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A palavra-chave é elasticidade
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| Lewis Perelman |
| Mercados absorvem e digerem preocupações |
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Descentralização, iniciativa privada e elasticidade – ou adaptação à mudança – são os desafios de um mundo cada vez mais interconectado e complexo, afirma o escritor e consultor norte-americano Lewis Perelman, em entrevista para a Revista Bovespa. “O governo americano foi pego desprevenido e despreparado para o desastre”, diz ele sobre o furacão Katrina, que devastou o sudeste dos Estados Unidos, em 2005. “E ainda luta com imensas dificuldades para recuperar uma área do tamanho da Grã- Bretanha”.
Dadas as novas condicionantes dos mercados financeiro e de capitais, uma falha no sistema da Bolsa de Xangai pode reverberar no mundo em segundos. Mas o que vemos, diz Perelman, é que os mercados absorvem, digerem e se ajustam a perturbações. Há um enorme interesse partilhado de se manterem a robustez e a capacidade do sistema de se defender de ataques. O mercado financeiro está na vanguarda. O foco da segurança – ou sustentabilidade real – muda de prevenção e resistência para adaptação e elasticidade.
Para Perelman, virou moda ser verde. “Sustentável” é a palavra mágica do momento. Há carteiras “verdes” e fundos de ações sustentáveis, mas não basta ser verde para ser sustentável. Para sobreviver, empreendimentos, comunidades e até nações têm de estar aptos a enfrentar crises e desastres. Em síntese, é disso que trata a chamada “agenda azul” de Perelman. Sustentabilidade de fato, argumenta ele, requer uma mistura prudente da “agenda verde” e das precauções “azuis” – não apenas proteção contra riscos de longo prazo, mas também preparação, agilidade, flexibilidade, e capacidade para se adaptar a novas circunstâncias. Em uma palavra, elasticidade.
Perelman trabalha há mais de 30 anos como analista, professor e consultor em transporte, energia, proteção ambiental, capital humano, segurança nacional, inovação tecnológica, desenvolvimento econômico e de negócios. Em 1992, ganhou notoriedade por seu livro School’s Out, onde antecipou a revolução que a internet e as novas tecnologias da informação trariam ao mundo da educação, do trabalho e dos negócios. Hoje, é analista do recém-criado Homeland Security Institute.
O senhor diz que além dos aspectos ambientais, devemos levar em conta outros tipos de risco. Isto parece razoável em países desenvolvidos, mas o que dizer de países como o Brasil, onde há problemas nunca resolvidos e onde o Estado jurássico já é, em si mesmo, um desastre?
— Os problemas políticos e estruturais são conhecidos e podem obscurecer o fato de que o Brasil é altamente vulnerável a desastres, tais como secas e inundações. Boa parte da população vive concentrada em metrópoles costeiras e qualquer elevação do nível do mar, o que já é dado como inevitável, terá conseqüências devastadoras em cidades litorâneas como Rio de Janeiro, Florianópolis e a maioria das capitais das Regiões Nordeste e Norte. Isto não está sendo levado em conta, por exemplo, no número crescente de empreendimentos imobiliários no litoral. Além disso, crime, violência, corrupção, infra-estrutura dilapidada e o crescente consórcio pernicioso entre terrorismo e tráfico de drogas, como se vê nas manchetes dos jornais brasileiros, são fontes de risco para os negócios e a sociedade como um todo. São riscos que raramente vemos incorporados aos projetos que se pretendem sustentáveis. Muitas iniciativas ditas “sustentáveis” podem não ser sustentáveis, na prática, se a capacidade de suportar conseqüências não previstas não for levada em conta. Elasticidade não é apenas ter planos de contingência para responder a emergências, é desenvolver a capacidade social e a infra-estrutura para sobreviver, se adaptar, e continuar funcionando mesmo em face ao desastre. E essas soluções necessariamente passam pelo nível local.
Dê um exemplo?
— Nos Estados Unidos e na Europa, proliferam os chamados green buildings, ou prédios ecológicos, capazes de gerar sua própria energia com baterias solares, tratar e reaproveitar a água da chuva, e uma série de outros recursos. Além disso, abrigam um número crescente de serviços como restaurantes e lojas. Por que não ampliar esta idéia para os serviços públicos, e fazer que estes prédios abriguem também postos policiais, centros de comunicação, ambulatórios e até hospitais? Desta forma descentralizada, a sociedade poderia continuar funcionando mesmo que um desastre cortasse as linhas de comunicação e transporte.
Como afirma, “verde” não é sinônimo de “sustentável”. Por que a confusão?
— Ser sustentável, do jeito que se fala hoje em dia, pode não ser o suficiente para garantir a sobrevivência de um empreendimento privado ou estatal. O que quer dizer sustentabilidade, na prática? Em geral, é uma vaga combinação de melhoria da eficiência do uso de recursos, boas intenções em relação ao meio ambiente e uma noção de responsabilidade social. Mas essas coisas nem sempre caminham juntas. A British Petroleum tem obtido bons resultados em termos do que hoje é considerado “sustentável”, mas tem sido suscetível a desastres: uma de suas refinarias explodiu, causando a morte de 15 pessoas no Texas; outra foi multada por violações de normas de segurança em Ohio; e um de seus oleodutos, no Alasca, sofreu grave vazamento por problemas de manutenção.
Há alguns meses, uma pane num computador da Bolsa de Xangai repercutiu no mundo, as cotações caíram, mas logo tudo voltou ao normal. Os mercados estão mais preparados?
— Os mercados absorvem, digerem e se ajustam a perturbações com uma elasticidade considerável. E não por acaso: exatamente porque são complexos e interligados, há um enorme interesse partilhado no sentido de se manter a robustez e a capacidade do sistema de se defender de ataques, como, por exemplo, ataques às redes de computadores. (Aliás, o Brasil é um dos países do mundo de onde partem mais ataques.) Há um esforço notável no mundo todo para melhorar a segurança, a confiabilidade e a sustentabilidade deste sistema, e os investimentos são vultosos. Exatamente porque os especialistas na engenharia destas redes entendem que proteção e segurança total são impossíveis, estão focando cada vez mais a elasticidade, mediante o uso de backups, redundância, diversificação, descentralização, melhorias no gerenciamento do capital humano. Outra fonte de elasticidade nos mercados globais é a criação de produtos e serviços financeiros. Muito desta inovação tem servido para aumentar o número e a sofisticação de ferramentas disponíveis para administrar o risco. A combinação de boa governança corporativa e diversificação de ferramentas leva a mercados mais flexíveis, ágeis, adaptativos e elásticos. O mercado financeiro parece estar na vanguarda do movimento de mudança do foco da segurança – ou sustentabilidade real – de prevenção e resistência para adaptação e elasticidade. Seria interessante se o mesmo acontecesse em outros setores, como a gestão do Estado. Infelizmente, não está acontecendo, e não é só no Brasil. Mesmo nos Estados Unidos, não estamos sequer preparados para lidar com as conseqüências de um desastre natural como furacões, que acontecem todos os anos, e muito menos ataques terroristas. A capacidade física e biológica da Terra tem passado por mudanças dramáticas nos seus 3,5 bilhões de anos. Cientistas acreditam que um asteróide colidiu com o planeta há cerca de 65 milhões de anos eliminando a maior parte das espécies, inclusive dinossauros. E agora sabemos que um vulcão explodiu na Indonésia há 74 mil anos, espalhando cinzas pela atmosfera que podem ter causado uma diminuição da temperatura média da Terra em mais de 20 graus centígrados, matando três quartos das espécies em alguns locais, e quase extinguindo a vida humana. Na verdade, não há nada de sustentável por si só na natureza. A ciência sabe disso há muito tempo.
No momento há um grande entusiasmo no Brasil com o etanol. Falou-se até em transformar o País numa espécie de “Arábia Saudita verde”. Há perigos por trás desta visão?
— Qualquer monocultura é menos elástica, e mais vulnerável a desastres como pestes, sem falar na mudança climática. Além disso, quando analistas americanos sugerem para os brasileiros que seria ótimo transformar seu país em uma Arábia Saudita verde, eles deveriam lembrar que nem tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. O Brasil poderia se tornar a Arábia Saudita verde; mas pode se tornar também o Iraque do etanol. O controle de uma indústria massiva e estratégica, que substituísse o petróleo árabe, seria ótimo para os americanos; mas seria bom para o seu país? Poderia se tornar um ímã para corrupção (como acontece na Venezuela), crime e até terrorismo.
O senhor diz que o novo paradigma de elasticidade é o grande desafio tanto para governos como para empresas. Tivemos um exemplo recente com a crise do controle aéreo. O governo pareceu oscilar o tempo todo entre o paradigma duro (uso da disciplina militar) e o novo paradigma (adaptação) sem se definir por nenhum. Qual a atitude correta?
— Muita gente já disse que a tecnologia da informação tornou o modelo de controle aéreo centralizado obsoleto. Com as novas tecnologias seria possível usar o princípio da elasticidade descentralizada na aviação, dando a cada avião a possibilidade de ver no seu radar onde estão os outros. O tipo de comunicação e controle típico da internet, “muitos-para-muitos”, é mais elástico do que o comando centralizado porque pode se adaptar a mudanças com mais agilidade. Mas até nos Estados Unidos, a inércia burocrática do governo, e as leis trabalhistas ultrapassadas dificultam colocar este potencial em prática. |