|
Como reconhecem até os críticos, a economia brasileira melhorou no governo Luiz Inácio Lula da Silva - e o Banco Central, comandado por Henrique Meirelles, contribuiu diretamente para isso. O presidente do BC construiu uma história de sucesso. Nos últimos cinco anos, seu papel foi decisivo para a estabilização da economia, a confiabilidade no real e, afinal, a retomada do crescimento sustentável, a partir de uma política monetária de classe mundial, que ajudou a suprir desequilíbrios fiscais latentes e a evitar os danos que poderiam ter sido causados pelo aumento dos gastos públicos. Meirelles conquistou, assim, um lugar ímpar entre seus pares - os dirigentes dos BCs de todo o mundo que se reúnem periodicamente na Basiléia, na Suíça ou nos eventos internacionais. O papel deles, inclusive de Meirelles, é invariavelmente didático: cabe-lhes explicar aos Poderes Executivo e Legislativo e à população que, se o BC não agir com extrema prudência, há o risco de enfraquecer sua missão principal: preservar o valor da moeda. Isso se aplica ao Brasil, à Suíça e à China, como a qualquer economia, por menor que seja, como a da Bolívia ou a do Timor Leste. Parece simples, mas não é. Volta e meia outras autoridades reclamam da ortodoxia do BC e invocam defensores episódicos do keynesianismo - como o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan - omitindo o fato de que o caminho da contenção monetária esteve presente em todos os países que debelaram a inflação. E que esta ainda dá sinais de vida, como ocorreu com os IGPs, do final do ano passado a janeiro deste ano. Portanto, só com a idéia fixa de derrotar as pressões de preços, o Banco Central dirigido por Meirelles pode, desde 2006, enquadrar o índice oficial, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor-Amplo) no centro do regime de metas de inflação de 4,5% - depois dos 12,53%, de 2002; dos 9,30%, de 2003; dos 7,60%, de 2004; dos 5,69%, de 2005; até os 3,14%, de 2006; e os 4,46%, de 2007, conquistando espaço para um deslizamento sem precedentes dos níveis dos juros básicos da economia brasileira fixados pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Esses juros saíram, no governo Luiz Inácio Lula da Silva, do ponto mais alto de 26,5% ao ano, em abril de 2003, para o ponto mais baixo da história do indicador de 11,25% ao ano, definido em setembro de 2007 e mantido desde então, sem previsão de mudança neste semestre. O resultado da estabilização monetária e da queda dos juros foi a retomada do crescimento econômico sustentado. "Não há dúvidas de que os países emergentes (inclusive o Brasil) ocupam uma parcela maior do crescimento econômico mundial", afirmou o presidente do BC em entrevista exclusiva à Revista Bovespa, na sede do BC em São Paulo, no dia 7 de fevereiro.
 |
| Henrique Meirelles |
| "O Brasil está bem entre os emergentes" |
|
Henrique Campos Meirelles - que presidiu o Banco de Boston no Brasil e nos Estados Unidos e se elegeu deputado federal, em 2002, pelo PSDB, abrindo mão do mandato para assumir o Banco Central, sem garantia prévia de êxito - avalia bem as instituições brasileiras. Acredita, por exemplo, que o fortalecimento dos bancos do País torna altamente improvável uma crise de crédito decorrente dos financiamentos imobiliários subprime, à semelhança da enfrentada hoje pelos Estados Unidos. "Mas os bancos centrais têm de estar sempre alertas", lembra ele. O pior seria baixar a guarda.
Nesta entrevista, ele trata da atuação do Banco Central no País, da participação do Brasil nos fóruns internacionais, além de enfatizar o papel do mercado de capitais como um forte instrumento de capitaliza-ção das empresas, acrescentando, ainda, que vê espaço para que novas ofertas iniciais (IPOs) sejam feitas em 2008, ajudando as empresas a dar o primeiro passo em Bolsa. Aborda, sobretudo, a confiança dos empresários, sem a qual o investimento não estaria crescendo de maneira sustentada.
Como vê a capitalização via IPOs em 2008? Eles ajudarão a suportar o crescimento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) na economia brasileira?
- Acredito que sim. Vai depender do sistema internacional. Uma recessão nos Estados Unidos pode prejudicar o fluxo de recursos para outras economias. Mesmo que mitigada, dependendo do grau de desaceleração norte-americana, teríamos condições de tirar partido das boas condições e dos fundamentos econômicos brasileiros para atrair uma parcela maior da liquidez internacional, de tal sorte que os lançamentos de ações continuarão sendo uma fonte de financiamento crescente para as empresas nacionais.
Supondo uma recessão leve nos Estados Unidos, que impacto imagina para a economia mundial?
- Vamos focalizar a economia brasileira. O Relatório de Inflação de dezembro já continha a hipótese de uma recessão de intensidade média nos Estados Unidos. O Banco Central já previa, em dezembro, que, após um crescimento de 5,2% do PIB em 2007 e supondo no último trimestre uma aceleração, viríamos para algo como 4,5% neste ano. Esse diferencial reflete em grande parte a desaceleração da economia dos Estados Unidos, com efeitos negativos nas só nas exportações do Brasil para os Estados Unidos como nas exportações brasileiras para os países que exportam para os Estados Unidos e com impacto na precificação de ativos. Nas nossas estimativas, isso está refletido. Naturalmente, vamos atualizar as projeções em nossos próximos Relatórios de Inflação.
Que mecanismos o Banco Central deverá usar para atenuar os riscos externos, caso das novas regras para avaliar os riscos dos bancos, inclusive o chamado moral hazard - ou risco moral?
- São duas coisas diferentes. A primeira é ver o que se pode fazer para mitigar os riscos trazidos pela crise americana. Certas medidas prudenciais já foram tomadas no passado, como as adotadas em junho na área cambial, evitando expansão excessiva, na construção de reservas, na ancoragem da inflação, eliminação do endividamento cambial. Essas medidas deram ao Brasil condições para enfrentar a crise nos mercados de crédito americanos com mais serenidade. Quanto às medidas para o futuro, não se trata de corrigir problemas atuais, mas de prevenir problemas. Não afetam o estágio atual de operações, mas evitam desequilíbrios como os que afetam hoje a economia norte-americana.
O País estaria, assim, "quase" livre da contaminação?
- A contaminação existe. Há até duas palavras para elas: descolamento, recolamento... Deixando de lado as frases de efeito, não há dúvida de que os países emergentes não só ocupam uma parcela maior do crescimento econômico mundial, que é a resposta dos emergentes, como o efeito é o de diminuir o impacto dos problemas da economia dos Estados Unidos. Mas não é possível eliminar a contaminação, pois os Estados Unidos são os maiores importadores, a maior economia do mundo e a mais importante. Mas, numa escala global, ficaram menores. Além disso, os países e setores são afetados de maneira diferente. O Brasil, com reservas em montante recorde, câmbio flutuante que permite absorver mudanças de preços relativos internacionais. Enfatizo, reservas e cãmbio flutuante dão tempo para que mudanças se façam sem pânico, sem corridas, em processos ordeiros e de longo prazo. Além disso, temos a ancoragem da inflação nas metas, o governo é credor líquido no mercado externo, o crescimento é impulsionado pela demanda doméstica e o Brasil está diversificando as exportações. Imune, ninguém é. Mas entre os emergentes o Brasil é um dos que está em melhor situação.
Estranhou as idéias keynesianas do diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan, ao recomendar mais gastos públicos nos Estados Unidos, ou isto é mais um sinal da confusão mental que se seguiu às trapalhadas das operações subprime, que revelaram fragilidades?
- Muitas pessoas leram uma parte, ou algumas frases. O que ele (Strauss-Khan) está dizendo é que, nos Estados Unidos, que entraram num movimento de contração da economia, um movimento de expansão financeira típica é recomendável, o que também seria em outras economias em situação semelhante. É diferente de posturas ideológicas que advogam o aumento do gasto público sempre. O gasto deve permitir que o comportamento das contas tenha um papel contracíclico, ou seja, expansionista numa fase de desaceleração e evitando um avanço exagerado numa fase de crescimento.
Mas não é bem o caso dos Estados Unidos, que continuam a enfrentar elevados déficits nas áreas fiscal e cambial, não?
- Eles têm menos margem, hoje...
São problemas que estão sendo enfrentados, e que têm solução difícil.
A propósito, pode se considerar que o Brasil está livre das trapalhadas norte-americanas depois do aprendizado com as experiências nefastas com o SFH dos anos 70 e 80, por exemplo no desequilíbrio do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS)?
- Não existe isso. Problemas podem ser determinados por crises externas. O processo de aperfeiçoamento regulatório nunca termina. Os BCs estão sempre aprendendo com os problemas. É como remédio. Não se deve dizer que não existe remédio novo. Nos fóruns internacionais, os BCs discutem como lidar com isso e o Brasil participa dessas discussões. Algumas mudanças contábeis foram delineadas pelo BC para dar mais transparência às operações de securitização. Mas, além do risco de reputação, a grande alavanca da crise americana eram as linhas de crédito comprometidas no processo de securitização, ou concedidas a sociedades de propósito específico, etc. Os bancos também tinham risco de crédito aberto, amparado por documentação e que inflaram os seus balanços e aumentaram os prejuízos além do se previa. A questão é como fazer o registro e as alocações de capitais para estas linhas de crédito. (O acordo de) Basiléia 2 já prevê isto e vamos ver se é suficiente, o Brasil está na mesa de negociações.
Como vê o equilíbrio macroeconômico no segundo mandato de Lula - a inflação é uma preocupação leve, moderada ou acentuada? A introdução do compulsório sobre as operações de leasing deve ser vista como pontual?
- O BC não fala sobre inflação. Por nossas regras de governança, fazemos isso nas atas do Copom e nos Relatórios de Inflação. O compulsório sobre o leasing é pontual, não é medida de política monetária. Visa a corrigir a falta de isonomia no mecanismo de captação de recursos pelas instituições financeiras. O banco que emitia um CDB recolhia compulsório e um empresa de leasing que emitia uma debênture, não. Isso criava uma distorção no mercado. O BC corrigiu uma imperfeição da regulamentação.
Há pouco mais de quatro anos, em encontro de que participou em Campos do Jordão, previu que a relação entre a dívida líquida e o Produto Interno Bruto (PIB) tenderia aos 40%, em 2008 - e ela chegou perto disso, com alguma ajuda do IBGE, que reviu os cálculos do PIB. Qual é a próxima meta de longo prazo para a relação dívida/PIB?
- Na verdade a previsão é para 2011, e não mudou. Quanto ao PIB, o BC tinha estimativas diferentes do IBGE que acabaram se verificando acertadas.
Como vê a posição relativa do Brasil na próxima década, com a promessa de se tornar um dos grandes do petróleo? Há riscos de cair na tentação de mais gastança ou a condução fiscal adequada já deve ser vista como uma política pública sustentável?
- O Brasil é um País de economia complexa, de grandes dimensões. É pouco provável que o petróleo venha a ter tanta importância, principalmente por causa do ritmo de crescimento da economia brasileira. Em outros países, o impacto é maior.
Alguns empresários já começam a falar na hipótese de o Brasil mudar de patamar econômico na próxima década. Pode-se dizer que o País vai ficar rico, ou "remediado"?
- O Brasil está numa situação cada vez melhor, o que se vê pelo aumento da renda per capita, pela distribuição de renda, pelo contingente de pessoas que sai da pobreza. Prefiro não entrar nessa discussão, se será rico ou não e qual a medida disso, especificamente, mas continuando nessa trajetória - e crescendo na velocidade que tem crescido - o Brasil terá uma economia extremamente fortalecida. Está crescendo hoje e aumentando o emprego, distribuindo renda, com melhora das condições de vida e ancorado em bases sólidas. Dá para crescer por muito tempo, sem subestimar o valor da estabilidade e superestimar seu custo. Há quem diga que juros mais baixos deixariam os empresários eufóricos e haveria uma explicação para o crescimento. Mas a economia não funciona bem assim. As empresas são extremamente racionais ao tomar decisões de investimento. A questão é a previsibilidade. Os empresários estão investindo mais.
O Banco Central está estudando mudanças no mecanismo dos cartões de crédito, de modo a separar o que é meio de pagamento em prazo determinado e operação assemelhada à de empréstimo?
- Estamos olhando isso, mas não há nada definido.
|
|