Empresas
Infra-estrutura atrai investidores
Jorge Wahl
 
 

A CPFL Energia não espera a implantação do novo modelo elétrico
Wilson Ferreira Jr.
O grupo que mais investe em energia

Junte-se um país que crescerá perto de 5% em 2004 e precisará de energia para manter o ritmo no futuro a um setor que começa a recuperar-se das dificuldades recentes, mas no qual 29 empresas tiveram lucro líquido de R$ 1,25 bilhão no primeiro semestre, contra apenas R$ 103,9 milhões em 2003 e pesadas perdas em 2002. Acrescente a esses ingredientes uma concessionária que atende à região de maior renda per capita e consumo, podendo aproveitar melhor a hora da recuperação. Isso explica por que a CPFL Energia foi bem-sucedida ao se tornar, em setembro, a quarta companhia aberta a ingressar no nível pleno do Novo Mercado da Bovespa, captando numa operação conjunta (em São Paulo e Nova York) R$ 817,8 milhões. Foram ofertadas 47,5 milhões de ações subscritas por cerca de 150 investidores institucionais e 3 mil pessoas físicas. Em seu primeiro dia no pregão, o papel fechou em alta, a R$ 17,23.

O lançamento de ações da CPFL Energia mostra como o mercado acionário pode cumprir seu duplo papel: atender à expectativa do investidor que espera retorno para sua aplicação e fornecer capital para que a empresa invista. "Três das seis usinas que estamos construindo, para começar a operar nos próximos três a quatro anos, vão receber recursos provenientes dessa colocação de ações", disse o presidente da CPFL Energia, Wilson Ferreira Júnior. Os recursos também ajudarão a negociar a aquisição de novas empresas nas Regiões Sul e Sudeste. No setor, o grupo é, hoje, o que mais investe.

Energia necessária
O setor elétrico superou o sufoco do racionamento de 2001, agravado, em 2003, pelo não repasse integral do aumento dos custos aos consumidores. Em 2004, a retomada do consumo, a estabilização do câmbio e os reajustes das tarifas, que em geral acompanham o IGP-M (11,51%), superior à inflação oficial medida pelo IPCA (6,8%), nos últimos 12 meses, são fatores que começam a devolver o equilíbrio às elétricas. Para compensar o aperto, algumas empresas foram autorizadas a elevar tarifas entre 17% e 19%. Na primeira metade do ano, as vendas cresceram 1,6%, contra a queda de 1,5%, em 2003, e 8,5%, em 2002. No ano passado, o setor foi beneficiado por outro mecanismo compensatório - a abertura, pelo BNDES, de uma linha de crédito de R$ 2 bilhões para financiamento de capital de giro.

"O novo modelo do setor elétrico trouxe expectativas positivas e as ações das empresas do segmento vem apresentando uma boa performance muito em função disso", acredita Rosângela Ribeiro, analista da ABN Amro Real Corretora. Conhecido o novo desenho do mercado, os investidores sabem agora sob que regras todos deverão atuar, o que reduziu o risco regulatório. Além disso, acrescenta Rosângela, a nova estrutura de funcionamento conserva uma certa flexibilidade na contratação de energia pelas distribuidoras, ao mesmo tempo que a utilização de um novo índice promete maior confiabilidade ao reajuste das tarifas que irão reger os contratos de energia nova e excedente.

Mas, para Pedro Batista, analista do Banco Pactual, "os preços das ações das empresas do setor elétrico ainda não refletem inteiramente o cenário benigno que o segmento atravessa", o que significa dizer que em sua opinião os investidores ainda têm margem de ganho à sua frente.

Aproveitar as oportunidades
A CPFL Energia dá sinais de que quer crescer. Concentra sua atuação nas áreas mais desenvolvidas do interior paulista, como as macrorregiões de Campinas, Ribeirão Preto, Franca, Bauru, Bebedouro, São José do Rio Preto, Araçatuba, Araraquara, Paulínea, Piracicaba, Americana, São Carlos, Marília e Jaú, e nos mercados em que o agribusiness é mais forte, no Rio Grande do Sul. Assim, registra aumento do consumo de energia pelo menos 50% superior ao do restante do País.
Rosângela Ribeiro
Empresas mostram boa performance

A CPFL Energia é, a rigor, uma holding que forma o maior grupo privado de capital totalmente nacional do setor elétrico, controlando empresas que atuam tanto na geração como na distribuição e comercialização de energia. Tem como acionistas a VBC (Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa), com 45,3% do capital, o fundo de pensão Previ (com uma fatia de 38%) e três outros fundos de pensão (Petros, Funcesp e Sistel), detentores de 16,6%. Nos próximos cinco anos, suas seis novas usinas entrarão em operação, elevando a capacidade instalada do grupo dos 812 MW atuais para 1.990 MW - quando será uma das quatro maiores geradoras do País. Hoje, a CPFL Energia está entre as três primeiras distribuidoras, com 5,3 milhões de consumidores.

Os projetos da CPFL Energia apresentam risco baixo, acreditam analistas. Afinal, a empresa já obteve todas as licenças ambientais difíceis de conseguir e indispensáveis para a realização de obras. Os financiamentos estarão assegurados com a garantia de contratos de fornecimento futuro de energia, o que permitiu estruturar o crédito bancário. E o porte dos acionistas controladores ajuda a consolidar a imagem de solidez do grupo, cuja dívida de curto prazo caiu de R$ 3,19 bilhões, em 2002, para R$ 888 milhões, no final de 2003. No mesmo período, o endividamento global recuou de R$ 6,9 bilhões para R$ 5,2 bilhões. Em conjunturas difíceis, fazer parte de um grande grupo faz toda a diferença: apenas em 2003, os controladores da CPFL Energia aportaram cerca de R$ 1,5 bilhão em capital novo.

Para cima
Os resultados estão crescendo. A holding que controla CPFL Geração, CPFL Paulista, CPFL Piratininga, CPFL Brasil e RGE apresentou, no segundo trimestre de 2004, um lucro líquido consolidado de R$ 136,7 milhões, em contraste com a perda de R$ 86 milhões no mesmo período do ano passado. Com isso, fechou o primeiro semestre lucrando R$ 124,8 milhões, ante uma perda de R$ 326,8 milhões na primeira metade de 2003.

Os resultados refletem a qualidade da gestão, que recebeu prêmios, em 2004, espelhando também o aumento do volume de energia vendida. A receita líquida consolidada da holding somou R$ 1,8 bilhão no segundo trimestre de 2004, contra R$ 1,5 bilhão em igual período do ano passado.

Um aspecto fundamental é o aumento no volume de energia vendida. Ele não reflete apenas o crescimento da demanda, pois, em parte, se explica pela conquista de consumidores. O novo modelo do setor criou um mercado "livre", no qual grandes consumidores industriais podem comprar energia de quem quiserem. A CPFL aumentou de 14 para 40 o número de clientes "livres". Além disso, por intermédio de uma nova empresa, a CPFL Brasil, formada em 2002 e que atua em todo o País, comprando e vendendo energia e prestando serviços, constrói, por exemplo, subestações sob medida para atender às necessidades dos clientes.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em pesquisa, qualificou a CPFL como a melhor distribuidora da R egião Sudeste, com pontuação (69,35) superior à média nacional (63,63). Em agosto, a subsidiária CPFL Piratininga venceu o prêmio Abradee na categoria Melhor Gestão Econômico-Financeira. E, pelo terceiro ano consecutivo, outras subsidiárias foram premiadas, como a RGE (Rio Grande Energia) e a CPFL Paulista (responsabilidade social). Integra, ainda, a lista da revista Exame das 100 Melhores Empresas para se Trabalhar na América Latina.

 
 
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