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| Em Foco |
| As indústrias que chegam ao gargalo |
| Theo Carnier |
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A plena carga, o desafio é atender à demanda
A indústria brasileira convive com indicadores positivos como há muito não se via - e surge, nas companhias listadas em Bolsa, o impacto da superutilização da capacidade nas cotações. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em outubro, mostraram que a produção cresceu sem parar em seis meses (de março a agosto), o que não acontecia desde o período julho-dezembro de 1994, no auge do Plano Real. Em 12 meses, a expansão foi de 6,5%. De janeiro a agosto, a alta foi puxada por bens de capital, como máquinas e equipamentos, com 26,2% de expansão, e bens duráveis, que incluem veículos e eletrodomésticos, com 26%. O aumento da produção teve como uma de suas conseqüências a expansão da capacidade instalada, que chegou a 84,1% na indústria de transformação. Dos 26 segmentos industriais acompanhados pelo IBGE, 8 estão no nível máximo de produção nos últimos cinco anos e 8 têm uma pequena folga de, no máximo, 5%.
São números para se comemorar, que, no entanto, levam a uma preocupação, expressa pelo diretor de Estudos Especiais do Banco Central, Eduardo Loyo. Segundo ele, há apreensão no Banco Central "com o rápido preenchimento da capacidade ociosa" que, pelos cálculos de Loyo, "está acima da previsão". O Relatório de Inflação do BC divulgado em outubro dedicou uma seção ao assunto, mostrando a principal fonte de apreensão da autoridade monetária: como o nível de investimentos não acompanha a utilização da capacidade, teme-se que a produção cresça em ritmo inferior ao da demanda, o que poderia, em tese, aumentar as pressões inflacionárias.
Fatias diferentes
Estudiosos e representantes do setor reconhecem que parte da indústria opera com elevado nível de ocupação da capacidade, acima do registrado no ciclo de crescimento 2000/2001. Mas acreditam que ainda é cedo para maior preocupação com o ritmo de crescimento, inclusive nos segmentos de siderurgia, papel e celulose, têxtil e química e petroquímica (veja quadros).
"Aumento da capacidade, hoje, significa mais investimento amanhã", assegura Julio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Ele lembra que produzir mais é positivo para o setor e para a economia do País e que o aquecimento atual ainda está restrito a alguns segmentos. "Não se pode dizer que todo o setor está operando em nível elevado de ocupação da capacidade. Por enquanto, essa situação acontece em geral na indústria de base, principalmente em aço, celulose e papel e têxtil, que estão na faixa de 90% da capacidade. Nos outros, ainda há muito espaço até que a capacidade produtiva chegue a um patamar preocupante." Um dos exemplos é a produção de veículos. Pelos dados da Anfavea (associação das montadoras), o País tem capacidade para fabricar 3,1 milhões de unidades e encerrará o ano com 2,3 milhões de veículos produzidos.
Na mesma linha, Edgard Pereira, professor do Instituto de Economia da Unicamp especializado em Organização Industrial, garante que o nível de capacidade está elevado em setores da indústria, mas não é uma tendência geral. "A indústria se divide em segmentos, que têm diversos níveis de capacidade e, além disso, diferentes maneiras de se expandir e atender à necessidade de produzir mais", enfatiza. "A grande maioria dos setores consegue ser flexível e se adaptar às necessidades de aumento da produção sem necessidade de grandes investimentos. Por isso, excesso de capacidade preocupa apenas segmentos como siderurgia, petroquímica e metalurgia".
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| Osmar Zogbi |
| Olhando os mercados interno e externo |
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Há outras ressalvas à preocupação com o nível da capacidade instalada. Renato Fonseca, técnico da Confederação Nacional da Indústria (CNI), lembra que, "historicamente, a utilização da capacidade cresce durante o ano até atingir o pico em outubro". Mesmo assim, o índice de ocupação vem crescendo de maneira constante: "Desde o final do ano passado, a utilização aumentou mais de 3 pontos porcentuais (até o segundo trimestre), um crescimento sem sazonalidade de 1 ponto porcentual por trimestre".
O peso das exportações - A expansão da capacidade produtiva tem sido fortemente "puxada" pelas vendas externas. A Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação, da Fundação Getúlio Vargas, nota que o elevado nível de capacidade, "menos do que refletir uma perspectiva imediata de esgotamento, espelha o excelente momento do setor exportador, associado ao reaquecimento dos setores voltados ao mercado interno." |
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| Investindo US$ 7,4 bilhões
O setor siderúrgico opera com elevado nível de capacidade, pois tem como característica o capital intensivo e a ociosidade teria custo alto. Mesmo assim, o atual índice de ocupação é considerado elevado. De acordo com levantamento da CNI, é um dos segmentos com menor nível de ociosidade (próximo a 1%).
Segundo o IBS, o setor concluiu, em 2003, um programa de investimentos de US$ 13 bilhões, que levou a capacidade instalada a 34 milhões de toneladas por ano de aço bruto - um recorde. Mas, diz a entidade, "o aumento da capacidade não foi expressivo, porque não se buscava meta quantitativa, mas a modernização e atualização das usinas".
Com esse nível de produção, supera-se "com grande folga" a demanda: o consumo interno ficou em torno de 16 milhões de toneladas de aços acabados. A perspectiva é animadora, de acordo com o IBS: a demanda interna, mantido o atual ritmo de crescimento da economia brasileira, deve crescer 1 milhão de toneladas/ano.
Mas consumidores e produtores vivem às turras, pois, em alguns momentos, é preciso escolher entre o mercado interno e o externo. No mundo, havia excesso de oferta até a entrada da China. Nos últimos dois anos, houve mais demanda e consumo de aço. A produção mundial deverá chegar a 1 bilhão de toneladas, calcula o IBS. Os chineses são responsáveis por 250 milhões de toneladas. Como também cresce o consumo dos Estados Unidos, União Européia e Japão, retomaram-se os projetos de expansão e "o Brasil deverá ser beneficiário dessa tendência, na medida em que está atraindo a atenção de vários grupos". |
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Ocupação entre 82% e 100%
Com elevado nível de produção, os diversos segmentos do setor químico e petroquímico têm diferentes porcentuais de uso da capacidade. Para a Abiquim, associação dos fabricantes, não é possível calcular o nível de capacidade de unidades multipropósito, como resinas termofixas. Em agosto, a entidade calcula que a capacidade chegou a 94% entre os químicos industriais, 4 pontos acima do mês anterior e o melhor mês desde 2000. Há segmentos com 100% de ocupação, como intermediários para fertilizantes e elastômeros. Nos produtos intermediários para detergentes a ocupação foi de 98% e, entre os petroquímicos básicos, o índice foi de 97%.
Mas, reconhece a Abiquim, há segmentos em que o nível é bem menor, caso de cloro e álcalis, com 82%, 6 pontos abaixo do mês anterior. De janeiro a agosto, o nível médio de uso da capacidade instalada na química e petroquímica foi de 85%, 5 pontos mais do que no mesmo período de 2003. Se persistir a recuperação do mercado interno, é possível aumentar a produção sem comprometer a capacidade instalada, "mas, sem dúvida, novos investimentos serão necessários para não se elevarem ainda mais as importações". |
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Setores com alto nível de ocupação da capacidade preferem dar ênfase à importância das exportações. Para Osmar Zogbi, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), o segmento tem planejado seu crescimento tendo como uma de suas principais bases as vendas externas: "Adotamos essa estratégia desde os anos 80. Formamos um 'colchão' entre mercado interno e externo para definir o nível de capacidade."
O Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) também reconhece o peso das exportações na ocupação da capacidade instalada. Até 2008, segundo o IBS, estão previstos investimentos de US$ 7,4 bilhões para elevar a capacidade dos atuais 34 milhões para 44 milhões de toneladas anuais. Esses projetos "têm a participação de grupos internacionais que procuram produzir semi-acabados para abastecer usinas no exterior".
No setor têxtil, as exportações cresceram de US$ 992,4 milhões de janeiro a agosto de 2003 para US$ 1,25 bilhão no mesmo período deste ano. Além disso, "o volume em toneladas exportado é significativo para o desempenho das indústrias e tem sido um dos responsáveis pela alta ocupação da capacidade", diz Aref Farkouh, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).
Para o setor químico e petroquímico, o que preocupa é a possível necessidade de importar, pois os investimentos levam de quatro a cinco anos para mostrar resultados, lembra Fátima Giovana, economista da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Em alguns segmentos, como o de químicos industriais, a capacidade já está em 94%. "Teme-se que, mantido o atual nível, as empresas tenham que aumentar a compra de produtos no exterior para atender à demanda", afirma Fátima. |
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Aposta na agilidade
Apesar da ociosidade pequena, segundo a CNI, a indústria têxtil não prevê dificuldade para atender à demanda. "Estamos operando com elevada capacidade em vários segmentos", reconhece Aref Farkouh, diretor da Abit, associação que representa as indústrias do setor. "E temos condições de aumentar a produção com rapidez na maioria dessas fatias da indústria".
A demanda por têxteis decorreu do inverno prolongado, aquecimento da economia e desempenho das exportações. Alguns segmentos têm características próprias. "No setor têxtil, quanto mais perto se está da confecção, mais fácil elevar a produção, porque os investimentos são relativamente baixos para agregar uma máquina ao processo, por exemplo". Já na fiação, os investimentos são maiores e o nível de atividade supera 90%. "Se a demanda se mantiver aquecida, essa área pode ter problemas", afirma. "Na fiação, é preciso fazer investimentos em máquinas importadas, por exemplo, que custam de US$ 300 milhões a US$ 1 bilhão, para conseguir um aumento significativo da produção."
Como um todo, a situação está longe de ser crítica. "Podemos dizer que nosso gargalo é 'elástico'. O setor tem maquinário suficiente para atender à demanda maior e não vai deixar de entregar a produção", diz Farkouh. |
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O gargalo dos investimentos
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| Julio Gomes de Almeida |
| Investimento virá amanhã |
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O mercado externo é, de fato, um dos principais determinantes do nível de capacidade da indústria. Mas para manter as altas porcentagens de uso das máquinas será preciso ampliar os investimentos. Gomes de Almeida afirma que, sem os investimentos, a capacidade vai oscilar com o ritmo da atividade: "Pode-se usar paliativos, aumentando um pouco as importações ou incentivando as exportações, mas só com investimentos será possível equacionar o problema." Os investimentos ficam represados num quadro de juros altos: "O empresário fica com o pé atrás com o custo do dinheiro no nível atual. É preciso ter alternativas, como o mercado de capitais, para ajudar na retomada dos investimentos."
Pereira trata do papel fundamental dos investimentos. Seria prejudicial para o País, argumenta, ajustar o nível de atividade industrial apenas com o balanço de pagamentos: "A tendência até agora tem sido deixar de lado uma parte das exportações para suprir a demanda interna. Quando essa procura se retrai, opta-se pelas vendas externas. É uma política de 'stop and go' que precisa mudar. E a mudança só virá quando tivermos investimentos no nível que o País precisa."
O ritmo dos investimentos ainda é lento. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, cresceram 30% de janeiro a julho, na comparação com os sete primeiros meses de 2003. São níveis insuficientes: a formação bruta de capital fixo (FBCF) foi de 18,3% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2003 e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) prevê 19,5%, neste ano. O Ipea estima que o porcentual terá que subir para 22% a 24% do PIB, para um crescimento sustentado de 3,5% a 4% ao ano. |
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Alinhamento com a demanda
Acostumado a operar com alto nível de capacidade, o setor de papel e celulose tem ociosidade estimada em apenas 1%, neste ano. "Estamos operando a plena capacidade, como planejamos", afirma Osmar Zogbi, presidente da Bracelpa, a associação das indústrias do setor. O setor investe, há três anos, entre US$ 1 bilhão e US$ 1,2 bilhão por ano, para melhorar e aumentar sua produção e pretende continuar a crescer "trabalhando perto do limite de capacidade". Há uma atenção especial com o mercado externo: "Metade da produção de celulose é exportada e de 20% a 25% do que produzimos de papel destina-se ao exterior". A política do setor é equilibrar mercado interno e externo, "para que não falte produto". Além disso, nas vendas externas, diz Zogbi, é possível optar por um fornecimento equilibrado "entre os grandes importadores, clientes tradicionais que permitem uma programação de entregas, e as vendas 'spot', para entrega imediata".
Essa estratégia permitirá fechar 2004 com produção de 9,4 milhões de toneladas de celulose e 8 milhões de toneladas de papel. O planejamento é possível porque a maioria dos fabricantes opera de maneira integrada, utilizando celulose para produzir papel.
O objetivo é investir US$ 14 bilhões até 2012 para atender ao aumento da demanda: "Se o Brasil crescer de 4% a 5% ao ano no período, o consumo de papel deve ficar entre 5% e 6% maior." |
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