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Os ciclos de bolsa no Brasil, medidos pelo Ibovespa, em dólares, nunca tiveram duração superior a seis anos. O "Ciclo Lula", iniciado em outubro de 2002 - para o qual prognostiquei que atingiria 60 mil em prazo de quatro a seis anos -, está entrando no sexto ano de alta, com o Ibovespa tendo atingido 65 mil pontos. A pergunta que intriga investidores e analistas é o que ocorrerá a seguir.
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| Thomás Tosta de Sá |
| Sócio da Mercatto Investimentos, ex-presidente da CVM |
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Em artigo anterior sobre esse ciclo, constatava-se: "É o fluxo de recursos para o mercado que determina os movimentos de alta ou de baixa, mas tais fluxos são baseados em fundamentos macroeconômicos, fundamentos microeconômicos e fundamentos explicáveis pela psicologia de massas. De fato, os últimos anos caracterizaram-se por um ambiente macroeconômico internacional e nacional extremamente favorável, acompanhado de uma liquidez excessiva nos mercados mundiais.
As companhias abertas de maior porte e com melhor governança corporativa apresentaram taxas de crescimento de lucros, nos últimos anos, na faixa de 30% ao ano. E o resultado da política econômica dos últimos governos, com a queda da inflação, redução do risco-País, redução da taxa de juros interna, excepcional melhora dos indicadores das contas externas, aumento do volume de crédito, da taxa de investimentos, redução da taxa de desemprego, crescimento da renda, entre outros indicadores, promoveram a inserção de um número significativo de novos consumidores no mercado, criando um clima psicológico de mais otimismo e estabilidade em relação às perspectivas econômicas. Esses fatores justificaram a alta dos últimos cinco anos: o Ibovespa, em dólares, valorizou 1.700%.
Em 2008, o mercado de ações enfrentará novos desafios, como o impacto de curto prazo causado pela crise imobiliária norte-americana, inicialmente encarada como local e que a partir da contaminação do mercado financeiro já é percebida como global. Mas o comportamento do mercado em 2008 não deverá assustar o contingente de novos investidores, principalmente pessoas físicas, que aumentaram de pouco mais de 100 mil, em 2002, para quase 450 mil, em 2007. Antes deve proporcionar excelentes oportunidades de compra, aproveitando-se da instabilidade externa.
A crise imobiliária, que se alastrou para o mercado financeiro, provocará turbulência maior no comportamento dos preços das ações em bolsa. Mas ações de companhias com bons fundamentos econômicos, mesmo que apresentem flutuações negativas, estarão respaldadas pelas perspectivas de resultados de longo prazo. As que estiverem superavaliadas sofrerão ajustes de preços, como já vem ocorrendo em alguns casos.
Além disso, os ajustes decorrentes de crises no mercado financeiro são curtos, quando os fundamentos de longo prazo são bons, como se verá a seguir:
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1. Fundamentos macroeconômicos - A economia mundial, que nos últimos 100 anos foi liderada pelo crescimento das economias desenvolvidas, voltará a ser comandada pelo crescimento dos emergentes. Como constatou trabalho apresentado pelo redator-chefe da revista The Economist em congresso da Emerging Markets Private Equity Association (Empea), em novembro, em Londres (ver quadro), os emergentes foram responsáveis pelo crescimento econômico mundial do ano 1000 ao início deste século. Em 1913, a situação se inverteu, mas em 2005 os emergentes responderam por 55% do PIB global.
Num contexto de impactos negativos que são mais bem absorvidos pelos emergentes do que pelos desenvolvidos, o Brasil poderá recuperar o tempo perdido desde que avance nos ajustes estruturais, cuidando de:
a) encaminhar ao Congresso a proposta de Reforma Tributária, amplamente discutida pelo governo federal com Estados, municípios e setores da sociedade. Ela deverá simplificar o sistema atual, eliminando riscos fiscais para investidores, reduzindo custos do cumprimento de obrigações tributárias, sem aumento da carga e sem alterações bruscas na distribuição dessa carga capazes de reduzir o interesse por investimentos produtivos e prejudicar o processo em curso de ampliação do mercado de trabalho.
b) prosseguir nas discussões sobre um novo modelo previdenciário - iniciadas no Fórum da Previdência, em 2007, sem que se chegasse ao consenso, mas que ampliou o nível de conhecimento do tema, num ambiente de bom relacionamento entre as bancadas do governo, empresários e sindicalistas. O objetivo é enviar ao Congresso, em princípios de 2009, uma proposta de mudança que garanta uma redução, no longo prazo, da relação despesas previdenciárias/PIB e permita que com um sistema misto de repartição e capitalização, um número crescente de trabalhadores participe do capital de empresas com sua poupança previdenciária.
c) prosseguir os investimentos de infra-estrutura, iniciados com as licitações das estradas de rodagem e de construção de hidrelétricas, em 2007, avançando com novas licitações de estradas, hidrelétricas, ferrovias, saneamento básico, habitação, portos e apoio a programas privados de energia alternativa, atraindo novos investimentos diretos estrangeiros. A falta de obras de infra-estrutura inviabilizará as perspectivas que se apresentam para o Brasil nesse cenário de liderança das economias emergentes.
2. Fundamentos microeconômicos - As privatizações ocorridas nos anos 90 e a sua retomada, em 2007, contribuirão para o aumento da produtividade na economia. Também é essa a contribuição dada pelo fantástico crescimento do mercado de capitais. Companhias abertas são forçadas a melhorar os padrões de governança, com resultados positivos sobre os lucros. Com as boas práticas de governança, a empresa, além de mais produtiva e rentável, cumpre melhor sua função social e os deveres e responsabilidades com os trabalhadores e a comunidade. A ampliação das atividades de venture capital e private equity levará novas empresas a se capitalizarem no mercado, além de promover abertura do capital de empresas inovadoras e de base tecnológica responsáveis por mais produtividade e dinamismo econômico.
Nos Estados Unidos, nas décadas de 80 e 90, ocorreu um ciclo de forte crescimento econômico, impulsionado pelo mercado de capitais e a indústria de venture capital e private equity, propiciando a capitalização de mais de 30 mil novas empresas, das quais, 3 mil abriram o capital. A contribuição delas para o aumento da produtividade da economia norte-americana teve reflexos não só no ciclo de alta de 18 anos na Bolsa de Nova York - 1982 a 2000 - mas, num ciclo de crescimento do PIB comparável ao dos anos 60. Por isso, a volatilidade de 2008 não interromperá o ciclo iniciado em 2002.
Para que esse ciclo fosse interrompido, o Ibovespa deveria apresentar queda superior a 50% nos próximos anos, o que significaria cair a menos de 33 mil pontos.
Comportamento anterior - Os ciclos de bolsa anteriores, medidos pelo Ibovespa em dólar, apresentaram o seguinte comportamento: 1968/1971 - primeiro ciclo de alta, com valorização de 800%, seguido de um ciclo de baixa de 12 anos com desvalorização de quase 90%; 1983/1986 - segundo ciclo de alta, com valorização de 600%, seguido de cinco anos de baixa, com desvalorização de mais de 80%; 1991/1997 - terceiro ciclo de alta, com valorização de 3.000%, seguido por cinco anos de baixa, com desvalorização de aproximadamente 70%.
Os fundamentos macro e microeconômicos anteriormente mencionados permitem projetar para o Ibovespa, pela primeira vez em sua história de 40 anos, um ciclo de alta de 10 a 12 anos de duração, sendo possível que se aproxime dos 140 mil pontos entre 2012 e 2014.
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