Histórias de Bolsa
Na roda errada
 
 
 
Pedro Paulo Piragibe Carneiro

Entrar na roda incorreta custou muito caro para o operador

Os anos 80, na Bovespa, eram bem diferentes dos atuais. No pregão, o corre-corre era frenético. Os operadores se acotovelavam em torno das "rodas" - onde se negociavam opções de compra e venda de ações. Na época, as transações eram feitas em viva-voz e delas participavam, todos os dias, quase 700 operadores. O nascimento do mercado de opções, em 1979, havia dado impulso aos negócios e o montante das transações chegava a superar, cerca de três vezes, o das operações à vista.

Numa tarde tensa, um operador procurou a "roda" 38, de opções da Petrobras. "Compro a 40, compro a 40", berrava. Os outros operadores estranharam. Não era para menos. Ele havia entrado na "roda" errada, a de opções da Sharp. Resultado: fechou um negócio com imenso prejuízo, pois comprou opções de R$ 3,40 e não de R$ 2,40, como pretendia.

Os operadores não falavam, então, em valores inteiros, mas, em centavos, para agilizar as transações. "Os negócios eram tantos que uma distração mínima poderia levar qualquer um ao desespero, como ocorreu com esse operador, cujo erro foi comentado durante anos", lembra o chefe de pregão da Bovespa, o Piragibe (Pedro Paulo Piragibe Carneiro).

O mercado de opções é uma típica operação a futuro, em que uma parte acredita em alta e a outra em queda. As operações são padronizadas, com datas marcadas e começam com o pagamento de uma espécie de sinal. A opção de compra é exercida quando a cotação, no vencimento, supera o preço-base (preço de exercício). Há opções de compra cobertas (quando o vendedor é possuidor dos títulos objeto da negociação) e descobertas (garantidas por depósitos de margem).

Trata-se de um mercado alavancado, onde se pode operar com pouco capital, mas não se recomenda a presença de iniciantes. Há risco de perda total do que foi aplicado. Para os detentores de carteiras de ações - como os investidores institucionais -, permite o hedge (defesa) contra desvalorizações. Ou, ainda, transações assemelhadas às de renda fixa. Sobretudo, permite o ingresso de maior número de investidores.

Esse é um mercado derivativo típico, com regras muito claras e acompanhamento permanente da Bolsa, interessada em assegurar a formação justa de preços, pois as cotações das opções têm influência sobre o mercado à vista.

A Bovespa abre negociações de séries de opções com antecedência de até um ano. As séries ganham ou perdem liquidez até o vencimento, em função das expectativas e das cotações no mercado à vista.

Trata-se de um mercado do qual participam os aplicadores com maior conhecimento de mercado - muitos dos quais altamente especializados - e disposição em correr risco. Presta-se, ademais, à arbitragem, ou seja, à realização de operações simultâneas nos mercados à vista e de opções, o que reduz os riscos de perda de capital.
 
 
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