Tendências
Os 40 anos do Índice Bovespa

De maneira muito apropriada a Bolsa de Valores de São Paulo celebrou, em 29 de janeiro, os 40 anos de existência do Ibovespa. O Índice Bovespa é o mais importante indicador do desempenho médio das cotações do mercado de ações brasileiro, retratando o desempenho das principais ações negociadas na Bolsa de São Paulo. Reflete, assim, a evolução do mercado, pois sua série histórica não sofreu modificações metodológicas desde sua implementação, em 1968.

Afinal de contas, o que é um índice de mercado, mais especificamente, o que é o Ibovespa? Ele assume o resultado do investimento com base na formação de uma carteira teórica de ações sem aplicações adicionais, levando em conta os proventos distribuídos pelas empresas que o compõem.

A configuração do índice procura manter a representatividade das ações mais negociadas em Bolsa e, em termos teóricos, responde por mais de 80% do número de negócios e do volume financeiro verificado no mercado à vista. Hoje, essas ações representam 70% do somatório da capitalização do valor de mercado das companhias negociadas. Para compor o índice, as ações, entre outros requisitos, precisam ter sido negociadas em 80% do total de pregões no período. Havendo perda dessa e de outras características, deixarão de compor o índice. Portanto, para as empresas abertas compor o índice é importante.

Os índices de Bolsa são importantes referenciais do mercado, e também servem como termômetro da situação econômica, política e financeira de um país. Estamos acostumados a ouvir nas análises sobre a economia mundial, referências ao desempenho do comportamento dos índices de Bolsa. Todos reconhecem a importância dos Índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq para os Estados Unidos e dos índices DAX (Alemanha), FT 100 da Inglaterra, o Hang Seng de Hong Kong e o Nikkei do Japão.

São relevantes para medir o comportamento, particularmente da economia, pois é consensual que apesar de sua volatilidade, sua tendência é indicativa de como os investidores e analistas estão olhando o futuro, já que o preço das ações deve refletir essas expectativas.

Como muito bem nos lembrou Nelson Spinelli, vice-presidente do Conselho da Bovespa, na solenidade comemorativa dos 40 anos: "Ao longo da década de 70, o Ibovespa sentiu os efeitos das crises do petróleo e voltou a um patamar pouco expressivo, abaixo dos 5 mil pontos, de onde só sairia com o anúncio do Plano Cruzado, em fevereiro de 1986. De lá para cá, o Ibovespa vem registrando os erros e acertos de diversos planos econômicos do País. Tivemos, nesses 40 anos, sete diferentes moedas. Quem consegue se esquecer do Plano Collor, que, em março de 1990, após divulgado, gerou a maior queda da história do Ibovespa? O índice fechou em -22,26%. Ironia ou não, a maior oscilação de alta aconteceria no ano seguinte, em 4 de fevereiro de 1991, impulsionada pela euforia com a edição do Plano Collor II: 36 %. Desse modo, o Ibovespa foi capaz de fotografar nossos momentos de crise, moratórias, recessão em países vizinhos, ataques terroristas, efeito das eleições, guerras e outros eventos."

Spinelli lembrou ainda: "Como curiosidade, vale lembrar que se alguém tivesse investido no índice em 1968, essa pessoa teria seu capital multiplicado em 36 vezes, que corresponde a uma alta acumulada de 3.540%. Parte dessa expressiva lucratividade se deu no início desta década, graças à crescente redução dos juros, ao fim da CPMF para a aplicação na Bolsa de Valores, à alta das commodities no mercado externo, ao fluxo de capitais internacional e à retomada do crescimento brasileiro."

Apesar dos 40 anos de existência, o Ibovespa não foi o pioneiro dos índices. Antes mesmo de as Bolsas de Valores criarem seus índices (o Rio tinha o IBV), a Deltec S.A. Investimentos, Crédito e Financiamento, em 1946, divulgou em novembro de 1960 o Índice Deltec, que tinha como base uma aplicação numa carteira diversificada de 21 ações feitas em janeiro de 1959. Essas ações eram as mais representativas do mercado naquele momento, quando nossas Bolsas engatinhavam. Para que se tenha uma idéia, das dez ações mais tradicionais do mercado na época, somente duas empresas existem, hoje, em sua forma original: Vale do Rio Doce e Souza Cruz. As demais desapareceram ou foram absorvidas. Com o aparecimento dos índices feitos pelas próprias bolsas, a Deltec, uma das maiores empresas de investimento naquela época, descontinuou a atualização do índice.

Estudo feito também pela Deltec, na mesma ocasião, com o título "Comparativo das ações brasileiras mais transacionadas na Bolsa do Rio e de São Paulo", das 77 analisadas, somente 18 ainda estão operando na forma original ou absorveram outras empresas do mesmo setor. Portanto, 59 simplesmente ficaram no meio do caminho. Muito provavelmente, no futuro, os que por aqui estiverem, ao fazer uma análise comparativa das mudanças do mercado, vão encontrar um quadro parecido. O grande desafio é identificar quais as empresas que irão sobreviver num mundo em constante transição, onde a globalização e a movimentação de capitais são uma realidade inexorável.

 
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