Pensando o Brasil
"O mercado acionário continua atraente"
Fábio Pahim Jr., De Miami

Há 28 anos nos Estados Unidos e há 14 anos no banco de investimento Goldman Sachs, o economista brasileiro Paulo Leme, pós-graduado em Harvard, onde foi aluno de vários Prêmios Nobel de Economia, como Robert Barro, acredita que os mercados de risco no Brasil, como o mercado acionário e o mercado de imóveis, continuam oferecendo oportunidades aos investidores e têm potencial de valorização. "Para a Bolsa, as perspectivas são muito positivas apesar dos ganhos acumulados nos últimos três anos". Leme deslocou-se há pouco de Nova York para Miami, para fugir do estresse que domina Wall Street, ficando fisicamente mais próximo dos mercados do Brasil, do México e da América Latina, sua área de atuação. Especializado em análise de risco, com 10 anos de atuação no Fundo Monetário Internacional (FMI), antes de ingressar numa instituição de mercado, o economista vê o Brasil num momento favorável. Até há alguns meses, previa um ritmo de crescimento da ordem de 3% a 4% ao ano, hoje revisto para 4% a 5% ao ano. "Com reformas e mais investimentos, seria possível atingir um ritmo de 6% a 7% ao ano, capaz de elevar o País a uma condição de país desenvolvido em duas décadas."

Paulo Leme
Juro básico tenderá a cair apenas no segundo trimestre de 2008

A Goldman Sachs está ampliando suas atividades no País, passando a atuar como banco de investimento, em 2007. Foi uma das coordenadoras da abertura de capital da Bovespa Holding, mas sobre este assunto Leme não pôde falar - o período de silêncio só se esgotou no final de novembro e esta entrevista foi feita dia 25/10, quando o noticiário só dava conta do enorme interesse despertado pelo lançamento das ações da Bolsa, cuja faixa de preço acabava de ser revista de R$ 15,50 a R$ 18,50 para R$ 18 a R$ 23, valor pelo qual os papéis foram colocados.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o Brasil é visto pelos investidores norte-americanos?
- A opinião dos investidores estrangeiros é a melhor dos últimos 25 anos. A razão é simples. Melhorou a gestão macroeconômica, o ajuste externo foi profundo, há estabilidade de preços e o cenário exterior é o melhor dos últimos 50 anos. O Brasil usufrui o cenário de forma responsável, reduzindo a dívida pública. Melhorou muito o balanço de pagamentos. A dívida externa está quase zerada. A inflação é baixa e estável, o que leva a outro benefício - a estabilidade permite que o investidor faça planos de longo prazo. O resultado conduz a um aumento expressivo da produtividade total dos fatores, que chegou a ser negativa e hoje caminha para 2,5% a 3%. Isso leva a taxa de crescimento sustentável de 4% a 5% ao ano. Por isso, o investidor estrangeiro tem grande interesse no Brasil. Com o volume expressivo da liquidez internacional, vai continuar aumentando os investimentos no Brasil, em renda fixa, na Bolsa e em private equity. Outro dado importante é a complementariedade da economia brasileira com outras economias dinâmicas de crescimento sustentado - como Índia, China, Ásia em geral, Rússia, Oriente Médio...O País tem capacidade de oferecer à economia mundial água, energia, prover alimentação, terra. E isso é acrescido de um marco jurídico confiável, de instituições previsíveis.

Sugeriu manter o juro básico, como aliás ocorreu na última decisão do Copom, mas por quanto tempo mais?
A decisão do Copom está mais para uma pausa prolongada do que para uma interrupção de dois meses. Falamos em no mínimo seis meses para o BC avaliar o impacto na demanda e nos preços. O estímulo à demanda veio da redução da taxa de juros, da expansão do crédito que cresce a um ritmo 3 a 4 vezes superior ao do PIB nominal, do crescimento da massa salarial real e de um forte aumento - o que é preocupante - dos gastos correntes. Afinal, a taxa de câmbio estimula a demanda agregada. Já há um aumento da inflação que é decorrência de um estreitamento do produto. Como a defasagem da política monetária é de 12 a 18 meses até que surjam os primeiros efeitos e com uma inflação de 4% ao ano a caminho dos 4,5%, era mais do que hora de cortar as reduções do juro. Se o governo federal tivesse reduzido os gastos correntes, teria mais espaço para reduzir os juros, mas, com o impacto da política monetária sobre a inflação, o BC terá de avaliar os efeitos dos gastos fiscais sobre o comportamento dos preços para reavaliar quando, possivelmente por volta de abril do próximo ano, verá se é possível voltar a cortar o juro. Um último ponto é que o BC, com a inflação próxima de 4,5% ao ano e o risco crescente de uso excessivo de capacidade, reconheceu na Ata do Copom de outubro que a folga é muito pequena. Como um piloto, é melhor dirigir tirando o pé do acelerador do que enfiando o pé no freio.

Qual o roteiro para o Brasil atrair mais investimentos, como consideraram indispensável, nas reuniões do FMI, em Washington, em outubro, tanto o ex-chairman do Fed, Alan Greenspan, como o diretor do Fundo para a América Latina e Caribe, Anoop Singh?
Em primeiro lugar, em função da reavaliação favorável do risco- País, deverá haver um influxo maior de recursos. Mas dados os baixos investimentos em infra-estrutura, seria melhor captar mais investimentos diretos. Para isso é necessário um esforço para fazer reformas estruturais, para aumentar o potencial de crescimento do PIB, hoje de 4% a 5% ao ano. Não há razão para não se elevar este número para a 6% a 7%, atraindo investimento estrangeiro adicional. Para isso é necessário avançar em grandes áreas. Primeiro, na gestão macroeconômica, tirando o pé do acelerador fiscal. Antes de começar a falar em corte de despesas, pode-se começar a reduzir o nível dos gastos, que está em descompasso com o crescimento da receita. O governo precisa liberar recursos para o setor privado aumentar o investimento de longo prazo, emprego, renda e o crescimento da economia. Em segundo, fazer a reforma da Previdência Social. Em terceiro, a reforma tributária, não só para reduzir a carga, mas para aumentar a eficiência e diminuir o custo do sistema tributário, eliminando cunhas sobre a intermediação financeira, como a CPMF. A combinação dessas três iniciativas permitiria liberar recursos para o investimento privado. Em quarto lugar, uma reforma trabalhista permitiria reduzir o custo da mão-de-obra e aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho. A inclusão dessa reforma aumentaria o nível de emprego, a mobilidade social, o crescimento e a produtividade, permitindo compensar a apreciação do câmbio. Em quinto lugar, via abertura comercial, se utilizaria o regime cambial para reduzir as alíquotas dos bens importados, abrindo a economia, aumentando a produtividade e reduzindo a necessidade de esterilização de recursos ou aumento das reservas, que passaram a ser onerosas. Em sexto lugar, é preciso retomar as reformas microeconômicas e melhorar o marco regulatório. O ex-secretário Marcos Lisboa deixou uma contribuição valiosa que hoje está perdida num porão do Ministério da Fazenda. Um dos exemplos é a Lei de Falências, com elevado impacto na produtividade. Em sétimo lugar, cabe melhorar a qualidade da educação. Não gastamos pouco em educação, gastamos mal. É uma espécie de imposto progressivo. Isso é o esforço mínimo para atrair uma parcela mais expressiva do investimento estrangeiro.

Oscilações relativamente pequenas nos mercados de ações indicam que há forte confiabilidade dos investidores no Fed e na SEC, a CVM norte-americana, não?
Volatilidade é uma característica intrínseca dos mercados financeiros. O dado novo é sim. Houve aumento da confiança dos investidores em relação à coordenação da política econômica e dos órgãos regulatórios com a melhora da ciência econômica nos últimos 50 e, especialmente, nos últimos 20 anos, nos ministérios, nas agências. Grandes erros de política econômica que causaram depressão nos anos 30 já não são mais feitos. Embora a situação tenha sido grave em agosto, a atuação agressiva do BC brasileiro e do Fed deram ao mercado o grau de liquidez para desalavancar, de forma a ordenar sem transformar uma crise de carteiras em uma crise de solvência que poderia ter ocorrido se faltasse liquidez. No Brasil, a crise de agosto reviveu fantasmas do passado - como a vulnerabilidade, que levava a vender dívida externa e isso levava a uma queda desproporcional das atividades. Mas a resposta dos investidores estava errada. A gestão macroeconômica continua se aprimorando, o que explica a recuperação muito rápida do mercado de dívida, do DI, swaps e do real. Há hedge contra riscos externos, mas o Brasil está muito melhor, pois não tem déficit na conta corrente cambial.

Como vê a crise do subprime, num dia em que instituições de grande porte, como a Merril Lynch, declaram fortes prejuízos?
O processo é simples. Há um universo de ativos financeiros - o Banco de Compensações Internacionais, ou BIS, fala em mais ou menos US$ 3 trilhões - cujo valor tem de ser reduzido. Há uma perda. O processo vai gerar uma desaceleração do crédito ou contração. Ou seja, um choque contracionista, que reduz a taxa de crescimento da economia dos Estados Unidos e provoca uma ligeira desaceleração da economia mundial. A boa notícia é que a atuação rápida dos BCs evitou que a contração fosse multiplicada. Provavelmente a economia dos Estados Unidos evitará uma recessão e o crescimento da economia mundial se reduzirá entre 0,5% e 0,7%. O processo de reconhecimento dessas perdas vai ser prolongado e, portanto, o impacto final na atividade econômica norte-americana e mundial transcorrerá nos próximos 18 meses.

Como vê a política de Ben Bernanke no Fed? Admitiria uma queda do juro de outro 0,5 ponto porcentual na penúltima reunião?
O Fed ainda vai cortar a taxa de juros três vezes, até os 4% ao ano - 0,25 ponto por reunião até o primeiro trimestre de 2008, fechando 2007 em 4,25%. O viés pode ser um pouco abaixo disso.

Quais suas observações sobre os discursos do ex-chairman do Fed, Alan Greenspan, que tem enfatizado os riscos de desaceleração mais forte?
É uma referência importante para as opiniões de mercado. Greenspan tem uma voz ativa, independentemente de estar certo ou errado. Vamos continuar convivendo com o político Greenspan.

Como vê o novo fundo soberano que o Brasil estuda lançar?
Quando falamos em fundo soberano, pensamos na infra-estrutura. De onde sairão os recursos para comprar os ativos? Um fundo saudável deve ser lastreado em regras financeiras. Se esta for a forma de gerir o fundo, vou aplaudir. A questão não é um fundo de administração de reservas, mas como gerar recursos para o fundo. Se o País ficar superavitário em termos nominais, seria uma iniciativa extraordinária e melhoraria a gestão fiscal.

Considera que a economia do Brasil é uma espécie de elefante que voa?
Não chamaria de elefante. Há alguns pontos importantes. A economia recuperou a capacidade de crescimento. A indústria está nos surpreendendo com os ganhos que a estabilidade gera. Pensava que o crescimento ficaria entre 3% e 4% e agora está entre 4% e 5%. Mas preferiria estar voando a 40 mil pés de altura e não a 10 mil pés. As variáveis permitem que a economia tenha um plano de vôo mais ambicioso, para aumentar o ritmo até os 6% ou 7%, mas não vejo esforço nenhum para alçar o vôo a 40 mil pés. Em segundo, comparando com as economias que crescem mais rapidamente, na economia brasileira já houve uma melhora social, então não vamos crescer a 10% com reformas e gestão macroeconômica, como outros emergentes, mas dá para crescer 6% a 7%.

Quais suas expectativas para o mercado acionário brasileiro?
Para a Bolsa, as perspectivas são muito positivas, apesar dos ganhos dos últimos três anos. É minha classe favorita de ativos no Brasil. Ainda haverá surpresas positivas quanto ao crescimento, como os lucros das empresas e valorização maior que a atual. Se o BC conseguir retomar a queda dos juros com o Ministério da Fazenda apertando os cortes de despesas, os fundos de pensão acelerariam a migração para as Bolsas, com garantias adicionais. Em relação ao mercado primário, a tendência é aumentar a captação na medida em que o governo seja capaz de promover o crowding-in (inclusão dos investidores), multiplicando o crescimento. Se o governo continuar os ajustes públicos, conseguiríamos evitar cunhas como os depósitos compulsórios. Haveria uma liberação de recursos hoje seqüestrados do setor privado e explodiria a demanda primária por ações. É uma especulação. O Brasil é uma Ferrari com 500 cavalos e com o freio de mão puxado pela situação fiscal.

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