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A Usina Hidrelétrica de Santo Antônio começa desde já, quatro anos e três meses antes de entrar em operação, a preparar a abertura do capital, revela Irineu Berardi Meirelles, diretor presidente da Madeira Energia S.A. (Mesa), sociedade de propósito específico que controla o empreendimento. "Temos a expectativa de fazer o IPO (oferta inicial de ações) em 2011, antes do início da geração de energia, previsto para maio de 2012", afirma Meirelles. Hoje, os critérios de governança corporativa adotados pela Madeira Energia S.A. já permitiriam que a empresa ingressasse na Bolsa no Nível 2 de governança, "mas até a hora do IPO deveremos atingir os níveis do Novo Mercado", revela o diretor da companhia, de que participam alguns dos maiores grupos privados e estatais do País - Odebrecht, Andrade Gutierrez e fundo Banif-Santander, com 51% do capital, e Eletrobrás e Cemig, com 49%.
Com capacidade de gerar 3.150 MW, a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio será o primeiro aproveitamento hídrico de grande porte no rio Madeira e na região amazônica - maior reserva potencial de geração de eletricidade do País, estimada em 90 mil MW (hoje, a capacidade instalada total é da ordem de 100 mil MW). Está prevista para maio a licitação da segunda usina do Madeira, Jirau, com potência de 3.350 MW.
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| Thomás Tosta de Sá |
| Na região amazônica, potencial de geração de eletricidade da ordem de 90 mil MW |
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O administrador Meirelles, santista e torcedor do Santos Futebol Clube, tem uma história associada à implantação da infra-estrutura do País. Nos anos 70, participou da construção da hidrelétrica de Itaipu e, nos anos 90, liderou a construção da segunda pista da Rodovia dos Imigrantes. "Esta obra é referência para os projetos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e foi a primeira a conseguir a classificação ISO 14.000, pelo respeito ao meio ambiente." Como executivo da CBPO, do grupo Odebrechet, já havia respondido pelas usinas de Acaray e Iguazu, no Paraguai e depois coordenou o ingresso no programa de concessões rodoviárias de São Paulo. "Ganhamos a concorrência do complexo Anhangüera-Bandeirantes e formamos a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), uma empresa aberta, junto com a Camargo Correa."
O projeto de construção das usinas do rio Madeira começou em 2001 e a ele se associou a hidrelétrica de Furnas, em 2004. A licença prévia do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) só foi concedida em julho de 2007 e o leilão ocorreu em dezembro de 2007. O consórcio vencedor ofereceu preços muito inferiores aos máximos previstos no edital por conta da possibilidade de comercializar a energia no mercado livre durante oito meses, em 2012 - se cumprir a meta de antecipar para maio daquele ano o início da geração. O próximo passo é a concessão pelos órgãos ambientais da licença definitiva, prevista para setembro de 2008. Ao mesmo tempo, terá de ser licitada uma gigantesca linha de transmissão de 2.500 km, a maior do País e uma das maiores do mundo, para que a energia gerada no Madeira entre no Sistema Interligado Nacional (SIN), podendo ser vendida nas regiões consumidoras, em especial, do Sudeste.
Nesta entrevista à Revista Bovespa, Irineu Berardi Meirelles fala de sua trajetória de quase quatro décadas em projetos de infra-estrutura, no Brasil e no exterior.
O projeto do Madeira começou em 2004, com Furnas?
- O início foi em 2001, quando o grupo Odebrecht bancou os investimentos iniciais, pedindo autorização para estudos de inventário do rio Madeira. Depois Furnas entrou em parceria. Levantou-se então o potencial energético do Madeira, a um custo da ordem de R$ 150 milhões. Lembrando que a autorização poderia ter sido dada a qualquer empresa que estivesse disposta a bancar o risco do investimento. Se não fosse viável, perderia o dinheiro. Vários parceiros foram convidados, como a Camargo Correa. O próprio governo não acreditou no projeto. Era considerado um mico porque se acreditava que a licença ambiental não fosse sair. A bola da vez seria a usina de Belo Monte.
O segredo foi o projeto de construção prever a geração a fio d'água, então?
- Foi o grande diferencial, do ponto de vista ambiental.
Isso se explica por uma das ênfases da sua trajetória, a preocupação com o meio ambiente?
- Sou ambientalista, pertenço ao conselho da SOS Mata Atlântica. Mas comecei a vida como responsável pela área de comércio exterior da CBPO, em 1972. No Paraguai, respondi pelas usinas de Acaray e Iguazu. Coordenei o programa de concessões rodoviárias, ganhamos a concessão da Anhangüera-Bandeirantes e formamos a CCR com a Camargo Correa. Depois criamos a Ecovias, da qual fui presidente até 2003, passando então a vice-presidente executivo da holding Eco Rodovias, que também responde pela Ecovia Paraná e a Ecosul, no Rio Grande do Sul. Em 2004, voltei ao grupo Odebrecht para responder pelo programa do Madeira. Meu primeiro desafio foi a Rodovia dos Imigrantes - o estado da arte em estudos ambientais, incrustada no Parque Estadual da Serra do Mar, que responde por 7% do que resta da Mata Atlântica - mas este desafio (o Madeira) é maior ainda.
Por que maior?
- As usinas do Madeira são a base de sustentação do PAC. Trata-se do maior programa privado de energia elétrica do mundo. E há a localização, na Amazônia, com envolvimento ambiental delicadíssimo, vitrine do mundo. Demonstrará que é possível explorar a Amazônia de modo racional, com impacto ambiental mínimo, numa região com potencial de geração elétrica da ordem de 80 mil a 100 mil MW. Se não for explorado, você cerceou o crescimento econômico do País. Santo Antônio significa a mudança de patamar qualitativo em termos de exigências ambientais.
Foram enormes as exigências e as pressões ambientalistas, inclusive do exterior, não?
- Sim. E há grandes implicações. No longo prazo, os órgãos ambientais não vão se contentar com menos do que no Madeira. O programa começou de trás para diante, da lingüiça ao porco. Havia premissas para superar as dificuldades ambientais. Primeiro, para conseguir a licença ambiental, não podia haver alagamento de terras na Bolívia, para que não houvesse problemas internacionais. Segundo, a altura tinha de ser calibrada porque não era possível alagar terra indígena. A altura da represa não podia, portanto, ultrapassar 15 m - para comparar, Itaipu tem 176 m de altura. Com 15 m de altura, não haveria reservatório. A solução é usar turbinas tipo bulbo, que operam deitadas, usando a experiência bem- sucedida de usinas alemãs nos rios Danúbio e Reno.
Além dos grupos atuais da Madeira Energia, há interessados em entrar, como se tem noticiado?
- Há outros interessados, inclusive o BNDESPar, fundos de pensão, empresas privadas geradoras de energia, autoprodutores que têm incentivos fiscais - para eles a energia sai mais barato, como Votorantim, Vale, CSN...
A vitória no leilão ocorreu com preços vistos pelos concorrentes como baixos, lembrando que o líder do consórcio é o grupo Odebrecht, que construirá a usina...
- Um dos diferenciais está no início da geração. Ele está estipulado para dezembro de 2012, mas vamos antecipar a produção para maio de 2012. Então será possível vender no mercado livre a energia gerada.
Como se voltou para a questão ambiental?
- Quem cresceu numa fazenda teve contato íntimo com o meio ambiente. A duplicação da Imigrantes levou essa ênfase às últimas conseqüências, bem acima do que era exigido em contrato, por exemplo com a certificação ISO 14.000. Nós nos propusemos a responder ao desafio de fazer uma obra que não fosse contestada do ponto de vista ambiental. O BID usa o Plano de Gestão Ambiental da Imigrantes como referência para a concessão de novos empréstimos, nas mais diversas regiões. Você mergulha nisso e vê que é possível repassar a experiência a outros ambientes.
Para levar adiante um projeto de R$ 12,5 bilhões será preciso abrir o capital?
- Temos a expectativa de fazer a oferta inicial de ações (IPO) em 2011, antes do início da geração de energia. A governança corporativa já está no Nível 2 e entraremos no Novo Mercado. As práticas darão confiabilidade ao investimento. A preocupação é que o controlador não esteja em cima e o minoritário, embaixo. Esse risco será mitigado por uma série de ações. Primeiro, a contratação da obra será em regime turnkey lumpsum - ou seja, com preço fechado e apólice de seguro para garantir o pagamento da obra. Com isso se assegura que não vai haver surpresas no meio do caminho. Segundo, quando e se houver pleitos de associados construtores, o investidor - no caso, Odebrecht e Andrade Gutierrez - não vota, só votarão os outros acionistas.
Como vê o peso do governo na sociedade?
- Somos vencedores do leilão. Estamos atrás dos mesmos objetivos. O governo está focado nisso.
Até agora, Santo Antônio tem apenas a licença prévia, não a licença de instalação...
- Há a licença prévia, que autoriza o empreendimento a ser licitado, mas não iniciado. O início efetivo virá com a licença de instalação, a partir do cumprimento das condicionantes de longo prazo, que é o trabalho que está sendo feito hoje via PBAs - os projetos básicos ambientais - para que o Ibama possa formalizar a licença de instalação. Essa licença está prevista para setembro de 2008.
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