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Terceira geração muda
o mercado de celulares

Theo Carnier

A disputa das operadoras de telefonia pelas freqüências de celular de terceira geração (3G), que no leilão realizado em dezembro para licenças em 11 áreas do País gerou arrecadação de R$ 5,3 bilhões - mais de duas vezes superior às previsões -, continua acirrada. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável pela regulação do setor e pelos leilões, prevê para este ano, provavelmente neste semestre, mais um certame, estimulado pelo ágio médio de 86,67% do primeiro leilão, bem acima da estimativa oficial de 25%. "Desta vez podemos pedir preços mais realistas", afirmou o presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg, animado com a corrida das operadoras pela tecnologia 3G, que promete ser um marco para as telecomunicações do País.

Disputar e vencer a corrida da terceira geração significa, para as operadoras, não apenas mais espaço. A 3G é vista como o principal instrumento para popularizar o uso da banda larga no Brasil, utilizando o celular, e não mais o computador, para acelerar a transmissão de dados, baixar músicas, trocar conteúdos multimídia e até assistir a programas de televisão no telefone - tudo somado à mobilidade que o celular permite. A Claro, operadora que fez o maior investimento no leilão do ano passado (R$ 1,4 bilhão, com ágio de 103,6%), considera que a 3G fará pela banda larga o que o telefone pré-pago fez pela telefonia celular: aumento expressivo da oferta e penetração da internet em banda larga, com a vantagem da mobilidade. As concorrentes, como a TIM, que pagou R$ 1,33 bilhão (prêmio de 94,73%) por seus lotes no leilão, e a Vivo, responsável por um aporte de R$ 1,2 bilhão (ágio de 89%) na disputa, também vêem na 3G um marco que vai ampliar e aperfeiçoar o acesso à banda larga, dando novo status à telefonia celular.

Elas baseiam seu otimismo na rápida aceitação da tecnologia em países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, o número de acessos à banda larga móvel cresceu 600% entre 2005 e 2006 - a fatia dessa alternativa de acesso foi responsável por 60% do crescimento total da banda larga. No Japão, 80% dos celulares já utilizam a 3G. Alemanha, Inglaterra e França também adotaram a tecnologia, com número crescente de usuários. O presidente da Claro, João Cox, calcula que 300 milhões dos 3 bilhões de celulares existentes no planeta já utilizam essa tecnologia.

Barrionuevo, da FGV

Quanto os usuários estão dispostos a pagar pelo valor adicionado pela 3G

APOSTA NA VELOCIDADE - Até 2010, no Brasil, as operadoras avaliam que a internet rápida (a banda larga), até agora limitada aos computadores, terá 50% de acessos pelo celular. E esse percentual poderá ser ainda maior, da ordem de 70% em 2012, prevê a GSM Association, que reúne operadoras e fabricantes de telefonia celular. Para conquistar posição de destaque nesse mercado, as operadoras planejam investir cerca de R$ 10 bilhões na 3G (incluindo o que pagaram pelas licenças), além de R$ 4 bilhões na melhoria da rede, estima a Anatel.

Vivo, Oi, TIM e Claro - além da Brasil Telecom, que está em negociação para ser vendida à Oi - também pretendem investir com base no êxito da telefonia celular no País, hoje com 120 milhões de aparelhos. Operadoras que participam do mercado de capitais, como a Vivo, saem na frente, pois têm acesso a capital para investimentos a custos mais competitivos.

Com o mercado mais estreito, em função da crise de crédito nos Estados Unidos e Europa, o acesso fácil a recursos é crucial. Ainda mais quando, no caso do celular, o crescimento do mercado ocorre em escala geométrica, desde 1994, quando os aparelhos de primeira geração (analógicos) foram lançados pelas estatais do Sistema Telebrás. Com a privatização, as operadoras logo passaram a oferecer a tecnologia de segunda geração (2G), que permitiu evoluir do analógico para o digital.

As primeiras tecnologias adotadas no País foram americanas (CDMA e TDMA). Mas depois passou a predominar a tecnologia européia GSM. A seguinte foi a tecnologia 2,5G, que ampliou a capacidade de comunicação de dados, depois superada pela 3G, que permite maior velocidade nessa comunicação, além de serviços como videoconferência e recepção de vídeo em tempo real.

Mesmo com o crescimento acelerado dos últimos anos, o Brasil ainda tem potencial para se desenvolver nessa área, pois ocupa apenas o 81º lugar no ranking de 190 nações que mais têm telefones celulares, de acordo com levantamento da Conferência das Nações

Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Em penetração da internet, o Brasil ocupa o 72º lugar.

DÚVIDAS PARA A EXPANSÃO - Mas a rápida adesão a novas tecnologias tem limitações, lembra Arthur Barrionuevo Filho, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e especializado na regulação do setor. A 3G, afirma, ainda está em observação nos países em que foi implantada. "A aceitação da tecnologia foi boa, mas ainda persistem dúvidas", observou, acrescentando: "Nos Estados Unidos e na Europa ainda há dúvidas sobre as vantagens da 3G em comparação à 2,5G".

Uma das dúvidas, diz Barrionuevo, é em relação à adaptação dos aparelhos celulares à nova tecnologia: "Ainda se debate até que ponto os aparelhos estão prontos a prestar os serviços que a 3G pode proporcionar. É preciso definir também que preço o usuário está disposto a pagar pelos serviços com valor adicionado, que vão muito além da transmissão de voz".

Pela variedade de serviços que proporciona, a 3G exige celulares sofisticados, lembra Barrionuevo: "Muitas vezes, o usuário precisa ter outro aparelho para usar a 3G, o que leva operadoras a 'subsidiar' celulares para os compradores. No início, a 3G é um produto para as classes A e B. A operadora que conseguir primeiro ampliar esse espectro vai largar em grande vantagem".

Nos EUA e na Europa, explica, há dúvidas em relação aos serviços que a 3G possibilita, "que até agora não se mostram tão diferentes em comparação à 2,5G, apesar de o preço ser consideravelmente mais alto".

Mas a 3G tem evoluído e mostrado velocidade cada vez maior, o que lhe confere vantagens em relação à 2,5G: "Com a limitação dos aparelhos e oferta insuficiente de serviços adicionais, a 3G teve resistências", afirmou o especialista da FGV. "Mas ela vem se aperfeiçoando e cada vez mais se mostra uma tecnologia promissora e que pode trazer vantagens importantes para o usuário."

Opinião diferente é a de Marco Aurélio Rodrigues, presidente da subsidiária brasileira da Qualcomm, que fabrica aparelhos para o setor. "As barreiras iniciais à 3G foram vencidas rapidamente em todo o mundo", diz ele, explicando: "A tecnologia GSM, que ainda é a de maior uso no Brasil, demorou três anos e meio para ter 12 milhões de usuários no mundo. Com a tecnologia inicial da 3G (conhecida pela sigla WCDMA) o tempo para chegar a esse número de usuários caiu para dois anos e meio e na versão da 3G que o Brasil está adotando (HSPA) o tempo reduziu-se a um ano e meio".

ALVO DE DISPUTA - Apostando na expansão e superação das barreiras iniciais, as maiores operadoras 3G do mundo - NTT DoCoMo, que atua no Japão; Verizon, a maior nos EUA; Vodafone e H3G, na Europa; e SK Telecom, na Coréia do Sul, ampliam a fatia da 3G entre suas tecnologias. Essa fatia chega a 100% na H3G e a 75,6% na NTT DoCoMo.

Também há otimismo no Brasil. "Nossa plataforma está se tornando competitiva com a tecnologia utilizada para banda larga em terminais fixos", diz Ricardo Tavares, da GSM Association. A previsão é que a banda larga em 3G vai ganhar espaço também em laptops e notebooks, cujas vendas dispararam no ano passado. "Os preços têm que começar mais altos, mas depois a tendência é cair", acrescenta.

As operadoras brasileiras têm pressa. Em comunicado divulgado após o leilão, o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, afirmou que as novas licenças permitirão "uma entrada vigorosa em São Paulo". A 3G significa, para a Oi, espaço para conquistar mercado em todas as faixas de consumidores. A operadora costura há mais de um ano um acordo para comprar a Brasil Telecom por um valor estimado em R$ 8,5 bilhões, dos quais R$ 3,7 bilhões seriam destinados a acionistas minoritários. Se o negócio for confirmado, como prevêem as empresas do setor, poderá ser formada a maior companhia de telefonia do País, com faturamento anual de R$ 30 bilhões.

Enquanto o negócio não é fechado, as outras operadoras se movimentam e a 3G é o alvo principal da disputa entre elas. A Claro, controlada pelo grupo mexicano América Movil, informou que, no leilão de dezembro, "garantiu faixas de espectro para oferecer cobertura 3G em todos os estados brasileiros". Hoje, oferece cobertura em 40 municípios para mais de 33 milhões de pessoas.

A Vivo anunciou que foi a primeira operadora de celular a ter uma rede de 3G em operação no País - que começou a operar em 2004, com cobertura em 24 cidades.

A TIM considerou importante participar do leilão de freqüências tanto pela possibilidade de oferecer serviços com tecnologia 3G como porque a competição "restabeleceu a competição saudável entre as empresas, o que fará com que, a partir de agora, os clientes tenham ainda mais opções de escolha".

EM BUSCA DE FORNECEDORES - Definido o leilão, as operadoras passaram a procurar fornecedores para implantar suas redes. Ericsson, a chinesa Huawei e a Nokia-Siemens fecharam contratos com Claro, Oi, TIM e Telemig (adquirida pela Vivo, em agosto), assim como a Qualcomm, apostam na 3G para aumentar suas vendas. Com a demanda em alta, os fornecedores prevêem que o faturamento deste ano chegue a R$ 13,5 bilhões, 10% acima de 2007. A construção das redes 3G será feita exclusivamente com investimentos da iniciativa privada.

Para as operadoras, a 3G significa também a possibilidade de engordar o caixa com a venda de serviços adicionais, que se somam à transmissão de voz. É uma necessidade imperiosa para essas empresas, já que o mercado brasileiro de celulares deve crescer a taxas cada vez menores, podendo chegar à saturação depois do boom dos últimos anos. Além disso, os serviços que a 3G proporciona - mais caros -, podem compensar, em parte, a queda da rentabilidade decorrente da competição crescente. Há um benefício adicional: com a 3G, algumas operadoras poderão contornar dificuldades causadas pelo congestionamento dos serviços de voz.

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As operadoras esperam que os consumidores mantenham um hábito dispendioso: trocar com freqüência de celulares. Assim, acreditam, será mais fácil disseminar a tecnologia 3G, que em geral exigirá a troca de aparelho. Em 2007, foram comercializados 43 milhões de novos celulares. Como os novos assinantes adquiriram 18 milhões de aparelhos, outros 25 milhões foram adquiridos por usuários interessados num produto mais moderno. Rodrigues prevê que até o final de 2009 entre 10% e 15% dos 120 milhões de celulares em uso no País utilizarão a 3G. "Já há oferta de mais de 800 modelos de celular no mundo que usam essa tecnologia", afirma ele.

As estimativas baseiam-se no modelo adotado pela Anatel para implantar a 3G, com cobertura para mais de 90% da população. As operadoras terão de investir em todas as áreas de atuação. Com as exigências, até 2015 cerca de 3.500 cidades serão servidas por redes 3G.

Além da universalização do serviço e da possibilidade de ampliar significativamente o acesso à banda larga, a 3G ajudará a engordar os cofres públicos. O leilão de novembro superou em quase R$ 4 bilhões a previsão de receita de R$ 1,4 bilhão. O ganho será maior se a Vivo migrar para as faixas que adquiriu (ela usava uma tecnologia diferente da que ora será adotada). E, neste caso, terá de despender mais R$ 600 milhões. E a Anatel prevê, no novo leilão em gestação, preços mais altos, baseada no elevado ágio de novembro.

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