Faltando poucos dias para que se encerre 2004, já se pode falar em mais um ano favorável para o mercado acionário, sem alta generalizada de preços, mas com uma tendência positiva de consolidação dos volumes negociados e, sobretudo, um fato auspicioso: o ingresso de oito empresas na Bolsa e a ampliação das ofertas de ações, com 11 emissões novas. Nos últimos dias, anunciou-se a abertura do capital da Diagnósticos da América (Dasa), da Porto Seguro e da Renar Maçãs - os três casos no Novo Mercado, o topo do segmento especial de governança corporativa da Bovespa, onde só se aceitam companhias com 100% de ações ordinárias, ou seja, com direito a voto. Duas outras companhias - a América Latina Logística (ALL), já listada, e a Gol - não desembarcaram diretamente no Novo Mercado porque estão submetidas a regras específicas que as impedem de emitir apenas ações com poder votante.
A presença de novas empresas em Bolsa ocorre após um jejum de vários anos, em que predominaram os fechamentos de capital. Os empresários retomam o interesse em conquistar novos sócios, praticando a desejada disseminação da propriedade acionária - condição básica para o desenvolvimento sustentado do mercado de capitais. Um número crescente de controladores acredita que o preço de negociação das ações em Bolsa é justo, ou seja, caiu por terra a opinião antes dominante de que colocar ações é diluir a participação acionária sem justa compensação. E, em alguns casos, os trabalhadores se tornam acionistas das empresas em que trabalham, um aspecto simbólico que evidencia o reforço dos laços entre capital e trabalho. Ao mesmo tempo, cresce o processo de profissionalização das empresas. Os controladores tendem a centrar a atenção na estratégia, afastando-se das funções executivas e do dia-a-dia.
A Bolsa assume, assim, seu papel como instrumento da modernização do capitalismo brasileiro, em que despontam valores como a governança corporativa e a popularização, com a inserção crescente dos trabalhadores como sócios do progresso, via participação acionária. A capitalização por meio de emissões de ações evita a dependência excessiva dos juros e abre caminho para que mais empresas ganhem força para disputar o mercado internacional, como já fazem as primeiras multinacionais brasileiras que são também companhias abertas, caso de Petrobras, Vale, Embraer, Gerdau e grandes instituições bancárias. |