Internet
Informação caótica ameaça a cultura
Luiz Zanin Oricchio
 
  O dia-a-dia da internet, discutido por Umberto Eco

Enquanto a internet chega a centenas de milhões de lares e empresas - sendo a ferramenta por excelência do mercado de capitais -, cresce o risco de que o excesso de informação de pouca utilidade transforme o mundo numa babel da comunicação. É o que parece alertar, em entrevista recente ao diário alemão Die Welt, o semiólogo e romancista italiano Umberto Eco. As considerações de Eco sobre a internet são, no mínimo, inquietantes. Esse excesso proporcionado pela web, teme o escritor, pode, por paradoxo, causar um tilt na comunicação global. "Hoje existe o perigo de que 6 bilhões de pessoas tenham 6 bilhões de enciclopédias diferentes e já não consigam se entender entre elas", disse. Preocupado, o autor reputado de livros famosos, tais como O Nome da Rosa, chegou a afirmar que esse confronto cultural talvez seja mais grave do que aquele que opõe o Islã ao Ocidente.

A montagem de referências individuais via rede mundial de computadores ameaçaria o caráter coletivo da cultura. Elimina seus filtros naturais, construídos por acumulação durante séculos, separando o que é relevante do que não é. Ele dá um exemplo: "Saber quando Júlio César nasceu é importante, enquanto a data da morte de sua mulher, não. Com a internet essa valoração se anula. Os critérios passam a ser individuais e não mais se subordinam a valores culturais definidos consensualmente".

A internet acaba criando esse mundo instantâneo e individual, no qual se relativizam a memória da cultura e o caráter coletivo dos povos. Eco diz que se assusta com a imagem do internauta solitário, em seu quarto, sobrevoando o que julga ser a totalidade do mundo por meio de cliques do seu mouse.

Com tais preocupações em mente, não seria difícil prever que Umberto Eco escreveria algum dia um romance sobre a memória. Ou melhor: sobre a falta dela. O livro é La Misteriosa Fiamma della Regina Loana (A Misteriosa Chama da Rainha Loana, Bompiani, 454 páginas), ainda inédito em português.

O herói da história é um certo Giambattista Bodoni, comerciante de livros antigos que, depois de um acidente, fica com amnésia parcial. Ele conserva a memória que os neurologistas chamam de "semântica" - sabe tudo o que leu sobre Júlio César e consegue recitar longos trechos da Divina Comédia. Mas sua memória afetiva pifou. Esqueceu o próprio nome e não reconhece mais a mulher com quem está casado há 30 anos. Nem sabe se teve ou não um affair com sua jovem secretária. Para recuperar a memória, seu médico lhe recomenda que volte a entrar em contato com aquilo que povoou sua imaginação na primeira infância: livros, histórias em quadrinhos, jornais infantis como Il Corriere dei Piccoli, velhos discos e canções.

Como Giambattista, apelidado Yambo, é homem de uns 60 anos, sua infância se passa na época final do fascismo, um tempo hoje esquecido segundo Eco, e que ele, o escritor, nos desvela com vivacidade prodigiosa. Mas longe de ser um romance histórico sobre a era final do Duce, La Misteriosa Fiamma della Regina Loana (título de uma dessas histórias em quadrinhos antigas evocadas no romance) parece mais uma poderosa e engraçada metáfora sobre os tempos atuais.

A época atual é caracterizada pela soma avassaladora de informações, em volume muito superior à capacidade de armazenamento do cérebro humano. Em nenhuma época da história da humanidade tantos dados estiveram à disposição. Mas, paradoxalmente, lembra Eco, talvez nunca tenhamos sido tão mal informados. Ou ainda: tão mal formados. Temos grande quantidade de informação, mas pouca qualidade para processá-la.

Em uma conferência - "Da internet a Gutemberg" -, Eco já havia se referido a isso ao tratar do paradoxo sobre o The New York Times e o antigo Pravda. O NYT tem uma edição dominical imensa, com cerca de 500 páginas. Na época da União Soviética, o Pravda ("verdade", em russo) era o porta-voz do Partido Comunista e, portanto um diário oficial em todo contrário à noção de verdade. Mas, para o semiólogo, os dois se equivaleriam: seria tão impossível ler o volumoso NYT de domingo quanto a caudalosa e parcial edição do Pravda.

A comparação não é tão estapafúrdia como parece. É melhor ter em mãos informações de qualidade como a trazida pelo NYT do que o amontoado de notas oficiais que o velho Pravda publicava. Mas, lembrou Eco, "para ler uma edição inteira do Times levaríamos uma semana sem fazer outra coisa, sem ler mais nada, sem comer, sem dormir ou trabalhar". Conclusão: diante de informações em excesso, é preciso aprender a filtrar, separando o que é necessário do que é inútil, enfim, distinguir o necessário do acessório, o confiável do suspeito. E é justamente esse "filtro" cultural que a internet elimina, pois nela tudo se equivale.

Especialista em filosofia medieval, ele entrou no Google e digitou o nome de Tomás de Aquino. "Apareceram 11 mil referências. O que fazer diante de tantos links, não hierarquizados, de cuja confiabilidade nada sabemos?" É uma selva de informações, na qual podemos nos perder, ou podemos abandonar, mas não sem algum sentimento de culpa, como se pensássemos que ela esconde revelações extraordinárias. Nenhum cérebro humano tem tempo, ou capacidade, para deglutir 11 mil sites sobre São Tomás de Aquino.

Umberto Eco
Onze mil sites sobre São Tomás de Aquino
Isso não quer dizer que se deva perder esse instrumento indispensável que é a internet, nem Eco se prestaria a assinar tal sandice. Logo ele que, anos atrás, escreveu um livro - Apocalípticos e Integrados -, discutindo as atitudes contraditórias diante de outra ferramenta tecnológica que costuma ser demonizada pelos intelectuais e adorada pelas pessoas comuns - a TV. Ele propôs um caminho intermediário, uma relação crítica com a TV que não pode ser ignorada, mas ao mesmo tempo pode levar a um fascínio sem distan- ciamento, como acontece com os adeptos incondicionais que ele chamou de "integrados".

No caso da internet, esse tipo de cuidado crítico parece ainda mais necessário. Há a solidão do internauta, que o isola da comunidade cultural dos homens e a quantidade quase ilimitada de informação. Mas, além disso, aumentam as possibilidades de as pessoas se perderem nessa selva ao saltar de um site para outro em busca de alguma informação específica. Quantas vezes não se entra na rede em busca de alguma informação e se vai movendo de um link a outro até se esquecer do motivo inicial da busca? É que a internet fornece a possibilidade (mas também o perigo) de uma condução não linear da busca. Salta-se alegremente de um ponto a outro, aleatoriamente, e, depois, cada cérebro tenta a síntese, uma unidade que não estava presente durante o procedimento de pesquisa.

Eco discute os limites dessa fragmentação mental, que induz ao colapso da atividade do raciocínio e da memória. A terapia proposta ao esquecido Yambo inclui uma volta de contato com os primeiros materiais de construção da sua memória e personalidade, termos que, neste caso, podem passar por quase sinônimos: alhear-se de suas lembranças é como perder-se de si mesmo. A reconstrução do passado de Yambo, sua busca da memória perdida, é a aventura proustiana proposta por Eco, um intelectual que sabe que a única forma razoável de saúde mental nos dias de hoje se baseia na convivência civilizada entre máquinas e livros. Entre a cultura contemporânea (que não pode ser ignorada) e a cultura clássica (que não pode ser esquecida), o jeito é ficar com ambas. As duas se equilibram e se realimentam.
 
 
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