|
| Educação |
| Empresas abertas investem na educação |
| Leonardo Trevisan |
 |
|
 |
| |
| |
Vultosos recursos são destinados ao preparo do pessoal
Para suprir - ou complementar - o que os trabalhadores mal aprenderam na escola, ou seja, executar tarefas práticas que lhes permitam participar de uma atividade econômica, as grandes empresas brasileiras investem cada vez mais na educação do seu pessoal. Ou preparam, desde cedo, os jovens das comunidades onde atuam para que eles possam tanto desenvolver habilidades como ganhar eficiência para conquistar um mundo de concorrência exacerbada em que os processos tecnológicos avançam em velocidade imprevisível há apenas três décadas, antes dos saltos da informática e do aparecimento de instrumentos como a internet. "Queremos oferecer, a jovens e adultos, formação profissional diversificada e de qualidade, contribuindo para o aperfeiçoamento de suas funções e ajudando em sua inserção no mercado de trabalho", afirma Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim, um dos maiores do País e que abriga companhias de capital aberto, como a VCP, de celulose. "Só existem empresas fortes em comunidades fortes", enfatiza Décio da Silva, presidente da companhia aberta Weg, de Santa Catarina, que acaba de fazer uma distribuição secundária de ações em bolsa, conquistando milhares de acionistas.
Não faltam exemplos, como os da Weg e da Votorantim, de organizações que investem pesadamente em educação. Há décadas, instituições financeiras, como o Bradesco - que já formou centenas de milhares de jovens, em todo o País - e o Itaú, aplicam vultosas somas na educação de pessoal. Mas os desafios são cada vez mais difíceis de vencer, com a globalização e o aumento da inserção brasileira na economia mundial, via exportações de US$ 95 bilhões e corrente de comércio exterior de US$ 150 bilhões, previstas para 2004 e inéditas na história econômica brasileira. Empresas em que o pessoal não se qualifica, que não domina o português e o inglês, a matemática financeira, as operações cambiais, ou que ignora as preocupações crescentes com a governança corporativa e o meio ambiente - sem falar da urgência de se organizar e pressionar seus representantes no Legislativo pela melhora do ambiente institucional necessário para atrair investimentos -, tendem a ficar à margem da globalização econômica.
"Empresas que investem em educação corporativa estão alinhadas ao que chamo de objetivos emergentes, aqueles que defendem o interesse do acionista agindo junto a grupos emergentes, um conceito que abrange desde os funcionários até as comunidades em que as empresas atuam, tornando mais fácil a convivência com os fornecedores e, é claro, com os consumidores que também fazem parte desses grupos", ressalta o professor e pesquisador José Paschoal Rossetti, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, que acaba de concluir um estudo aprofundado sobre a governança corporativa no País (veja seção Livros).
Preocupações como a de Rossetti já dominam segmentos acadêmicos de ponta, em que centros como o Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) se empenham em abrir nichos de especialização e disputam um mercado que atrai empresas e demanda profissionais pós-graduados para atuar no mercado global.
Mas, para qualificar a mão-de-obra brasileira, investimentos cada vez maiores dependerão do setor privado. Um dos mais conceituados educadores brasileiros, Cláudio de Moura Castro estima que o País investe cerca de 9,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação. Mas, desse total, apenas 5,1% do PIB representa investimento direto da União, dos Estados e dos municípios, ou seja, tem como origem recursos arrecadados dos contribuintes sob a forma de tributos e volta para a sociedade sob a forma de serviços de ensino. A outra metade destinada à educação (4,7% do PIB) é despendida pelas pessoas físicas e pelas empresas para capacitar os recursos humanos que tornarão o País mais competitivo - ou seja, formar dezenas de milhões de jovens, em sua grande maioria, com idade entre 7 e 25 anos.
Alguns números demonstram, indiretamente, por que o ensino privado cresce tanto, apesar das deficiências reveladas pelo Provão em escolas particulares (e públicas, é claro). As empresas empregam os recursos destinados à educação com mais eficiência. Isso se comprova, indiretamente, porque apenas 59% das crianças que entram na primeira série do ensino fundamental público chegam ao final do ciclo, segundo dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC), de 2003, enquanto a evasão escolar nas escolas sustentadas pelas empresas é praticamente zero. Há, tudo faz crer, uma crise de qualidade do ensino público, em que as práticas corporativas se expandem, em detrimento de alunos e de educadores - estes, atraídos por escolas particulares administradas por profissionais. Intelectuais conhecidos dentro e fora do Brasil, como o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore e o filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, deixaram a universidade pública para dar aulas, respectivamente, na FGV e no Ibmec.
 |
| Antônio Ermírio de Moraes |
| Formação profissional diversificada e de qualidade |
|
Liderança das empresas
Grandes empresas brasileiras reagem às deficiências educacionais ampliando os orçamentos das áreas de recursos humanos, ou seja, para a formação e capacitação da mão-de-obra. É o caso da multinacional Siemens, que ampliou em 15% os recursos destinados à educação, dos quais R$ 4 milhões para atividades de treinamento, prevendo, para 2005, a construção de um centro de capacitação de técnicos em eletrônica e computação, em Manaus. A Vale do Rio Doce, companhia aberta brasileira com porte multinacional e centenas de milhares de investidores (como os trabalhadores com conta no FGTS), destinou, em 2004, R$ 2 milhões para treinamento interno e prevê aumento de 33%, em 2005, nos investimentos para formação de mão-de-obra.
Números ainda maiores são vistos em outras organizações. A Fundação Bradesco, criada em 1956 para educar e dar formação profissional a crianças, jovens e adultos, tem 40 unidades em todos os Estados brasileiros, em geral, nas regiões de maior carência socioeconômica, atendendo 107 mil alunos, neste ano, nos quais está investindo R$ 148 milhões. Apenas no treinamento dos funcionários, os investimentos do Bradesco vão perfazer R$ 21,4 milhões, em 2004, em grande parte, canalizados pelo programa TreiNet, que proporciona 27 cursos entre programas técnicos e comportamentais. O Banco Itaú - que dá prioridade ao elevado porcentual de empregados com formação universitária - está investindo R$ 25 milhões na qualificação dos funcionários, neste ano, dos quais R$ 7 milhões para a formação acadêmica, inclusive cursos de pós-graduação no exterior, segundo o diretor Fernando Perez. O patrimônio da Fundação Itaú Social foi elevado em R$ 50 milhões, em 2003, atingindo R$ 302 milhões - e, nos últimos dez anos, R$ 100 milhões foram destinados a 650 projetos sociais, dos quais R$ 23 milhões previstos para 2004.
 |
| José Paschoal Rossetti |
| Melhor defesa do interesse dos acionistas |
|
A Petrobras, companhia aberta e maior empresa brasileira, que nas últimas décadas vem formando quadros e tecnologia com liderança mundial na exploração de petróleo em águas profundas, previu no orçamento de 2004, para a Universidade Corporativa da Petrobras, recursos da ordem de R$ 175 milhões, valor que engloba compra de equipamentos, softwares e apostilas e custo com pessoal que educa, segundo o gerente de Recursos Humanos Heitor Chagas de Oliveira. Em 2003, a Universidade Corporativa da Petrobras promoveu 1,6 milhão de horas/homem de treinamento. Na estatal há 1.700 empregados com pós-graduação, dos quais 215 doutores, 922 mestres e 563 com alguma especialização, conforme dados de julho de 2004. Na Petrobras, a formação de pessoal precedeu a criação da empresa. Quando a União decidiu, em 1948, produzir óleo no País, foi feito um convênio com a Universidade Federal da Bahia para formar engenheiros de petróleo e constituir o futuro núcleo técnico da empresa. O objetivo é aprender o que há de mais avançado na tecnologia mundial do petróleo. A cada decisão de investimento, de uma nova plataforma ou refinaria, são definidos os engenheiros da especialidade, os geofísicos necessários, em paralelo à execução física do empreendimento. O "estado da arte" de formação de mão-de-obra prepara o pessoal para as novas tecnologias. A Petrobras faz ainda um trabalho educacional fora dos muros da empresa. O projeto Jovem Aprendiz profissionaliza jovens de 14 a 18 anos para atuar na empresa. O objetivo é criar vagas que atendam a 15% do número de empregados até 2006. Outras iniciativas da estatal beneficiam, segundo a Coordenadoria de Projetos Sociais da Petrobrás, mais de 4 milhões de pessoas.
No mercado de capitais, milhares de cursos, em geral de curta duração ou especialização, foram promovidos por entidades de classe que representam corretoras (Ancor), distribuidoras de valores (Adeval), bancos de investimento (Anbid), profissionais de investimento do mercado de capitais (Apimec), entre outras, qualificando operadores, agentes de investimento e complementando cadeiras universitárias da FGV ou do Ibmec.
Emprego e retomada
O interesse pela educação aumenta com a retomada da economia, como ocorre agora, pois cresce a procura por empregados com maior qualificação. Isso fica evidente no Cadastro Geral de Demitidos e Admitidos (Caged) do Ministério do Trabalho. O Caged mostra que, em 2003, foram criadas 128 mil vagas na indústria, 2,7% mais do que em 2002 e, entre janeiro e julho de 2004, foram abertas 382.400 vagas. Mas o crescimento não é linear. Aumenta a procura em setores que exigem elevada qualificação, como as requeridas pelo comércio exterior. Em 12 meses, até julho, constatou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o emprego industrial aumentou 12,7% no setor de refino e coque; 4,5% em metalurgia; 7,7% em máquinas e equipamentos; e 2,6% em materiais de transporte. A exigência de qualificação da mão-de-obra para atender a essa expansão é "mais uma tarefa" das empresas, notou Antônio Ermírio de Moraes após abrir, em 2004, uma escola profissional para 3 mil alunos na cidade de Alumínio, no interior paulista. Política idêntica foi seguida pela Vale, pela Siemens e pelo Sindicato Nacional da Indústria de Autopeças (Sindipeças). Os fabricantes de autopeças aumentaram entre 30% e 40% os investimentos em mão-de-obra, neste ano.
Educação e lucro
O aumento dos gastos das companhias abertas em ações educacionais tem motivações evidentes. O conjunto das empresas com ações negociadas em Bolsa tem um valor da ordem de R$ 790 bilhões, cerca da metade do PIB brasileiro. Apenas a CBLC creditou R$ 9 bilhões aos acionistas, em 2003. Ou seja, as empresas buscam os melhores caminhos tanto para responder às demandas das comunidades onde atuam como para agregar valor aos seus negócios e responder às exigências dos acionistas. Empregados preparados têm papel vital nessa política: além de se habilitar às promoções por mérito, desenvolvem produtos de melhor qualidade, respondendo às exigências de consumidores locais e internacionais. Geram, afinal, mais receita para empresas cujos clientes são satisfeitos. A ação educacional é a "mais eficiente via de mão dupla" para alcançar os objetivos emergentes, nota Rossetti, da Fundação Dom Cabral e autor de dezenas de livros didáticos, destinados aos alunos das universidades.
O desafio de preparar profissionais se generaliza, não se limitando a empresas abertas ou multinacionais. O Grupo Estado, que edita o jornal O Estado de S.Paulo e o Jornal da Tarde, mantém, desde 1990, um centro de complementação de formação de jornalistas, com o apoio de quatro grupos empresariais - Siemens, Philip Morris, Odebrecht e Pfizer. Já formou 450 jornalistas e "80% deles estão nas melhores redações do País", assinala o coordenador Francisco Ornellas. Há o risco de "perder" o investimento feito nos "treinados" para a concorrência? "Depende da nossa competência de reter os melhores", responde o executivo.
Algumas instituições financeiras chegam a criar fundos especializados em investir em empresas bem-educadas, no caso, dispostas a valorizar as condições socioambientais. O valor em Bolsa das ações dessas empresas que dão ênfase ao meio ambiente tem evoluído, em média, mais rapidamente do que as ações em geral (do índice Bovespa), como mostra a experiência do Ethical Fund, do ABN Amro Real.
O recado do mercado
Centros tradicionais de formação de recursos humanos, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), financiado com recursos tributários, já entenderam o "recado" do mercado e oferecem cursos técnicos para atender às necessidades específicas das empresas ou determinados setores econômicos, em sintonia com os ciclos de demanda econômica. O objetivo é ampliar a competitividade da economia e responder às exigências estratégicas das empresas. Para Adilson Sigarini, conselheiro do Sindipeças, a economia retoma um ciclo virtuoso que gera empregos e oportunidade de promoção "para quem já trabalha". Por ora, não há falta de mão-de-obra qualificada porque as empresas estão absorvendo profissionais disponíveis. "Na primeira fase do atual ciclo de expansão, os melhores e mais experientes já foram contratados", diz Sigarini.
Que os investimentos em educação são insuficientes, porque os requisitos demandados pelas empresas estão em rápida mudança, não resta dúvida. Mais do que atender, rapidamente, à demanda das empresas no ciclo atual de expansão, falta avaliar o que o País terá de fazer, em termos educacionais, para atender às necessidades de competitividade e conquista de mercado pelas empresas. Mal começou o debate sobre o modelo de capacitação educacional, nem ele está pronto para deslanchar. Por mais que se bata na tecla de que são indissociáveis os vínculos entre educação e desenvolvimento econômico, falta aprimorar e tornar eficientes as verbas públicas para o ensino. Centenas de empresas já atuam em parceria com municípios para melhorar a qualidade da prestação dos serviços de educação ou completam a escolaridade formal de seus trabalhadores, em escolas próprias, mas, é claro, há muito trabalho pela frente. |
|
| |
Educação e mercado de capitais
Os acionistas estão mais atentos ao interesse das empresas pela educação, interna e externamente, incluindo todos: funcionários, diretores, presidente, comunidade, vizinhos, fornecedores e, principalmente, consumidores. Irineu Gianesi, diretor de Projetos Executivos do Ibmec, acha que é mais do que hora de criar a cadeira de educação corporativa, prevendo a certificação dos que levam a sério o investimento em educação.
Conhecimento deve gerar valor. Mas, diz Gianesi, não adianta ter conhecimento se você não pode recuperá-lo quando precisa. Ele explica: "O que gera valor é quando o conhecimento circula, quando ocorre troca de conhecimento. Essa dinâmica é que é o verdadeiro ativo intangível, difícil de avaliar porque o que é interessante de ser avaliado em uma empresa é em que grau essa dinâmica ocorre. A forma pela qual a empresa faz a captação de conhecimento é um bom indicador disso". A afirmação: "olha, estamos treinando" não basta para Gianesi. O treinamento sem vínculo com os objetivos da empresa, sem preocupação de avaliar resultados, sem preocupação de fazer parte de um programa de educação corporativa", para Gianesi, "é só gasto de dinheiro". Investir dinheiro em educação é "muito mais do que o deslocamento de recurso, é o compromisso com uma série de práticas complementares de educação corporativa que devem ser seguidas" se o que se pretende "é mesmo agregar valor com investimento em educação". Abandonou-se o conceito antigo em que se treinava "focado no cargo", para que o funcionário "executasse uma determinada tarefa".
Hoje, já se caminha para a certificação das empresas que fazem a "gestão competente do conhecimento", à semelhança dos certificados de responsabilidade ambiental. Quem daria o certificado? "A boa gestão de conhecimento poderia ser atestada por uma auditoria educacional, independente, da mesma forma que se emitem certificações de qualidade", responde Gianesi, admitindo que a certificação poderá, no futuro, ser avaliada como um ativo em Bolsa. |
| |
 |
| Cláudio de Moura Castro |
| Estado investe 5,1% do PIB em educação |
|
Quando aumenta a oferta de emprego, aumenta também a procura por cursos do Senai. No Estado de São Paulo, onde são formados 400 mil profissionais por ano, a procura por cursos profissionalizantes em áreas com expansão de emprego aumentou 22% entre os meses de julho de 2003 e de 2004. No mesmo período, porcentuais semelhantes foram constatados em outros Estados. No Senai do Rio Grande do Sul, a procura por cursos de metalurgia, por exemplo, cresceu 20,5%. Os cursos mais procurados no Senai são os da área de metal mecânica, em especial, de mecatrônica, que capacita mão-de-obra para processos mecânicos automatizados por controles eletrônicos. O número de inscrições atinge, em média, oito candidatos por vaga, chegando a 15, em algumas escolas do Senai - a procura recordista é para os cursos de informática, que desde 2002 tem mais de 25 candidatos por vaga. Mas também são privilegiados cursos nas áreas moveleira ou coureiro-calçadista, no Rio Grande do Sul, ou de tratamento de resíduos e de informática industrial em regiões do interior paulista. O segmento de autopeças foi abastecido por pessoal formado nas áreas de mecânica, elétrica e informática industrial em São Paulo e Minas Gerais, desde o último trimestre de 2003. Mas essas formas de capacitação são vistas como emergenciais, com programas de 120 a 180 horas de aula. Constituem processos de formação mínima para o exercício de determinadas funções. Cursos com 120 horas de duração e três meses de treinamento apenas adestram para o uso de novas gerações de máquinas, atendendo a ondas tecnológicas - ou seja, o treinamento tem obsolescência programada.
O ensino público
A qualidade do ensino público desperta o interesse crescente das empresas, mas cada uma reage à sua maneira. Em meados dos anos 90, o Banco Itaú começou a implantar o conceito de empresa socialmente responsável, com ações de cunho social e cultural. Em 2000, foi criada a Fundação Itaú Social, para firmar parcerias com entidades públicas e privadas, nota a presidente da entidade, Ana Beatriz Patrício. "O foco prioritário são ações educacionais voltadas ao ensino público", explica. Parte dos projetos tem como parceiro o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), secretarias municipais e de todos os Estados e organizações não-governamentais também atuam com a Fundação. O Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) apóia a Fundação Itaú Social na coordenação técnica dos projetos de educação.
Já Fernando Perez, diretor-executivo de Recursos Humanos do Itaú, enfatiza a política de educação corporativa. O banco "tem tradição em desenvolvimento de seus profissionais". Promove cursos de especialização dentro das empresas e MBA e possui programas de pós-graduação no exterior. Cerca de 1.500 pessoas são "beneficiadas com bolsa de estudo, integral ou parcial, para cursos de graduação e pós-graduação".
Não faltam exemplos como o do gerente Luiz Antonio da Silva de Jesus, há 22 anos no Itaú, que acaba de concluir o curso de Análise Avançada de Demonstrações Financeiras, do Ibmec. "O curso foi agendado pelo banco para os gerentes", afirma Luiz Antonio. "Eu, particularmente, fui inscrito pelo RH do banco com o objetivo de desenvolver minha aptidão para o crédito." Ele já era pós-graduado em finanças pela Faap, complementado pelo Programa de Educação Continuada na PUC/SP em Administração Financeira. O curso no Ibmec teve grande "utilidade prática", assinala.
"Toda formação diferenciada, seja por intermédio de pós-graduação, seja por MBA, proporciona uma base conceitual fundamental para que os funcionários tragam os melhores resultados", notou Perez. "Esses esforços são demonstrados nos próprios resultados que a organização tem atingido a cada semestre. É uma mentalidade de superação, de inovação e muita criatividade. Investimos anualmente aproximadamente R$ 40 milhões em treinamento e desenvolvimento." A empresa acompanha os funcionários que fazem os cursos: "Todos os programas de formação têm acompanhamento por parte de nossa equipe de educação corporativa e pelos próprios gestores, que acompanham as notas."
Os dados de fevereiro do IBGE mostram o quanto os serviços de educação deixam a desejar e atrasam a inserção do Brasil na economia global. Da população com 15 a 19 anos - a idade "correta" para cursar o ensino médio - menos de 30% está na escola, segundo o IBGE. O elo entre educação e desenvolvimento econômico transcende os cursos de treinamento: esse elo é construído, essencialmente pela escolaridade formal, aquela que "ensina a pensar". A eficiência dos investimentos públicos em educação é limitada. Houve uma explosão de matrículas no ensino médio - de 3,8 milhões de alunos, em 1994, para 10,2 milhões, em 2003 - com a universalização da oferta de escolaridade fundamental. O Brasil atingiu 97,8% de cobertura educacional das crianças entre 7 e 14 anos, em 2002. Em tese, a expansão tem como origem o Fundo de Desenvolvimento e de Valorização do Magistério do Ensino Fundamental (Fundef), cujas receitas vêm de uma cesta de impostos federais e estaduais redistribuídos de municípios e Estados mais ricos para os mais pobres. O dinheiro é carimbado, só paga professores e material didático. Volta e meia, reportagens questionam aplicação das verbas e qualidade de resultados.
O Estado gasta muito e mal com educação. Um estudo do Banco Mundial, outro da Unesco e mais recentemente um levantamento do Ministério da Fazenda (de 2003) chegaram a conclusões semelhantes: gastamos "errado" os investimentos públicos que fazemos em educação porque a maioria dos recursos é usada com quem menos precisa deles. Nada menos de 63% dos recursos do MEC, em 2003, foram para o ensino superior - universidades públicas onde estudam os filhos das famílias de maior renda.
O resultado é o aumento da concentração de conhecimento - e de renda. O Caged mostra que empregos que exigem apenas escolaridade fundamental diminuíram 17%, entre 1998 e 2002, enquanto os que demandam escolaridade média cresceram 28% no mesmo período. Sem ter, ao menos, o diploma do antigo colegial é impossível disputar um emprego de qualidade na economia formal. A "guerra" pela educação estaria perdida, não fosse o fato de que as empresas "abriram os olhos" para a importância do processo educacional. Esse, sem dúvida, é o dado mais perverso socialmente e o mais danoso para a capacidade de competição da economia brasileira. |
| |
Um exemplo em Santa Catarina
 |
| Décio da Silva |
| Ajuda às comunidades |
|
O exemplo da demanda de empregados pela Weg é típico de setores econômicos que entraram em ciclo virtuoso. Fabricando motores elétricos, com sede em Jaraguá do Sul (SC) e cinco fábricas no País, a Weg investiu em 2004, em educação, 3% da folha de pagamento, ou R$ 12 milhões. O investimento vai para um centro de formação - para jovens entre 15 e 18 anos - e de treinamento. E capacitou 20.672 colaboradores (mais do que toda sua força de trabalho, pois o treinamento não se limita ao pessoal da empresa) no ano passado, além do apoio fornecido às escolas públicas dos municípios no entorno da empresa, que são também o ponto de partida para um trabalho comunitário. É um modelo de empresa brasileira que investe na educação da comunidade onde atua e no pessoal empregado. O presidente da Weg, Décio da Silva, cita o centro de treinamento da empresa como uma das maiores escolas profissionalizantes do País. Os alunos passam 80% do tempo em nove laboratórios, em aulas práticas. Os cursos acompanham a inovação tecnológica, desde os tradicionais sobre elétrica e eletrônica, mecatrônica e informática, passando por plástico e química. A empresa avalia competências e tem como alvo "estimular o crescimento". A resposta é boa: dos 13 mil funcionários, 14,8% cursam o ensino fundamental; 61,1%, o médio; 19,6%, o ensino superior; e 4,5%, cursos de pós-graduação. Há padrões variados de bolsas de estudos. Em parceria com a Secretaria de Educação de Guaramirim, e com envolvimento direto de 500 crianças, foi realizado o Projeto Guará de educação ambiental, que envolveu treinamento dos professores das escolas públicas na Weg Química. A menina dos olhos de Décio da Silva é o Projeto Mais Valiosas Escolas: a Weg selecionou 20 universidades e 50 escolas técnicas no País todo "com as quais mantemos parcerias para a capacitação gratuita de professores e alunos". Todos os programas de estágios e de trainees da empresa estão acoplados nesse projeto que significa entrega de material didático para todos os alunos dessas "parcerias" e pleno acesso dos professores às novas tecnologias e pesquisas "nos nossos laboratórios". |
| |
| |
voltar |
|
| |
|
|
| |
|
 |