Internacional
O valor justo das companhias
William Mahoney

Quanto maior a volatilidade das cotações, maior a importância de os investidores - os pequenos, sobretudo - saberem avaliar as empresas, separando as subavaliadas das superavaliadas, na tentativa de tirar proveito da instabilidade e pagar um preço conveniente pelas ações. O papel dos profissionais de Relações com os Investidores é peça-chave, servindo tanto às empresas que precisam da Bolsa para se capitalizar como dos acionistas que necessitam de informações precisas sobre as condições financeiras da empresa, o risco envolvido, a compreensão do setor em que ela atua, o quadro geral da economia e os chamados aspectos intangíveis: a qualidade do planejamento estratégico da companhia, sua posição no mercado, o grau de profissionalismo da administração, eficiência, responsabilidades social e ambiental e governança corporativa, analisa o consultor William Mahoney, um dos maiores especialistas em RI do mundo e autor do Manual do RI - Princípios e Melhores Práticas de Relações com Investidores.

A função do profissional de RI é proporcionar todos os meios para que o mercado avalie corretamente o valor justo de uma companhia, disse Mahoney, que esteve no Brasil em fins de 2007. Isso se aplica tanto para o investidor institucional quanto para o pequeno. "Tanto um quanto o outro buscam essencialmente o mesmo tipo de informação", diz ele. "Sua principal responsabilidade é manter um fluxo continuo de informações da empresa para o mercado e vice-versa." Uma das atribuições desse profissional é ajudar a determinar o preço justo das ações da empresa, empregando, inclusive, modelos matemáticos que levam em conta os parâmetros intangíveis e o "sentimento" do mercado.

William Mahoney
Manter um fluxo de informações para os investidores

Como deve ser o comportamento da área de RI da empresa? Há alguma diferença em relação ao pequeno investidor?
- O papel do profissional de RI não difere fundamentalmente, quer no que diz respeito ao investidor individual, quer no que diz respeito ao institucional. É mais uma questão de pormenores, do nível de sofisticação envolvido na informação. Instituições normalmente usam modelos de investimentos complexos e com elevado peso quantitativo, enquanto investidores individuais não costumam mergulhar tão a fundo nos dados da companhia. Estes precisam ter informações mais abrangentes sobre algumas categorias-chave: as condições financeiras da empresa, incluindo resultados, tanto atuais quanto de uma razoável série histórica. Depois, é preciso entender o risco envolvido em investir na companhia, o que abrange não só o setor onde ela atua, mas o quadro geral da economia. Investidores precisam ter bom senso sobre a dimensão macroeconômica, tanto atual quanto dos prováveis cenários futuros. Finalmente, investidores institucionais e pessoas físicas começam a prestar mais atenção nos chamados aspectos intangíveis: a qualidade do planejamento estratégico da companhia, sua posição no mercado, o grau de profissionalismo da administração, eficiência, responsabilidades social e ambiental e governança corporativa, entre outras. Enfim, seu papel é manter um fluxo contínuo de informações de boa qualidade da empresa para o mercado e vice-versa. A ênfase está na qualidade: há freqüentemente uma tendência em se exagerar na quantidade de dados em detrimento da qualidade.

Como definir "informações de qualidade"?
- É algo difícil de definir e de alcançar porque varia de empresa para empresa. O espectro de variações sobre qualidade das informações é muito amplo e complexo, não cabe numa simples definição. As empresas normalmente vão ao mercado para saber se suas necessidades de informação estão sendo atendidas. Isto é bom, mas há o risco do exagero. Aparentemente, agem como se sempre houvesse mais a ser feito. Em outros momentos, o fluxo precisa ser modificado para atender a situações especificas. Talvez seja necessário questionar investidores, talvez seja o caso de ações voltadas para o público investidor. Algumas empresas parecem acreditar que comunicados à imprensa são a forma mais fácil de aumentar a visibilidade, o que pode ser uma péssima estratégia se não houver informação importante nos comunicados: em breve os investidores vão parar de ler até mesmo os títulos. O mesmo pode acontecer com o excesso de reuniões, teleconferências e e-mails: a empresa tem de ter algo valioso a comunicar cada vez que vier a público. Informação tem de agregar conhecimento.

Como são avaliados os profissionais de RI?
- A informação - o produto do seu trabalho - é, por definição, intangível. Por isso ele é avaliado por três critérios principais: a qualidade do fluxo da informação que propicia da empresa para o mercado e do mercado para a empresa; a habilidade para colocar os gestores diretamente em contato com investidores e analistas; e a habilidade em ajudar os gestores a entender como a companhia é avaliada pelos investidores. Para investidores de todos os tamanhos e também para analistas o importante é que os dados sejam suficientes para gerar um insight sobre a situação específica da empresa num dado momento, bem como do seu contexto imediato (o setor no qual ela atua), bem como o contexto mais amplo (o estado da economia nacional e mundial).

Como assim?
- Insight é outro conceito difícil de definir, mas pode ser traduzido como uma noção suficientemente clara do rumo da empresa e dos diversos níveis de realidade em que atua. Transformar informação em insight permite a investidores tomar decisões sobre se devem manter ou modificar suas posições em determinada empresa.

O senhor também tem insistido na questão do preço justo das empresas de capital aberto...
- O objetivo de toda companhia deveria ser o de ter suas ações avaliadas de modo justo, consistente com seu real valor. Portanto, o objetivo do departamento de RI deveria ser o de fazer com que a empresa seja bem entendida pelo mercado, calculando seu valor intrínseco e se ela está sendo sub ou supervalorizada pelo mercado. Novos modelos matemáticos levam em conta fatores intangíveis como sentimento e comportamento do mercado, bem como estratégias corporativas. Um desses modelos, o Life Cycle Return, desenvolvido por Rawley Thomas, importante consultor financeiro de Chicago, indica que em qualquer momento metade das ações é subavaliada, enquanto a outra metade está superavaliada. Isso ocorre devido ao chamado sentimento do mercado. No seu comportamento diário, é provável que se esteja reagindo às noticias de forma exagerada, o que causa oscilações irracionais de avaliação para cima e para baixo. Mas, no momento em que as informações são corretamente traduzidas e compreendidas em seu contexto, os valores são corrigidos. Vemos isso ocorrer quase cotidianamente, dada a volatilidade que tomou conta do mercado de ações nos últimos meses.

Nesse cenário, como deve se comportar o investidor individual?
- Investidores individuais devem se basear no relatório de analistas, no comportamento dos investidores institucionais e na imprensa especializada. A volatilidade tornou mais necessário do que nunca medir o valor justo de uma empresa. O investidor tem de saber qual é sua tolerância ao risco. Cada um tem de se perguntar o quanto pode arriscar a perder enquanto continua a turbulência. Preservar o capital é a pedra fundamental de qualquer portfólio de investimento. Se você já perdeu todo o lucro acumulado e está perto de começar a ver o capital erodindo, talvez seja a hora de mudar de jogo. Mas a médio prazo o mercado deve reagir. Se isso não acontecer, é porque há problemas mais sérios com a economia do que o mercado de ações, e que devem ser enfrentados em primeiro lugar.

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