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Bolsa e juros são antagônicos. Quando os juros sobem, as ações em geral caem, e vice-versa. Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, os Estados Unidos viveram uma crise: a inflação passou dos dois dígitos e teve de ser combatida com juros superiores a 20% ao ano pelo então presidente do Federal Reserve Board (Fed, o BC americano), Paul Volcker. Até 1983 os juros prime também superaram os dois dígitos. Influenciado pela rigidez monetária e o crescimento anêmico, o principal índice de ações - o Dow Jones, dos papéis industriais mais negociados na Bolsa de Nova York - acusou o golpe, demorando para se recuperar. Era então, como hoje, uma crise de grandes proporções - o PIB medido em dólares de 2000 caiu em 1980 e 1982 -, mas o ritmo foi diferente da crise do subprime.
O grau de atenção conferido pelo governo americano às ações parecia ser menor do que hoje - pelo menos, não era explícito - como se nota em The Reagan Diaries, editado por Douglas Brinkley e pela HarperCollinsPublishers, em 2007, com a autorização de The Ronald Reagan Presidential Library Foundation.
O surto inflacionário de 79/80 foi combatido com tanta crueza que influenciou as eleições norte-americanas: Jimmy Carter não conseguiu o segundo mandato, derrotado em novembro de 1980 por Reagan. Este teve em Volcker - hoje um respeitável consultor, que há pouco defendeu a candidatura de Barak Obama à Presidência - seu grande eleitor oculto. Reagan reconduziu Volcker ao Fed, em junho de 1983, sob o argumento (anotado em 6/6/83), que não queria "perder a confiança do mercado na recuperação" da economia, que já se esboçava.
A Bolsa de Nova York já tinha uma capitalização de mercado elevada. Mas só em 1997 alcançou o market capitalization de US$ 5 trilhões, para um PIB de US$ 8,3 trilhões em valores correntes (em 1983, o PIB era de US$ 5,1 trilhões). As ações não foram citadas nos encontros do presidente dos EUA com o chairman do Fed. É bem diferente do que ocorre hoje, quando os termômetros bursáteis (não apenas o Dow Jones, mas também o S&P, o Nasdaq, o Ibovespa e outros) são acompanhados de perto por investidores locais e internacionais, num mercado cada vez mais globalizado.
As anotações de Reagan sugerem que ele não se sentia à vontade com os juros altos de Volcker. Os juros derrotaram a inflação, mas abriram uma avenida para a saída de Volcker e para que seu sucessor no Fed, Alan Greenspan, colhesse os louros do desenvolvimento sustentado. Mas, naquela época como agora, a questão central é a mãozinha que os governos tentam dar aos mercados nas épocas de crise - uma certa dose de keynesianismo (do economista John Maynard Keynes) para tentar soerguer uma economia depressiva, como sugeriu em fevereiro, em Davos, o diretor gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan. No curto prazo, o mercado de ações pode ser beneficiado por alguma liberalidade monetária. No longo prazo, toda a economia - inclusive a Bolsa - agradecerá ainda mais se a inflação continuar quieta. (F.P.J.)
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