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Oscilações frenéticas no mercado acionário são registradas, desde o segundo semestre de 2007, nas bolsas de todo o mundo, decorrência da crise subprime e da iliquidez do mercado de crédito, nos EUA e na Europa. Os dados objetivos têm grande magnitude: 1) os bancos Merrill Lynch, Citigroup, UBS, Morgan Stanley, HSBC, Société Générale, Crédit Agricole, Deutsche Bank, Bank of América, Bear Stearns, entre outros, declararam perdas no mercado subprime que, no conjunto do sistema, podem alcançar US$ 200 bilhões, dos quais US$ 74 bilhões só para os cinco primeiros bancos; 2) considerando as financiadoras imobiliárias e as seguradoras americanas de bônus (Ambac e MBIA, as mais conhecidas), personagens centrais do circuito da securitização (os conduítes), as perdas totais estariam - as estimativas têm uma tremenda dispersão, pois a conta final ainda está por ser feita - entre US$ 300 bilhões e US$ 400 bilhões; 3) os juros básicos foram derrubados de 5,25% ao ano para 3% ao ano (ou seja, 37,5%) em apenas cinco meses, baixa de intensidade rara na história do BC norte-americano, o Fed; 4) o valor de mercado das ações norte-americanas caiu 16,4% entre o ponto mais alto de 2007 (US$ 14,289 trilhões, em 13 de julho) e o ponto mais baixo de 2008 (US$ 11,943 trilhões, em 22 de janeiro).
Tamanha encrenca levou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, a pedir liberalidade monetária e fiscal nos EUA para evitar uma recessão, revivendo, à moda de 2008, as receitas de John Maynard Keynes para a economia americana dos anos 30, na maior depressão econômica da história moderna. Vale dizer, presença mais ativa do Estado em políticas públicas e até em investimentos. Economistas como Paul Krugman, Robert Shiller (professor de Yale), Robert Reich (ex-secretário do Trabalho no governo Clinton), normalmente associados ao Partido Democrata, passaram a defender a mesma tese, dizendo que o pacote de estímulos fiscais (US$ 160 bilhões) proposto pelo governo Bush e aprovado pelo Congresso, em fevereiro, têm méritos, mas é insuficiente.
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KENNETH ROGOFF, DE HARVARD |
Economia global ficará longe da recessão |
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Além disso, diante da constatação de que as sofisticadas inovações financeiras que geraram a crise estavam à margem de qualquer regulação (os mercados são mais imaginativos e ágeis do que os legisladores pensam), Strauss-Khan associou-se à corrente que defende maior governança financeira global. Isso significa reforçar o papel de bancos centrais e autoridades reguladoras internas de cada país, criar algum mecanismo de supervisão internacional e apertar as exigências de capital para os bancos.
Outro ex-membro do governo Clinton, Lawrence Summers, de Harvard, pediu "mais transparência" em depoimento para a revista Newsweek (4/2). Summers, ex-secretário do Tesouro, afirmou: "Em geral, a independência dos BCs é uma coisa muito boa. Mas ela pode ser contraproducente se inibir a cooperação internacional ou a colaboração interna".
Apesar de tudo, o núcleo central das economias desenvolvidas e emergentes parece ter sido pouco afetado. Nos EUA, estima-se em 10% o peso do segmento imobiliário na economia - ou seja, o rabo pode abanar, mas não terá força para derrubar o cachorro -, e já se especula que a queda do PIB, se ocorrer, durará no máximo dois trimestres. A inflação ameaça, mas ainda parece limitada a 4%, no mundo desenvolvido, e a 6% ou 7% ao ano, nos emergentes mais pujantes e com moeda mais desequilibrada, como a China. Daí a pertinência da dúvida: até que ponto o Brasil, blindado por reservas de quase US$ 190 bilhões, crescimento de mais de 5% em 2007, aumento do emprego, investimentos crescentes e mercados pujantes, como o imobiliário, driblará a crise? Ou os sinais dúbios na esfera dos preços e na área externa, como o crescimento rápido das importações, além de queda do fluxo de recursos externos, reduzirão o otimismo dos agentes econômicos com o futuro?
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ROBERTO RODRIGUES, EX-MINISTRO |
O agronegócio continuará ajudando o País a exportar e a crescer
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PESSIMISTAS EM MINORIA - Nos EUA, o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan prevê a recessão - a probabilidade é de 50%, disse ele em 14 de fevereiro. O chairman do Fed, Ben Bernanke, falou ao mesmo tempo em "economia fraca" no primeiro semestre, mas a concordância é tímida mesmo entre críticos contumazes do governo Bush. Em geral, as análises são mais moderadas, como a de Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e professor de Harvard, para quem, se não houver péssimas notícias da China, a recessão americana será "suave", com a recuperação vindo até o final deste ano. "O resto do mundo vai sofrer alguma dor", escreveu Rogoff, "mas a economia global não entrará em recessão". Com isso, ele ilumina outra questão atualíssima: há ou não descolamento do resto do mundo para com os EUA - o falado decoupling, em inglês.
No plano financeiro, onde a conexão dos mercados é íntima, não há, mas no comercial, muitos já admitem um início de descolamento. Liderados pela China, os emergentes crescem, seus mercados internos avançam - embora a proporção do consumo seja menor que a dos países ricos -, prospera o comércio sul-sul. Mas, num certo sentido, vigora ainda o bordão "quando os EUA espirram, o resto do mundo pega resfriado". Ou seja, uma crise nos EUA - com 25% a 30% da economia mundial - afeta todos os países, uns mais, como o Japão, outros menos - e a repercussão não se dá exatamente na mesma intensidade. Jim O'Neill, economista sênior do Goldman Sachs, guru dos Brics, autor da tese e da sigla, escreveu, na Newsweek, que os países emergentes não serão um bom lugar para investir neste ano, exceto, é bom ressalvar, "em bases seletivas". Em vez de decoupling ("do qual se pode falar em tempos de crescimento, mas é quase impossível numa recessão") afirmou O'Neill: "Por enquanto, minha aposta é em recoupling".
E O BRASIL? - O Brasil não foge à regra. O bloco dos otimistas ou não-pessimistas é maioria em relação ao dos pessimistas - e as análises que uns e outros fazem do cenário externo e interno vêm a seguir.
O ex-ministro Delfim Netto, por exemplo, está entre os otimistas. Não acredita numa recessão "dramática" nos Estados Unidos e projeta para este ano crescimento entre 1% e 1,5%. Afirma que "não há descolamento", mas diz que o impacto será reduzido - afinal de contas, é o mercado interno que puxa a expansão, ao lado do aumento dos investimentos, da ampliação da massa salarial, do salário mínimo e até do Bolsa Família, que já é copiado em outros países, como o Egito, e foi elogiado por The Economist, na edição de 9/2. Nos cálculos de Delfim, o crescimento brasileiro ficará um pouco abaixo de 5% este ano e, sem a crise, passaria de 5%.
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AMIR KHAIR, MESTRE PELA FGV |
É possível continuar crescendo ao ritmo de 5% ao ano |
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CONSUMO INTERNO - Mesmo sem fixar números (é conhecida sua tese de que o Brasil pode crescer 5% anuais na média dos próximos anos), o consultor Amir Khair, mestre em finanças públicas pela FGV e ex-secretário de Finanças da capital paulista na gestão Luiza Erundina, acredita que os EUA já vivem um processo de estagflação cuja intensidade e duração são desconhecidas. A redução dos juros e o pacote fiscal visam manter o mercado interno aquecido, mas vão no sentido oposto de uma solução de longo prazo: reduzir o consumo interno e ampliar suas exportações. Ao mesmo tempo, os países emergentes fortaleceram seus fundamentos econômicos, livraram-se de dívidas e acumularam reservas para enfrentar a crise internacional, que seria inevitável. Nos últimos três anos, cresceram em média 7% ao ano e os desenvolvidos, 2,5%.
O Brasil seguiu trajetória semelhante, especialmente a partir de 2003, revertendo o déficit externo e acumulando reservas. Além disso, diz Khair, apostou suas fichas no fortalecimento do mercado interno, ampliou os programas sociais e empréstimos consignados, diversificou as exportações, diminuindo a dependência das compras americanas - e o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) deverá contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura e logística ao mesmo tempo que injetará recursos na economia apoiando o crescimento econômico. "Estamos mais bem preparados para enfrentar a crise", argumenta, mesmo que a repercussão dela reduza nossas exportações, já que o mercado interno tem espaço para crescer. "Os riscos de inflação são baixos, pois o redirecionamento de parte da produção exportada para o mercado interno e o notável crescimento dos investimentos privados poderão garantir maior oferta de bens e serviços a preços mais reduzidos, o que permitirá, inclusive, a ampliação do consumo doméstico. O sistema bancário brasileiro não se envolveu nos riscos dos empréstimos imobiliários americanos e acumulou lucros substanciais de dez anos para cá. As empresas nacionais também se capitalizaram e estão mais sólidas econômica e financeiramente", afirma Khair, para concluir: "De qualquer forma é conveniente reforçar as políticas de desenvolvimento econômico e social, especialmente diante de um quadro de incertezas quanto à dimensão e extensão desta crise".
COMIDA POR LOGÍSTICA - O agronegócio tem um peso decisivo no fortalecimento do mercado interno brasileiro e, ainda mais, na manutenção do superávit comercial. "Salvação da lavoura" nos últimos anos, tanto no front externo como no interno, o ambiente no agronegócio não poderia ser diferente. O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que agora coordena o Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro) e preside o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp, está "otimista" - ou melhor, "não é pessimista" para 2008. Trabalha com três cenários: a) a crise não vai virar recessão; b) se virar, não será prolongada; c) só se for extensa, profunda e longa é que pode nos afetar mais seriamente, forçando uma redução nos preços das commodities agrícolas e uma alta nos custos (petróleo, fertilizantes, etc.). Rodrigues "não acredita" na última hipótese, nem acha possível "um 1929 moderno". Caminha entre as duas primeiras e diz que, de qualquer forma, "para 2008 os reflexos, se houver, não serão profundos". A safra 2007/08 é grande e o clima é favorável. A mais recente estimativa da safra, de janeiro, indica uma colheita de 135,8 milhões de toneladas de grãos, 3% superior à safra passada. "Boa parte já está, em meados de fevereiro, comercializada e hedgeada, a bons preços". Além disso, há uma crescente pressão de demanda por alimentos por parte de China, Índia, emergentes em geral vis-à-vis uma redução na oferta que ocorre na Austrália, Europa Central e nos EUA, sobretudo por causa do milho desviado para produção de etanol.
Assim, o agronegócio ("numa economia cujos fundamentos são bons") deverá repetir em 2008, na balança comercial, a experiência conquistada já há muitos anos. Rodrigues prefere não dar um número, mas basta a observação dos dois últimos anos para dar boas pistas. Em 2006, com exportações a plena carga, o agronegócio contribuiu com US$ 42,7 bilhões para o saldo comercial de US$ 46,5 bilhões. Em 2007, fez melhor: como no início da década, produziu um superávit capaz de compensar o déficit dos outros setores, envolvidos pela expansão das importações. O agronegócio foi superavitário em US$ 49,7 bilhões, para um superávit comercial total de US$ 40 bilhões. E para 2008? Não errará muito quem imaginar números bem próximos aos de 2007.
Para além, no entanto, de possíveis refluxos nos anos mais próximos - "se houver uma crise prolongada, os preços caem, mas o dólar se valoriza e a compensação vem pelo câmbio, mais à frente", diz Rodrigues -, o horizonte de longo prazo é francamente favorável. Há uma mudança estrutural na demanda global para alimentos, fibras, agroenergia, determinada pela expansão da renda sobretudo dos emergentes. A população do planeta vai aumentar em 2 bilhões nos próximos 20 anos e, segundo projeções da FAO, o órgão das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura, a oferta terá de crescer 42% até 2025 para atender à demanda por cereais e carnes.
Quem pode desempenhar um papel fundamental para equilibrar oferta e demanda é o Brasil. "Só temos de fazer a lição da casa, cuidar da logística, fazer uma reforma tributária, buscar agregação de valor; só exportar soja não dá - nos EUA já se compra pronta até omelete". E mais: "Se os preços forem compensatórios, o mercado se ajusta e produz". E temos também de aproveitar as oportunidades. Há pouco tempo, num encontro com Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, Rodrigues sugeriu um plano Brasil-China. Diz: "Por 20 anos, nós venderíamos comida, sempre buscando maior valor agregado; e eles, com todo aquele dinheiro, investiriam aqui em logística".
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SIMÃO DAVI SILBER, DA USP |
Somente os norte-americanos estão sendo heterodoxos |
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ACABOU A BONANÇA - No bloco dos pessimistas está Simão Davi Silber, professor do departamento de Economia da FEA/USP e da Fipe. Indo contra a corrente, ele aquece o debate. Primeiro, diz, com ênfase: "Os EUA estão entrando, sim, em recessão, vale dizer, taxas negativas de crescimento" - e os números dos próximos dois trimestres vão revelar essa situação. Segundo, não há "esse tal de descolamento". Tudo o que ocorre nos EUA repercute no resto do planeta: problemas começam a aparecer na Europa, na Ásia, a China enfrenta uma inflação em alta (já em 7,5%), o Banco Central Europeu (BCE) reluta em reduzir os juros por temer pressões inflacionárias ("só os americanos estão sendo heterodoxos"). Visto de meados de fevereiro, o tamanho do impacto ainda é difícil prever - nem se conseguiu, a esta altura, estimar a profundidade e a duração da crise americana. Mas Silber convenceu-se: "O período de graça acabou. Qual a magnitude da desaceleração? Ninguém sabe. O que se vê é que, a cada dia que passa, o quadro piora".
Se é inevitável que o crescimento global se reduza, como já apontou o FMI, o Brasil será atingido. "Pode não haver uma catástrofe, mas 2008 não será maravilhoso como o período iniciado em 2003, quando o Brasil surfou na onda do comércio mundial", diz Silber. Segundo ele, os otimistas agora projetam um crescimento de 4%, mas os pessimistas como ele calculam algo entre 3% e 3,5% para o PIB brasileiro deste ano, muito por causa do impulso vindo de 2007. O mercado interno segura essa perspectiva de crescimento mais moderado; um avanço nos investimentos, também, mas "eles são de longa maturação". Silber não vê o governo - que julga "ineficiente", pois arrecada 36% do PIB e gasta 38% - dedicando-se como deveria aos investimentos em infra-estrutura. Basta ver as ameaças que surgem na área energética. "Detonaram as agências reguladoras, as concessões e privatizações estão atrasadas", diz ele. "Não consigo ver o tal crescimento sustentado."
Os sinais de que "a bonança acabou", quer dizer, os reflexos da crise começam a manifestar-se em vários campos, na opinião de Silber. O BC não pode mexer nos juros, senão para aumentá-los, o fôlego da expansão do crédito - e dos empréstimos consignados - vai se reduzir, o setor externo contribuirá negativamente com 1,5% do PIB, afirma. Nas contas externas, os indicadores são claros, calcula Silber: exportações em ritmo menor, quantidades exportadas estáveis, preços com tendência de queda, importações crescendo mais rapidamente. A conta corrente, principal item do balanço de pagamentos, que registrou saldo positivo em 2007, terá déficit neste ano. As previsões do mercado, conforme o relatório Focus, elaborado pelo BC com base nas previsões das consultorias econômicas, apontam deterioração e a projeção de déficit em conta corrente para 2008 já passava dos US$ 7 bilhões (0,5% do PIB), na segunda semana de fevereiro, ameaçando chegar a 1% do PIB no final do ano.
Trajetória parecida vem tendo a balança comercial, da qual sai o dinheiro para pagar juros e lucros - estes em ascensão, com remessas superiores a US$ 20 bilhões, em 2007. O relatório Focus prevê um saldo comercial de US$ 30 bilhões neste ano, bem menor que o de 2007, de US$ 40 bilhões e, ainda assim, na dependência do desempenho do agronegócio. "Já há quem estime o saldo em US$ 20 bilhões", diz Silber. Quando começar a faltar dólar, acrescenta, ou o ajuste virá pelo câmbio, que vai subir e pressionar a inflação, ou o BC venderá reservas para segurar a inflação - ou seja, será um equilíbrio muito delicado. "Câmbio flutuante é muito bom para períodos ruins e ruim nos períodos bons", diz Silber.
IMPACTO FINANCEIRO - Nos mercados financeiro e de capitais, o impacto é inevitável. Desde agosto de 2007, o risco Brasil aumentou e os mercados ficaram mais seletivos. Por isso, Silber prevê bear market (mercado de urso) em 2008, num cenário de forte volatilidade. No caso brasileiro, o mercado de ações - instrumento que deve ser olhado sempre como investimento de longo prazo - revelou extraordinário dinamismo em 2007, quando o Índice Bovespa subiu 43,65%, a maior alta do mundo, superada somente pelos 96% de Xangai. Em janeiro, sofreu forte queda, mas recuperou-se em fevereiro. E no pregão de 27 de fevereiro, já apresentou alta acumulada no ano de 2,52%.
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