|
O ano de 2007 foi excepcional para as ofertas públicas iniciais de ações, (IPOs), que bateram recordes tanto em número de operações (64) como em volume de captação (R$ 55,5 bilhões). Para 2008, a expectativa é de números mais contidos, ressalvada a hipótese de uma recuperação mundial mais forte até meados do ano, o que por ora é, no mínimo, uma incógnita. Se as expectativas, sem prazo exato para se confirmarem, continuam sendo otimistas, isto se deve ao vigor da economia brasileira e seus efeitos diretos sobre o mercado de ações.
O resultado dos IPOs, no ano passado, foi o melhor desde 1994, ano do lançamento do Plano Real. A medida do salto é clara: em 2004, houve sete IPOs, em 2005, nove; em 2006, 26 IPOs e, em 2007, 146% mais operações. Estudo da consultoria Ernst&Young sobre os mercados globais mostrou que o Brasil teve dois dos dez maiores IPOs do planeta: a abertura de capital da Bovespa, em quinto lugar no ranking mundial, com uma operação de US$ 3,7 bilhões e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), de US$ 2,9 bilhões, oitava maior do mundo. Em fins de janeiro de 2008, havia 23 lançamentos em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - mas é difícil avaliar quantos mais vão ser lançados no período.
"Os participantes do mercado, principalmente os bancos de investimento, não podem ficar parados, precisam fazer negócios para ter receita", lembra Ricardo Humberto Rocha, professor de mercados financeiros do Ibmec de São Paulo. "Eles estão olhando janelas de oportunidade para voltar com força ao mercado e sabem que existe demanda de um número crescente de investidores por papéis de empresas iniciantes na Bovespa."
 |
CASAGRANDE, DA CGF |
O mercado ganhou consistência |
|
A percepção é compartilhada por Humberto Casagrande Neto, ex-presidente da Apimec, associação que reúne os profissionais de investimento, hoje diretor da DGF, que gerencia fundos de private equity. "O mercado de capitais brasileiro mudou de patamar, ganhou consistência nos últimos anos", afirma Casagrande. "Atualmente, ele tem força e o interesse por ações, tanto pelas empresas quanto pelos investidores, cresce cada vez mais; por isso, o quadro é positivo para emissões de papéis, mesmo em momentos de incerteza, como agora."
JUROS MENORES - Outra otimista é Juliana Braga, estrategista do UBS Pactual. A queda da taxa básica de juros de 2007 ainda influencia a economia em 2008, argumenta ela, explicando: "A média de juros deste ano será menor que a de 2007, o que é muito favorável para o mercado de ações. Esse quadro dá perspectiva positiva para as empresas e para a Bovespa e mostra que há espaço para mais IPOs".
As repercussões do corte dos juros não se limitam ao Brasil, lembra Clodoir Vieira, analista-chefe de investimentos da Corretora Souza Barros. Ele conversa diariamente com investidores, analistas e bancos e identifica um sentimento favorável às emissões: "Não se vê pessimismo. Existe expectativa, principalmente em relação aos rumos da economia dos Estados Unidos. Mas o Federal Reserve (banco central americano) cortou duas vezes seguidas a taxa básica de juros em janeiro e essa iniciativa certamente terá reflexos positivos. A previsão é que esses reflexos apareçam em seis meses ou mais, como acontece normalmente, mas é dado como certo que eles terão impacto positivo sobre a economia americana".
Henrique Campos, diretor de auditoria da BDO Trevisan e especialista em mercado de capitais, acredita que é temporária a incerteza com a situação nos Estados Unidos: "É normal, num primeiro momento, que se redobrem as atenções para o comportamento do mercado. Mas é uma situação temporária, os preços dos papéis logo voltam ao normal. Os IPOs devem voltar, principalmente a partir do segundo semestre".
PRUDÊNCIA DA CVM - Em palestra, no início de fevereiro, na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana, notou que depois do salto de 2007, "a desaceleração (dos IPOs), este ano, será natural".
Mas para a diretora do Bradesco Banco de Investimento, Denise Pavarina, o mercado de IPOs continuará aquecido, e também "mais seletivo". Mas, acrescenta Denise, "seguiremos com IPOs este ano".
Levantamento da consultoria Ernst&Young mostrou que mercados de países emergentes, como o Brasil, são cada vez mais atrativos para os lançamentos de ações. Segundo o estudo, "as crescentes operações realizadas através desses mercados devem-se, principalmente, à evolução das economias emergentes e à globalização cada vez maior do mercado de capitais". Gil Forer, diretor global da consultoria para emergentes, considera que, "apesar das contínuas incertezas do mercado, o cenário de empresas prontas para a realização de IPOs em 2008 parece saudável, mais uma vez, especialmente nos mercados emergentes".
MAIS INVESTIDORES LOCAIS - O mais provável, reflete Casagrande, é que o mercado de IPOs passe por mudanças. Em 2007, os estrangeiros ficaram com a maioria das ações de IPOs. O desafio, agora, é atrair mais investidores brasileiros: "O aplicador estrangeiro cumpre papel importante no lançamento de ações no País, mas é preciso buscar maior participação dos investidores locais. Ficar na dependência dos humores externos é preocupante, porque cria volatilidade acima do desejável. Uma das lições de casa que o mercado brasileiro tem para fazer é atrair cada vez mais os nossos investidores pessoas físicas - como tem feito a Bovespa - que podem ser um grande apoio também em IPOs".
Espera-se uma retomada dos IPOs a partir do segundo semestre. "O investidor está na expectativa dos indicadores que mostrarão como vai se comportar a economia nos Estados Unidos", afirma Rocha. "Ele vai acompanhar como está o nível de financiamentos de casas e o ânimo do consumidor americano, por exemplo". Ainda não se tem idéia, acrescenta, "do tamanho do impacto da turbulência do mercado americano no comportamento da economia global".
Vieira concorda com a análise: "O investidor voltará com força quando se sentir mais seguro em relação ao peso da turbulência nos mercados americanos, cujo tamanho ainda não está totalmente dimensionado. A safra de balanços das empresas negociadas nesses mercados será um sinalizador importante". |