo horizonte de oportunidades que as próximas décadas deverão trazer para os produtores brasileiros de combustíveis e alimentos (e, em grau menor, fibras que suprem, por exemplo, as áreas têxtil e de papel e celulose). “É a maneira de conseguir recursos baratos e obedecer a padrões de governança corporativa que dão confiança aos parceiros internacionais”, diz Marcos S. Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), um think-tank civil criado em São Paulo para mergulhar nos assuntos resumidos em seu próprio nome – e que dá suporte tanto às entidades do setor como ao próprio Itamaraty. “As condições externas são ótimas”, acrescenta, para ressalvar: “Apesar de toda a expansão, o que temos é que enfrentar nossos problemas internos, como câmbio, infra-estrutura, defesa sanitária.”
Desde que o presidente George W. Bush declarou que pretende substituir por etanol 15% da gasolina consumida pelos americanos, o caso dos biocombustíveis parece ter se tornado um falso teatro de operações, tanto econômico como ambiental. Os americanos fazem álcool de milho, cujo rendimento é, dizem os especialistas, 60% menor e custa o dobro do nosso álcool de cana. Aceleraram recentemente o processo e, grandes como são, conquistaram o primeiro posto mundial na produção de etanol – este combustível já é o segundo destino do milho americano (o primeiro ainda é ração para porcos e aves). Isso, naturalmente, está pressionando os preços e despertando críticas em muitos auditórios.
Temores de Castro – De seu leito hospitalar, Fidel Castro julgou oportuno advertir: “O etanol que os americanos produzem vai ameaçar a produção de alimentos no mundo e aumentar a fome dos pobres”. A revista britânica The Economist veio, por vias traversas, em seu socorro. Conservadora e (às vezes) mordaz, reconheceu: “Parece estranho ficarmos ao lado de Fidel, mas neste caso ele tem razão; álcool não deve vir do milho, mas da cana, como fazem os brasileiros”. Mais ou menos na mesma linha, outra reputada publicação, o americano Wall Street Journal, insinuou para os fazendeiros de seu país: “É bom vocês começarem a aprender português. Vejam o exemplo brasileiro”.
Não só o milho pode provocar alguma inflação no mundo. Juntando-se à cadeia, a soja (de onde se extrai o biodiesel) também pode fazê-lo. Mas esse impacto terá de ser absorvido, como já o foram tantas outras pressões inflacionárias anteriores. Tudo o mais acabará se revelando uma batalha de Itararé. Em qualquer caso, o Brasil só tem a ganhar: de um lado, porque melhores preços estimularão a produção (de milho, soja, etc.) e o investimento das empresas; de outro, porque o risco de desabastecimento é mínimo.
 |
| Marcos Jank, do Icone |
| Enfrentar problemas como câmbio, infra-estrutura e defesa sanitária |
|
Quem tem ainda no mundo terras de boa qualidade, sol e água adequados, somos nós. O Brasil dispõe de cerca de 400 milhões de hectares de terras aráveis. Desse total, 65 milhões são ocupados pela produção agrícola; o restante, por pastagens e áreas não utilizadas. A cana ocupa 7 milhões de hectares, metade para açúcar, metade para álcool – isso representa 10% da área utilizada atualmente e menos de 2% da área total utilizável. O etanol responde por metade disso. Há, portanto, imensa disponibilidade. “Se os americanos resolvessem importar tudo o que está previsto no Plano Bush, o Brasil teria de triplicar a produção de cana”, diz Marcos Jank; “mesmo assim, isso só representaria 7% da área total”.
Mar de cana – Produzimos atualmente 18 bilhões de litros de álcool por ano, em 350 usinas. À luz do cenário hoje disponível, prevê-se o dobro para 2012. Certamente haverá ganhos tecnológicos e de produtividade ao longo desse período, com as usinas produzindo mais em operações e áreas menores (para não falar na investigação de novas fontes, como a celulose, por exemplo). Mas é certo que a ocupação territorial continuará. Em vez de substituir a produção de alimentos, a cana seguirá avançando pelas áreas de pastos – com grandes ganhos de modernização, no dizer dos defensores do agronegócio, uma vez que obrigará os pecuaristas a investir no seu negócio, produzindo mais em menos terra e eliminando bolsões de ineficiência. “Soja, milho, algodão e cana disputarão o uso da terra”, afirma Jank.
 |
| clique para ampliar |
 |
|
Do ponto de vista ambiental, o nosso álcool (tirando a queima da cana) é muito mais amigável do que outras fontes – não precisa ser ativamente poluente como petróleo ou carvão. Produz impactos, é claro, até mesmo sociais e culturais. O “mar de cana” do Sudeste já avança pelo Sul, Nordeste e Centro-oeste. Muda a geografia e ecossistemas, troca vocações regionais e pessoais – e leva a produção de alimentos para mais longe. Mas, dano menor, com um pouco de inevitável cinismo pode-se dizer: teremos de aprender a conviver com ele e absorvê-lo. Não há caso de exploração econômica que deixe a natureza absolutamente virgem, nem de almoço grátis.
 |
| clique para ampliar |
 |
|
Ao lado dos biocombustíveis – que pode abrir para o Brasil as fronteiras até da África, como disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao papa Bento XVI –, outro trunfo do agronegócio é obviamente a produção de alimentos. Responsável por quase todo o superávit comercial brasileiro, o agronegócio (aí entendida tanto a produção dentro da porteira da fazenda, como a de fora da porteira, ou seja, a conseqüente industrialização, a distribuição e os serviços financeiros correlatos) ajuda a diversificar mercados. Em 2003, as exportações brasileiras para países ricos e pobres já tinham empatado (como se vê no gráfico). Para 2012, prevê-se que, dos US$ 60 bilhões projetados em exportações do agronegócio, US$ 35 bilhões destinar-se-ão aos países em desenvolvimento.
Apetite e fome – A demanda potencial está em aberto. Evidentemente, a fome no mundo é grande, mas há transformações progressivas dignas de nota. A população cresce e chega aos 6,2 bilhões de pessoas. A rápida urbanização já fez empatar o número de habitantes da cidade e do campo. A renda aumenta, principalmente na Ásia, Rússia e Leste Europeu, países árabes. Entre os ricos, mudam os hábitos de consumo. Estudos da FAO, a organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura, revelam que, nas próximas décadas, haverá relativa substituição de cereais e amidos por carnes, lácteos, frutas, doces, alimentos processados. Os produtos orgânicos correm por fora: o mercado mundial cresceu de US$ 22 bilhões, em 1999, a US$ 69 bilhões em 2007 e já representam de 4% a 5% do mercado nos países desenvolvidos.
É nesse quadro que se locomovem as companhias brasileiras do agronegócio. De olho no mercado interno, mas instigadas pelo apetite do mercado externo, dominam os processos produtivos, de comercialização e distribuição. Cuidam agora de dar novo salto, um salto de qualidade que as habilita a pensar no longo prazo. Perceberam os instrumentos disponíveis no mercado de capitais, aqueles que lhes permitirão dar sustentação ao crescimento e à inevitável reorganização interna.
 |
| Fabiano Costa, da Scot |
| Empresas estrangeiras e nacionais avaliam o ingresso na Bolsa |
|
A Bovespa sempre teve empresas dos setores de alimentos e agrícolas entre suas companhias listadas. Destacam-se, entre elas, exemplos como os da Sadia e da AmBev (para não falar em segmentos como café solúvel), de grande liquidez e perspectivas. Mas o que vale enfatizar aqui são as da nova safra, as companhias que decidiram dar um passo ousado e ingressar diretamente ao Novo Mercado, um segmento que exige práticas de governança corporativa em linhas com padrões globais. Considerando Perdigão e M. Dias Branco, que aderiram em 2006, já existem nove empresas: além delas, Renar, Cosan, Brasil Agro, Brasil Ecodiesel, São Martinho, JBS/Friboi e Fertilizantes Heringer. Outras três protocolaram pedidos de registro junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM): SLC Agrícola, frigorífico Marfrig e Nova América (açúcar União). Outras ainda, segundo o noticiário, estudam a possibilidade de entrar na Bolsa: é o caso da trading global Louis Dreifuss e dos frigoríficos Bertin e Independência – “que virão logo”, no entender do analista Fabiano Tito Costa, da Scot Consultoria, especializado no ramo.
O mercado como um todo tem protagonizado recordes tanto em termos de valorização em bolsa como em volume de ofertas públicas de ações. No ano passado, as ofertas públicas captaram R$ 31,2 bilhões, segundo a CVM; as ofertas de quatro companhias – dentro do que consideramos, latu sensu, agronegócio – responderam por 7,5% do total (como se vê no gráfico). Este ano, em apenas quatro meses, as ofertas públicas já ultrapassaram a metade das ofertas do ano passado inteiro: chegam a R$ 19,5 bilhões. E os lançamentos de apenas três companhias significam 13,4% do total. A oferta do JBS/Friboi – que está pretendendo comprar o americano Swift – foi a maior de todas essas até agora (R$ 1,84 bilhão), só perdendo para a oferta secundária da Usiminas, que captou pouco mais de R$ 2 bilhões.
 |
| clique para ampliar |
 |
|
Profissionalização – Mantidas as atuais inclinações de liquidez e temperatura – e tudo indica que sim, bastando ver as projeções de alta para o Ibovespa, de maior crescimento do PIB, do crescente apetite mundial, a começar pela China –, a tendência é inequívoca. O agronegócio continuará a reformular-se, agora do ponto de vista da operação, da gestão, da transparência, da reestruturação societária, da utilização de instrumentos derivativos para preservar produção e vendas. E para captar crescentes recursos até mesmo dos grandes fundos globais.
Os segmentos do agronegócio, marcadamente os de etanol e carnes, são compostos por constelações de empresas, heterogêneas e muitas vezes ineficientes. “Somos o maior exportador de carne bovina do mundo, só aqui se pode aumentar a produção”, diz o analista Fabiano Costa. “Carne exige escala e exportação exige transparência e governança”, afirma, acrescentando: “O produtor teme perder poder de barganha, mas a concentração é irreversível”.
Além disso, empresas familiares, muitas já na terceira geração, precisam profissionalizar-se para enfrentar a competição, diz Jank (embora a presença estrangeira ainda não assuste, segundo ele: só tem 6% do setor alcooleiro). “Vamos assistir a esse processo nos próximos dez anos.” O que é disperso vai consolidar-se. Quem ainda não se preparou cuida de fazê-lo. O agronegócio – e o mercado – começa uma nova etapa.
|
|