Acionistas
Eles estão de olho na Bolsa
Vitória Guimarães

Milhares de novos investidores chegam, mensalmente, ao mercado acionário. Na Câmara Brasileira de Custódia e Liquidação (CBLC), 236,9 mil aplicadores pessoas físicas em ações ingressaram na Bolsa em 2007, somando-se aos 219,6 mil existentes em 2006. A maioria dos novos investidores são jovens, que usam o Home Broker, o sistema de negociação para pequenos aplicadores feito pela internet, ou entram em clubes de investimento, que permitem começar aos pouquinhos a formar uma carteira para o futuro.

A popularização do mercado de capitais ajuda muito. Mas eles desembarcaram na Bolsa por incentivo da família, como Augusto Gonçalves, 14 anos; para fazer previdência, como Carlos Pitta, 22 anos; ou seduzidos pela expectativa de rentabilidade, como Benjamin J. A partir deste número, a Revista Bovespa terá um capítulo destinado aos investidores dos mais diversos perfis, tanto os muito - ou muitíssimo - jovens como os aplicadores mais velhos. É o que mostram os depoimentos e entrevistas a seguir.

Carlos Pitta, economista

Estudando com cuidado onde investir

COMPRAR NA BAIXA - Luiz de Jesus Fernandes, 76 anos, comerciante aposentado - conhecido como "seu" Luiz - diz que "não entende nada de Bolsa", mas mostra o contrário, ao seguir a mais velha recomendação dos corretores: "É na baixa que se deve comprar". E, naturalmente, vender na alta. Seria difícil acumular um belo patrimônio sem seguir essa regra, como fez Jesus Fernandes desde que adquiriu as primeiras ações do Banespa, em 1996. Ex-dono de padaria, afirma que não tem medo de baixas, "que podem ocorrer em qualquer tipo de negócio" e que, atualmente, não se preocupa tanto em verificar as oscilações. Antes checava pelo computador e por fax, mas depois se cansou. Hoje só olha o extrato no fim do mês. Então mostra os resultados aos seus familiares, para encorajá-los a investir também. Como os parentes ainda estão um tanto receosos, "seu" Luiz quer montar um clube de investimento só com eles.

Depois de 35 anos atrás do balcão, está negociando um imóvel para abrir um empreendimento. Ainda não sabe o que será, mas vai ser "tudo bem moderno" e "tudo com o dinheiro da Bolsa". "Seu" Luiz confia tanto no País que a maior parte dos recursos de que dispõe está aplicada em papéis do Banco do Brasil e da Petrobras. E é disciplinado: "Todo mês separo uma quantia e compro ações."

MENOS AGRESSIVO, COMPRA NA BAIXA - O publicitário e diretor de arte Benjamin J., formado em administração de empresas pela FGV, prefere não declinar o nome de família ou tirar foto de frente, temendo pela segurança. Há sete anos, aplicou todas as economias em fundos de ações. "O que me atraiu foram os altos rendimentos que poderiam ser propiciados pelas ações, comparativamente à poupança e aos fundos DI, que a maioria das pessoas recomendavam. Como eu tinha só 23 anos e um longo futuro profissional pela frente, resolvi ser mais agressivo e aplicar tudo que tinha juntado até então em ações," conta ele. Tão logo se organizou para acompanhar de perto as oscilações do mercado acionário, diversificou os investimentos, separando "uma parte para investir por conta própria".

Do total aplicado, 15% estão em ações, 35% em fundos de ações e o restante em fundos multimercado. Hoje, conforme sua autoavaliação, já não é tão agressivo como antes. "Mesmo assim, evito aplicações muito conservadoras", afirma.

O diretor de arte procura se manter informado, tanto sobre o mercado de ações como sobre o cenário econômico. "Recebo boletins diários sobre o mercado, acompanho blogs, análises grafistas e fundamentalistas para basear minhas aplicações, além de conversar sempre com amigos e colegas de faculdade, e com meu pai que também investe e costuma dar ótimos conselhos." Mesmo assim, segue antes de tudo a própria intuição. "Em dezembro, muita gente falava que a Bolsa chegaria a 67 mil pontos, mas resolvi realizar meus lucros quando o índice passou dos 64.500 pontos. Dei graças a Deus de ter saído antes da queda, pois parte dos lucros foram destinados a uma bela viagem de fim de ano." Ultimamente, afirma, "compro sempre que tem uma grande baixa, mas se a ação se recupera logo eu prefiro vender e realizar o lucro, pois, apesar de estar otimista, o futuro anda meio incerto".

AMBIENTE DE TRABALHO FAVORÁVEL - Economista de uma corretora de valores, Carlos Gustavo Pitta, 22 anos, aproveita o ambiente profissional para trocar informações. "É importante uma segunda opinião", diz ele. "A interpretação varia dependendo da pessoa, e a comunicação entre os amigos e colegas pode gerar maior confiabilidade nas decisões."

Pitta começou a comprar ações há dois anos. Como atua na área de fundos de investimento e faz análises de rentabilidade, leva em conta as pesquisas para orientar a própria compra. "As análises permitem conhecer um pouco mais sobre as empresas, a volatilidade e os tipos de ação que estão bem", observa. Gere os investimentos com tranqüilidade: "Como o meu foco é o longo prazo, verifico as oscilações algumas vezes por dia, porém sem muita preocupação."

Normalmente, prefere ações de empresas sólidas e tradicionais. Mas esta é apenas uma entre as opções de aplicação (tem 80% em fundos multimercado e 20% em renda variável. Tenta aproveitar as oscilações para achar o melhor ponto de compra: "Procuro sempre comprar a preços mais vantajosos, pois assim é possível baixar o preço médio de cada ação da carteira".

Para aumentar as aplicações, estuda bem o mercado: "O mercado de ações é promissor. Novas empresas abrirão o capital, outras crises irão acontecer. E, para aproveitar as melhores oportunidades, é importante se informar bem sobre o assunto".

 

O gosto precoce pelas notícias do mercado

Augusto Gonçalves, 14 anos

Dando os primeiros passos na Bolsa.

Augusto Gonçalves, 14 anos, cursa o primeiro ano do ensino médio do Colégio Porto Seguro. No tempo livre joga futebol, assiste à TV e navega na internet. Quando está online vai atrás de informações do mercado. "Vejo algumas notícias sobre a Bolsa e fico preocupado", admite. Mas, quando tem dúvida, pede explicação aos pais, também investidores. "Às vezes vejo uma notícia e, mesmo sem entender muito, sei se perdi dinheiro".

Augusto faz parte de um clube de investimentos exclusivo para menores. Encorajado e bancado pela mãe, há dois anos aplica R$ 200,00 todo mês. E confere os resultados nos extratos trimestrais.

Não é prática comum entre adolescentes da sua idade. "Já contei para amigos que invisto e alguns sabem do que estou falando, mas nenhum aplica." Vê o mercado de ações como atraente, e tem uma certeza: enquanto ganhar dinheiro continuará investindo e incentivará os filhos a fazer o mesmo. "Vou fazer pelo menos uma poupança para eles."
[-] voltar