Mulheres em Ação

Essas investidoras vieram para ficar

Miriam Scavone

As mulheres que entraram no mercado de ações em 2007, por meio dos clubes de investimento, não se deixam abalar por fases turbulentas. Elas estão conscientes dos mecanismos desse tipo de investimento, se programaram para colher frutos no longo prazo, e, acima de tudo, sabem o que querem.

Há cerca de um ano, uma novidade surgiu na vida da professora universitária Marilise Esteves: ela passou a aplicar parte de seu dinheiro no mercado acionário, por meio do Clube de Investimento Mulheres Prósperas, administrado pela corretora Spinelli e formado só por mulheres de Cuiabá (MG). A princípio, parecia que aquela nova opção de investimento só teria repercussão no futuro, já que o principal objetivo de Marilise era dar maior vigor a uma cesta de investimentos reservada para a aposentadoria. Mas, para sua surpresa e de quem convivia com ela, os impactos apareceram já no presente. "Mudei meu comportamento, passei a ser uma pessoa mais interessada em acompanhar os acontecimentos do País e do mundo", admite a professora. "Hoje, chego em casa e ligo direto no canal Bloomberg, que me dá notícias quentes de economia e política, e minha internet abre direto na página da revista Exame, que fala de negócios!"

Esse fenômeno comportamental tem se repetido na vida de muitas pessoas que ingressaram recentemente no mercado de ações nacional. Um grupo, aliás, que aumenta a cada dia, pois boa parte dos brasileiros passou a confiar muito mais nessa aplicação para médio e longo prazo e percebeu que é possível ser um pequeno ou médio investidor. Para se ter uma idéia, basta dizer que o ano de 2007 fechou com mais que o dobro do número de investidores brasileiros individuais em relação a 2006, e nada menos que 683 novos clubes de investimento foram criados no mesmo período. É um recorde histórico, impulsionado especialmente por dois fatores: o excelente desempenho das ações no mercado brasileiro em 2007, e a ampla e eficiente campanha de popularização desse investimento.

Só o que não se sabia era como esses novos investidores iriam se comportar diante da primeira intempérie que surgisse. E ela veio, no início de 2008: ameaça de recessão nos Estados Unidos, baixa geral dos papéis no mundo, repercussão no Brasil. Nesse momento, como estava Marilise, por exemplo? "Tranqüila, porque entrei nesse negócio conhecendo seus mecanismos, consciente de que há momentos como esses, que chegam e passam", revela a professora. "A forma mais eficaz de ter tranqüilidade em relação ao mercado de ações é entender como ele se comporta e nunca perder a noção de que o investimento é de longo prazo."

SEDE DE SABER MAIS - As mulheres têm sido uma boa fatia desses novos investidores conscientes e não perdem a oportunidade de conhecer melhor o terreno em que estão pisando. Prova disso é o fato de que os cursos ministrados gratuitamente pelo programa Mulheres em Ação têm estado insistentemente com vagas esgotadas. Mesmo nas aulas ministradas pelo Instituto Nacional de Investidores (INI), que não é exclusivo das investidoras, elas têm marcado presença. Essa instituição mantém parceria com a National Association of Investors Corporation (Naic) - organização americana com mais de 50 anos de atuação - e vem orientando o público brasileiro a investir em ações.

Há ainda uma parcela de mulheres que está se informando por meio de livros que falam de educação financeira ou especificamente de ações. O best-seller nacional Investimentos - Como Administrar Melhor seu Dinheiro, do professor e consultor de finanças pessoais Mauro Halfeld, motivou a engenheira paranaense Rosenilda Wernick a começar a aplicar seu dinheiro em ações. Apesar de ainda não ter chegado aos 30 anos, ela já tem todo um plano montado para sua vida após os 60. E ele inclui usufruir do patrimônio que pretende multiplicar com as ações.

"Assim que me decidi, entrei no site do clube Mulherinvest, administrado pela corretora Fator e formado por mulheres de todo o Brasil", lembra. "É perfeito para mim. Acompanho os preços dos papéis, troco idéias com outros membros do clube no Google, e todo mês coloco religiosamente uma parte de minhas economias lá. Tudo pela internet." Leitora voraz de livros que tratam de finanças pessoais, Renata tem o ideal de um dia conseguir investir por conta própria, escolhendo ela mesma as ações para comprar e vender. "Ainda não é hora, mas eu chego lá!", acredita.

DE MÃE PARA FILHOS - Os bons ventos de 2007 inspiraram também a cearense Rosilândia Maria Alves Lima a ir mais longe no mundo das ações. Não que ela nunca tenha convivido com esses papéis - pelo contrário, o pai é dono de uma corretora e sempre fez aplicações desse tipo para os filhos. Mas ela própria tinha medo de entrar nesse terreno. Tanto que, no momento de fazer sozinha algum tipo de aplicação, optava pela poupança - claro, sem o pai ter conhecimento. Até perceber que era hora de tomar as rédeas de seus investimentos e, com mais de 30 mulheres de Fortaleza, criar o Clube da Mulher Rendeira, administrado pela Pax Corretora, em junho do ano passado. A idéia era limitar a entrada ao público feminino, mas os resultados foram tão bons que já alguns homens pediram - e conseguiram - permissão para entrar. "Dessa forma eu exercito melhor minha autonomia e ainda dou exemplo para os meus filhos", acredita. Ela torce para que Vitória, de 2 anos, e Bruno, de 11, sigam seu exemplo. "Meu pai me inspirou a ter essa inteligência financeira e eu quero passar essa lição para os meus filhos com consistência, sabendo do que estou falando."

 
Viviane Senna
Viviane Senna

Royalties da família para a educação

O Instituto Ayrton Senna nasceu pouco antes do trágico 1º de maio de 1994, em que o piloto morreu. Ayrton queria criar uma organização sem fins lucrativos e sua irmã, Viviane, já estudava o assunto. Em junho de 1994, a instituição estava funcionando. Ela destina, 100% dos royalties recebidos pela família Senna para projetos de educação, diz Viviane, 50 anos, formada em psicologia, mãe de três filhos. Na época, trabalhava como terapeuta de crianças e adolescentes, carreira que deixou para cuidar do Instituto. Quase 14 anos depois, preside uma ONG bem- sucedida - a segunda maior do País no campo da educação - atrás apenas da Fundação Bradesco -, movimentando R$ 16 milhões por ano. Os recursos vêm da exploração comercial da imagem do piloto, da marca Senninha e da contribuição de empresas como a HP, a Votorantim, a Nokia e outras gigantes. Trabalha em parceria com secretarias da educação em estados como São Paulo, Pernambuco, Tocantins, além de milhares de secretarias municipais espalhadas País afora. "Trabalhamos com lógica empresarial, qualidade, mas ao mesmo tempo escala. O objetivo não é fazer uma boa ação localizada, mas melhorar a educação no País como um todo."

Há muitas carências no País e áreas de atuação para o terceiro setor. Por que escolheu a educação como foco?
A gestão pública no País é em geral de péssima qualidade e na área social não é diferente. Há enorme desperdício de recursos. Mas na educação básica a implicação é mais grave: é o desperdício de um momento crucial do ciclo de vida das crianças. O que elas deixam de receber entre os 7 e os 15 anos dificilmente vão recuperar mais tarde. Quando se está lidando com o futuro de uma criança, eficiência é uma questão de ética.

Qual a diferença entre o Instituto Ayrton Senna e outras ONGs que trabalham com educação?
A maioria das ONGs faz a ação pela ação. É uma creche aqui, uma escola acolá. Não que não tenha mérito. Mas num país com as dimensões do Brasil, é preciso ter escala para ter alguma relevância. Trabalhamos como empresa. O pensamento estratégico é importante: focamos em acompanhamento, monitoramento e resultados. Números indicam se estamos no caminho certo.

Você poderia dar um exemplo?
Com a má qualidade de ensino, a repetência escolar é problema: uma criança demora em média 10,8 anos para concluir um ciclo de oito. Só com a repetência escolar o desperdício supera R$ 10 bilhões por ano. O que é jogado fora na educação é cerca de uma vez e meia o custo do Fome Zero, de R$ 6 bilhões. É um desperdício de mais de 30%. É como se em uma fábrica de geladeiras, três em cada dez não passassem no teste de qualidade. Faz sentido? Uma empresa que funcionasse nesta base quebraria em três meses. Em estados como Tocantins e Pernambuco, obtivemos resultados notáveis com apenas uma fração dessa quantia, significando uma enorme economia para os cofres públicos. O País pôs a maioria das crianças dentro da sala de aula, mas à custa de queda na qualidade. A escola pública já foi boa. Hoje, com raríssimas exceções, é péssima. Para mudar isso é necessária uma ação em larga escala. Não é como nos países desenvolvidos onde o estado do bem-estar social cobre tudo, e sobram apenas os bolsões de miséria para as ONGs trabalharem. No Brasil é preciso reformar a educação pública a partir de dentro.

O investimento principal é em recursos humanos?
Sem dúvida. A matéria-prima mais valiosa do País são as suas crianças. Se fabricar um computador já é complicado, quanto mais um ser humano. É preciso um enorme investimento, ao longo de muito tempo. Mas o resultado certamente será mais do que compensador - seja em termos materiais, seja em termos éticos. (R.D.)



Sandra Blanco

A consultora financeira Sandra Blanco é uma das pioneiras nas ações de educação financeira voltadas para as mulheres. É dela o primeiro livro nacional com esse foco, Mulher Inteligente Valoriza o Dinheiro, assim como o primeiro site na mesma linha, o Mulherinvest. Site, aliás, que dá nome ao clube de investimento feminino que ela fundou e lidera. Nesta entrevista à Revista Bovespa, concedida enquanto colocava as filhas Alícia, de 9 anos, e Isabela, de 7, para dormir, ela fala da mudança comportamental da mulher em relação aos investimentos - mostrando como é importante entender mais sobre o mercado de ações para ganhar autonomia.

Sandra Blanco

Um grupo de mulher está afoito para conhecer o mercado

Como iniciou o trabalho de orientação financeira para mulheres?
Eu estudei matemática, trabalhei em banco, sempre fui apaixonada por investimentos. Fiz um curso de administração financeira nos Estados Unidos com esse foco. Foi lá que percebi que as americanas tinham muitos livros para ler sobre o assunto e eram muito ativas em relação a investimentos. Ficava pensando: "Meu Deus, elas estão anos-luz na nossa frente!" Quando voltei para o Brasil, decidi que ia escrever um livro sobre o assunto. Ele já está na terceira edição.

Como o livro foi recebido na época?
Da mesma forma que receberam minhas idéias: bem, mas com certo estranhamento. As revistas femininas não estavam interessadas, ninguém levou muito a sério. Até ficar claro o peso das mulheres na hora de gastar e aplicar o dinheiro da família. Hoje não há mais dúvida. E as mulheres estão cada vez mais maduras em relação às aplicações.

Como percebe isso?
Pelo tipo de pergunta que me fazem. No início do meu site, o único interesse das internautas era saber como gastar menos, pagar a fatura atrasada do cartão de crédito, sair do vermelho. Esse tipo de pergunta continua a ser a maioria, mas um grupo grande de mulheres está afoito para conhecer mais o mercado, saber a diferença entre uma ação preferencial e uma ordinária, pedir sugestão na hora de comprar ações. Isso não acontecia de jeito nenhum em 2003!

As mulheres do clube Mulherinvest têm esse perfil?
Nossa, somos xiitas! Nós mesmas tomamos as decisões sobre onde investir, e isso exige aprendizagem, troca de idéias, de conhecimento. Hoje há cerca de 100 mulheres cadastradas e a maioria está ativa. Dessas, 25 costumam estar nas reuniões quinzenais no meu escritório, em Ipanema. Além de decidir onde colocar o dinheiro, periodicamente há uma apresentação sobre uma nova empresa que desponta como opção interessante para investir. Feita por uma das mulheres. É de dar orgulho, não é?

Sem dúvida. Os investimentos estão dando certo?
Sim, tanto que até o final de 2007 tínhamos acumulado uma valorização de 300% em nossas cotas, em três anos. Com os problemas do início de 2008, ela caiu um pouco, mas não nos afetamos. Temos em nossa mente que tão importante quanto os lucros é ganhar autonomia para investir. Tanto que, hoje, muitas das participantes já possuem carteiras próprias, além da aplicação por meio do clube.

Missão cumprida, então?
Está sendo, porque assim como a equipe do Mulheres em Ação, da Bovespa, tenho muito a dizer para a população feminina sobre educação financeira. Acho que é uma forma de dar a minha contribuição para que as mulheres ganhem mais autonomia e respeito. (M.S)

 
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