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Movidas a passos largos pela globalização, associada ao incessante avanço tecnológico - que rompeu barreiras geográficas -, as bolsas do mundo todo vivem um período febril, de grandes transformações. Fusões, aquisições e parcerias se sucedem, não mais dentro do território de cada país, nem mesmo dentro de limites continentais, caso da Europa, mas já cruzando fronteiras intercontinentais. Elas próprias renovam-se internamente e abrem o capital, como aconteceu com a Bovespa, responsável pelo maior IPO da história brasileira e a congênere BM&F. E ampliam o leque de serviços, tornando-se multiprodutos, desde que se diluiu a tradicional linha divisória entre mercados de ações, de derivativos/índices e de mercadorias.
Esta ebulição está em pleno vigor, estimulando os reguladores a estudar a flexibilização das normas. O mais recente lance foi a oferta de US$ 11,3 bilhões feita pelo Chicago Mercantile Group (produto da fusão da CME com a Chicago Board of Trade-CBOT, em 2006) pela Nymex Holdings (New York Mercantile Exchange), a maior bolsa de derivativos de petróleo do mundo. O negócio já nasceu "praticamente fechado", diz a economista Cristiana Pereira, diretora-adjunta de Projetos e Relações Internacionais da Bovespa.
O processo de consolidação está longe de terminar, dada a criatividade e a sofisticação dos mercados contemporâneos. No Brasil, em 2000, impôs-se a idéia de formar um mercado nacional de bolsas de valores, capitaneada pela Bovespa. Para o mundo inteiro, surgirão as "bolsas globais". Bolsas locais, regionais ou segmentadas vão sobreviver, por conta das legislações nacionais específicas (até na Europa elas existem, convivendo com as diretrizes gerais da União Européia), do raio de ação da maioria das empresas (voltado aos mercados internos) - e das óbvias diferenças culturais, econômicas e históricas de país para país, de região para região. Na mais famosa de todas as bolsas, a New York Stock Exchange (NYSE), indaga-se sobre os grandes grupos que terão papel predominante. provavelmente eles vão administrar outras bolsas, controlando-as, associando-se a elas, fazendo parcerias, criando operações conjuntas.
PRIMAZIA SUECA - Os primórdios do processo estão localizados em meados da década passada. Tratava-se, nessa primeira fase, de consolidar os mercados dentro do território de cada país - foi o que ocorreu na Suécia, na Alemanha, na França. Na primeira metade da década atual, desdobrou-se a fase de unificação nacional, que avançou por Espanha, Itália, Hong Kong, Cingapura, Grécia. Mas, paralelamente, várias bolsas, principalmente da Europa - empurradas pela introdução do euro em 1999 -, já ingressavam na segunda fase, cruzando fronteiras. Nasceu a Euronext, em 2001, juntando bolsas de França, Holanda, Bélgica e Portugal. Ao lado disso, formava-se uma aliança nórdica, entre bolsas de ações da Suécia, da Finlândia e Dinamarca, encabeçada pela OMX, que havia comprado a Bolsa de Estocolmo, pouco depois de sua privatização (foi o primeiro caso de transformação de uma bolsa em companhia aberta). Correndo por fora, nesse mesmo período, a bolsa alemã (Deutsche Börse), nona do mundo em capitalização de mercado, conforme dados de 2007, tentou comprar a London Stock Exchange (LSE), quinta colocada pelo mesmo critério, mas não foi bem sucedida.
Em 2006, as negociações entre bolsas entraram numa terceira fase, cruzando o Atlântico e outros mares. Dois grandes negócios se destacaram naquele ano: a operação CME-CBOT em Chicago, ainda dentro das fronteiras americanas, que resultou no CME Group; a compra da Euronext, terceira em capitalização de mercado pelo NYSE Group, primeiro colocado, todos já então transformados em companhias abertas.
Em 2007, o movimento se acentuou. Com ações no mercado, todas estão sujeitas a ofertas, hostis ou não. O LSE Group comprou a bolsa italiana e ganhou um novo sócio: a Nasdaq, quarta em capitalização de mercado, que detinha 25% da LSE, cedeu lugar a um fundo soberano, protagonista recente na cena mundial - no caso, o do Catar. O Nasdaq Group, por sua vez, em associação com a bolsa de Dubai (Emirados Árabes), busca comprar a nórdica OMX.
ALEMÃES NA ÍNDIA - Outras operações ganharam contornos ainda mais interessantes. Para aumentar seu poder de competição, a Deutsche Börse, que já possuía 5% da Bombay Stock Exchange (a segunda bolsa da Índia, sediada em Mumbai, antiga Bombaim), comprou a norte-americana International Securities Exchange (ISE), primeira do mundo em negócios com opções de ações - e o fez por meio da Eurex, seu braço dedicado a derivativos. Os lances do grupo NYSE-Euronext completam o quadro. Na trilha dos alemães, ao menos em parte, a NYSE comprou 5% da National Stock Exchange da Índia, a maior de lá, também sediada em Mumbai. E comprou 1% da Bovespa Holding no recente IPO; por sua vez, a CME adquiriu participação na BM&F.
Tudo isso, como se vê, corresponde a vários movimentos simultâneos, inerentes à própria estratégia das bolsas. Como o avanço tecnológico derrubou fronteiras, não faz mais sentido uma bolsa fechada em si mesma, lembram os especialistas. Elas têm de ter alcance global, interagir com os outros "blocos de liquidez", oferecer multiprodutos. Precisam dar respostas às demandas que vêm do outro lado do balcão. Os fundos de hedge (multimercados) mobilizam atualmente US$ 1,4 trilhão no mundo inteiro e montam carteiras não mais separando ações de renda fixa. O mesmo se passa com os fundos soberanos (vinculados a governos, como diz o nome, dos Emirados Árabes à China, passando pela Noruega), que têm, segundo o banco Morgan Stanley, US$ 2,9 trilhões em ativos e agem com crescente desenvoltura.
RECONHECIMENTO MÚTUO - Mas a velocidade da consolidação depende da flexibilização das legislações. Grandes bolsas, bancos e investidores gostariam que ela caminhasse mais depressa. Os governos agem com mais vagar. É natural. Estão em jogo questões como soberania e capacidade de controle das autoridades, incluindo BCs. A abertura, inexorável, para a competição global pode combinar-se à preservação de mercados locais/regionais e valores nacionais, culturais, históricos, econômicos, mas essa tarefa complexa exige tempo.
Com as cautelas de praxe, reguladores dão passos rumo à flexibilização - vale dizer, da aceitação dentro de seu território de normas bem-sucedidas em outros países. A Securities and Exchange Commission (SEC) já começou a admitir o conceito do "reconhecimento mútuo", vigente na União Européia, onde o regulador de um país aceita a norma existente em outro. E entrou na agenda de discussões da SEC o reconhecimento de padrões contábeis europeus, para além da exclusividade do padrão americano.
De meados de 2007 para cá, as discussões sofreram uma "parada técnica". Imersos na crise do subprime, que começou nos EUA e se estendeu à Europa - sem falar nos reflexos sobre a economia mundial -, os órgãos reguladores mudaram de prioridade. Tentam agora descobrir como criar algum controle para as inovações financeiras da securitização. Quando descobrirem, voltarão de novo os olhos para a consolidação dos mercados bursáteis. Europa e EUA já se integraram. Alemães e americanos já chegaram à Índia. Quando alcançarão Japão, China, o resto da Ásia?
Na Bovespa foi dado mais um passo nesse rumo. Segundo fato relevante divulgado dia 19/2, a Bovespa Holding e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), cujo valor de mercado em 26/2 era respectivamente de R$ 18,19 bilhões e R$ 16,23 bilhões, informaram ter iniciado, "em caráter exclusivo, conversações visando à integração de suas atividades, exclusividade essa que vigorará, no máximo, pelos próximos 60 dias, período em que nenhuma das partes poderá ingressar em negociações com quaisquer terceiros". As duas bolsas informaram ainda que "não há garantia de que algum acordo será consumado a partir dessas conversações, não tendo sido estabelecida, ainda, a configuração que qualquer iniciativa conjunta deverá ou poderá vir a ter, bem como as bases econômico-financeiras que eventualmente suportarão essa integração". |
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