Índice
Quanto vale a sustentabilidade empresarial
 
 
 

O Índice de Sustentabilidade Empresarial será lançado pela Bovespa no primeiro semestre de 2005, para avaliar ações de até 40 empresas comprometidas com políticas socioambientais corretas e saúde financeira comprovada. O indicador está sendo elaborado por um conselho deliberativo de nove membros. Além da indicação da Bolsa, fazem parte do conselho a International Finance Corporation (IFC), subsidiária do Banco Mundial voltada para o setor privado; três representantes dos investidores (Abrapp, de previdência privada; Apimec, dos profissionais de investimento; e Anbid, dos bancos de investimento); o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC); o Ministério do Meio Ambiente e duas organizações não-governamentais (Instituto Ethos e Ibase).

"O índice vai estimular ainda mais as boas práticas das empresas", enfatiza o superintendente-executivo de Operações da Bovespa e coordenador do Desenvolvimento do Indicador, Ricardo Pinto Nogueira. "Além disso, atende a uma demanda do mercado, que é cada vez maior - investidores institucionais e aplicadores em geral querem colocar seus recursos em empresas sustentáveis, que adotem a governança corporativa e trabalhem dentro de parâmetros corretos do ponto de vista ambiental e social."

O índice será um instrumento para investidores em busca de um parâmetro bem definido. "Há procura por essas empresas sustentáveis e fica mais fácil quando uma entidade neutra, como a Bolsa, faz um trabalho conjunto com outros segmentos e chega à classificação dessas companhias dentro de um índice. Dessa forma, será possível investir em empresas que, além de atuar corretamente, oferecem melhor perspectiva de ganho. Afinal, as companhias que poluem ou adotam políticas incorretas com seus funcionários têm também a tendência de ser menos lucrativas, pois terão problemas com Ibama, Ministério do Trabalho e, portanto, custos judiciais e administrativos mais altos."

Quebra-cabeças
Para montar o novo índice e atender à demanda, o conselho deliberativo recorreu à Fundação Getúlio Vargas, que tem um Centro de Estudos de Sustentabilidade. A FGV montou um questionário enviado às empresas cujas ações são candidatas a entrar no índice. "Demos nossa contribuição financeira de US$ 70 mil para que a FGV fosse contratada", informa Luiz Maria Ribeiro, da área de investimento da IFC.

A FGV começou pela definição conceitual do índice, ou seja, como seriam agrupadas as empresas que farão parte do indicador. A partir daí, passou a preparar o questionário a ser enviado às companhias, conta Rubens Mazon, professor e chefe de Operações e Produção da FGV, que coordena o trabalho. "Definimos as questões com base em três pilares: ambiental, social e econômico-financeiro", conta Mazon. "Consideramos importante checar a atuação da empresa em relação ao meio ambiente e sua atuação em favor da comunidade e nas relações de trabalho, por exemplo. Mas não podíamos deixar de lado os indicadores de saúde financeira de médio e longo prazo. O questionário ajudará a mostrar como deve estar a companhia, do ponto de vista econômico, daqui a dez anos, por exemplo."

As questões abrangem a política da empresa, sua gestão, desempenho e como ela atende à legislação, vistos como pilares pela FGV. "A empresa vai responder sobre suas ações em relação a cada indicador", informa. Para chegar ao questionário final, a FGV fez uma depuração das perguntas. De um total inicial de 600 perguntas, chegou-se ao número final proximo de 100 - o processo de seleção avaliou os critérios dos três pilares.

A FGV definiu ainda uma modelagem estatística para achar a forma matematicamente correta de definir os indicadores. "Era preciso ter essa definição e evitar confusão, colocando cada item em seu subgrupo correto. Trata-se de juntar laranjas com laranjas", afirma Mazon. O questionário será enviado por meio eletrônico às empresas em janeiro e fevereiro. As companhias terão de 45 a 60 dias para responder e a consolidação dos dados será feita por computador. "O importante é chegar a um índice de alto nível, à altura do que necessita o mercado."

Nível mundial
A IFC dá apoio ao índice. "Além do apoio financeiro, procuramos ajudar do ponto de vista técnico e de nosso conhecimento, aproveitando a experiência de desenvolver mercados locais em vários países", informa Luiz Ribeiro, que representa a IFC no conselho. É a primeira vez que a IFC financia diretamente o trabalho de preparação de um índice de sustentabilidade: "Demos apoio na formação de outro indicador do tipo em país emergente (da Bolsa de Johannesburgo, na África do Sul), mas não de maneira direta, como aconteceu com o índice que está se formando no Brasil."

Com ajuda da IFC e da FGV, os investidores terão confiança no índice, prevê Roberto Gonzalez, responsável pela área de responsabilidade social da Associação dos Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). "Há tempos a Apimec realiza cursos sobre investimento socialmente responsável e já havia fundos com essa preocupação, dos bancos ABN Amro Real e Itaú, entre outros", lembra. "Mas o índice é decisivo para dar impulso a esse segmento, principalmente pela seriedade com que está sendo montado".

Ricardo Nogueira
Mais um estímulo à governança das empresas

Os analistas levam em conta os critérios socialmente responsáveis para definir as aplicações, "seja porque representam redução do risco, seja porque significam possibilidade de aumentar a rentabilidade". Com o índice, assegura, "os gestores e analistas terão como objetivo bater o indicador, ou seja, conseguir performance superior à que ele vai apresentar".

Para Gonzalez, a partir do Índice de Sustentabilidade Empresarial devem surgir outros indicadores semelhantes, para atender à demanda dos fundos: "É importante esse indicador, ainda mais que os fundos precisam de um referencial. Como a demanda é grande, é provável que surja a procura por outros índices, sempre com foco na sustentabilidade."

Considerando a demanda, o conselho responsável decidiu adotar um índice multissetorial, que leve em conta o free float das ações que o compõem e critérios como reinvestimento de dividendos, diz Ricardo Nogueira, da Bovespa. E para manter a atualização dos dados, a classificação das empresas que comporão o indicador será anual.

Segundo Nogueira, o Índice de Sustentabilidade Empresarial será lançado na hora certa: "A Bovespa foi a primeira bolsa do mundo a entrar no Global Compact, está cada vez mais forte no movimento de popularização do mercado e tem a Bolsa de Valores Sociais (BVS). Tudo isso ajuda a dar credibilidade ao novo índice. Contando com o trabalho conjunto de mais oito parceiros, vamos chegar a um índice de alto nível, que atenda ao que o mercado quer e precisa e seja um parâmetro confiável e necessário". (T.C.)

 
 
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