Mulheres em ação

O talento feminino em ação
René Decol e Rosângela Santiago
 
  O programa Mulheres em Ação da Bovespa completa um ano com várias conquistas a comemorar e a constatação de que as mulheres avançam a passos rápidos no mercado de trabalho. No entanto, os hiatos, preconceitos e vulnerabilidades acumulados ainda exigem políticas públicas voltadas para a mulher. Com essa meta, o programa criou um fórum de debates para a discussão de temas relacionados com a participação da mulher na sociedade. "O fórum tem como objetivo informar a mulher que é investidora e a que pretende ser sobre a importância de poupar a longo prazo e ter responsabilidade financeira - imprescindível para planejar o futuro -; e o mercado de ações é uma alternativa, pois fortalece nossas indústrias, gera empregos e alavanca a economia", afirma Angela Barros, uma das coordenadoras do programa. "A mulher está totalmente inserida no mercado de trabalho e na sociedade, gerando renda e muitas vezes no comando do lar, portanto é essencial planejar o futuro, ter responsabilidade financeira. E, como o futuro começa hoje, o fórum pretende informar e esclarecer essa mulher sobre o mercado financeiro, especialmente o mercado de artes, promover cursos sobre cidadania e outros assuntos "relacionados à mulher" (veja quadro "Fórum debate situação da mulher").

Mulheres do fórum (da esq. para a dir.):
Angela Barros Gomes, Margarida Woshiko Soligo, Rosegleyde Rocha, Aparecida Sidnéia, Eliana Malfarage, Elizabeth Piovesan, Suzana Carvalho, Neuza Barbosa, Patrícia Pecoraro, Inês Bozzini.


"Achamos importante que o movimento se consolidasse através de um núcleo de estudos sobre a posição da mulher, não só no mercado de trabalho mas na sociedade em geral", reforça Inês Bozzini, que divide com Angela a coordenação do projeto.

Com o avanço do Mulheres em Ação, a Bolsa criou um canal específico para mostrar o mercado de capitais ao público feminino: um site exclusivo abordando temas dirigidos à mulher (quadro "Um site feminino").

Quando o projeto foi lançado, as mulheres respondiam por apenas 3% dos investimentos das pessoas físicas e o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, esperava triplicar essa participação. Um ano depois, os resultados superaram as expectativas. "As mulheres são surpreendentes e estão à frente da maioria dos clubes de investimentos formados desde o surgimento da campanha de popularização", afirmou Magliano no evento que comemorou o primeiro aniversário do programa. Hoje, as mulheres já representam quase 20% do total de investidores com contas ativas na custódia da CBLC. Na data de lançamento do programa, havia 100 clubes de investimentos, hoje a Bovespa já reúne cerca de 500 clubes.

Outro sinal do avanço feminino é o florescimento de uma verdadeira leva de empresas que tem a mulher como público-alvo. Algumas, como a Natura (com seu impressionante exército de 350 mil consultoras), abriram o capital. Mais recentemente, a Grendene, segura de seu potencial de crescimento, seguiu o mesmo caminho. "O marketing descobriu a mulher", diz Inês Bozzini. "São empresas modernas que entendem a importância estratégica de entrar no mercado de ações", acrescenta Maria Helena Santana, superintendente-executiva de Relações com Empresas da Bovespa. A urbanização e as profundas mudanças na estrutura produtiva e educacional foram responsáveis pela grande transformação na composição da força de trabalho do País nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a rápida queda da fecundidade liberou a mulher para o trabalho fora de casa. Resultado: as mulheres, que ainda nos anos 50 eram menos de 20% da força de trabalho (com uma parcela considerável no setor rural), atualmente já respondem por 45% da População Economicamente Ativa (PEA), segundo o IBGE. E isso numa economia onde predominam os setores industrial e de serviços. Em algumas áreas, principalmente no setor financeiro, elas já estão perto da maioria. "Metade de minhas fontes atualmente é composta de mulheres", diz a jornalista e colunista de finanças pessoais Mara Luquet (leia entrevista no quadro "Mulheres em Ação entrevista Mara Luquet"). "Até pouco tempo atrás, predominavam os homens."
 
 
Quem está no fórum
Patrícia Mendes Pecoraro
Investidora
Neuza Barbosa de Lima
Força Sindical
Rosegleyde de Souza Rocha
Clube de Investimento Professoras
Sandra Blanco
Mulher Invest - Consultoria e Educação Financeira
Elizabeth Piovesan Benamor
Souza Cruz
Simone Azevedo
Revista Capital Aberto
Margarida Woshiko Soligo
Apimec
Aparecida Sidnéia Pereira
Advogada e investidora
Suzana Carvalho
Administradora Quadra Paraisópolis
Maria Nilde dos Santos
União dos Moradores de Paraisópolis
Maria Celina E. Godoy Isoldi
Esposa de corretor
Eliana S. da Cruz Malfarage
CGT
Neura Costa
Conselho da Mulher Empreendedora (ACSP)
 
 
A maior participação da mulher no mundo do trabalho está ligada ao crescimento do setor de serviços, e acontece não apenas na base, mas em toda a pirâmide social - inclusive no topo. É verdade que as mulheres ainda encontram muitas dificuldades pelo caminho por vários fatores que incluem, mas não se limitam, ao preconceito. Afinal, as mulheres ainda têm atribuições biológicas e sociais que as tornam mais vulneráveis: são elas que se ausentam do mercado de trabalho por causa dos filhos, muitas vezes ficando em desvantagem em um mundo de rápidas transformações tecnológicas. As desvantagens se refletem em diferenças de renda que não são justificadas pela escolaridade. De fato, segundo o IBGE, enquanto as mulheres brasileiras têm em média 7,5 anos de estudo, os homens tem 6,5. No entanto, a renda dos homens é quase 50% maior do que a das mulheres. "As mulheres ainda estão concentradas em algumas atividades como saúde e educação, muitas vezes recebendo salários menores", diz Jussara Reis Prá, do Núcleo Estudos sobre a Mulher da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Mas o avanço das mulheres é inegável. Na própria Bolsa de Valores de São Paulo, por exemplo, um nicho tradicionalmente masculino, três mulheres já chegaram ao nível de diretoria. "A mulher ainda é minoria, por isso tem de se esforçar mais que o homem", diz Maria Helena Santana, primeira mulher a chegar à Superintendência Executiva da Bovespa. Responsável pelas relações com empresas, Maria Helena comanda uma equipe de 30 pessoas - muitas das quais mulheres.

Formada pela Faculdade de Economia e Administração da USP, Maria Helena é um exemplo de como o aumento da escolaridade vem impulsionando a participação feminina no mundo das finanças. "O mercado é seletivo e a escolaridade e a experiência contam muito", afirma Paula Montagner, coordenadora do Observatório do Ministério do Trabalho e Emprego. "Porém, os preconceitos que ainda existem e diferenças por causa dos filhos exigem políticas públicas específicas. É assim que as mulheres têm obtido conquistas importantes nos países desenvolvidos."

Empreendedorismo
O talento feminino se manifesta não só na força de trabalho da indústria e serviços, mas também pelo empreendedorismo. Uma pesquisa realizada pela Rizzo Franchise mostra que a participação feminina no comando de franquias cresceu de 20% para 50% nos últimos três anos. Segundo a pesquisa, as mulheres empreendedoras têm como diferencial a capacidade de executar várias atividades ao mesmo tempo. "Essa característica, uma conseqüência da necessidade de conciliar atividades domésticas e profissionais, se torna uma vantagem competitiva na hora de enfrentar desafios profissionais na direção de micros e pequenas empresas", conclui a pesquisa.


Movidas pelas mudanças estruturais da economia e impulsionadas por um nível de escolaridade cada vez mais alto, as mulheres avançam. Educação, diga-se de passagem, nem sempre formal. Muitas delas têm invadido áreas tradicionalmente dominadas pelos homens à custa do próprio talento e do autodidatismo. A jornalista Mara Luquet, por exemplo, não freqüentou uma faculdade de economia. Formada em jornalismo e autodidata em assuntos econômicos, tornou-se respeitada jornalista especializada em finanças pessoais. "Trabalhar em publicações como Gazeta Mercantil, Exame e Valor foi como fazer um MBA", diz ela. "Aprendi com minhas fontes." Entre elas, presidentes do Banco Central e das principais instituições financeiras do País.
 
Fórum debate situação da mulher

Para comemorar o primeiro aniversário do Mulheres em Ação, o programa criou um fórum de debates para discutir temas relacionados com a participação da mulher dentro e fora das empresas. "Com a maior participação das mulheres no mercado de trabalho, é importante que elas passem a ampliar os horizontes na hora de poupar e investir", diz Angela Barros. "A campanha de popularização está trazendo novos segmentos da população para o mercado de capitais", acrescenta. Segundo Inês Bozzini, "o objetivo do fórum é lutar para que as mulheres tenham condições equivalentes às dos homens no mercado de trabalho e na sociedade em geral". Devido à ligação com os filhos, a mulher tem papel-chave na educação financeira das gerações futuras. "É a melhor contribuição que podemos dar".

O fórum atrai a atenção de investidoras de variado perfil, como é o caso da antiquária Rosita Gonzalez e o da economista Mirian Souto: a primeira sempre preferiu aplicar em fundos de renda fixa e na compra de imóveis, enquanto a segunda investe em ações há mais de 20 anos. Apesar disso, a amizade feita no paulistano Clube Pinheiros, onde ambas jogam tênis, uniu-as no primeiro clube de investimento constituído depois da campanha de popularização da Bovespa.

Das partidas de tênis para o investimento em ações foi um pulo, após assistirem a uma palestra de Raymundo Magliano Filho. "Invisto em ações como Gerdau e Perdigão, mas resolvi diversificar e, entrando num clube, deixar a gestão para uma empresa especializada", explica Mirian, ressaltando ser difícil escolher sozinha o que comprar. Mirian comemora o desempenho do clube de investimento que existe desde 29 de janeiro do ano passado. Desde então, acumula retorno de 237,21%, comparado a uma elevação de 115,5% do Ibovespa no mesmo período - até setembro deste ano.

No caminho oposto, estava a antiquária Rosita, que passou a maior parte da vida investindo em alternativas mais conservadoras, depois de ver sua cunhada passar por uma experiência ruim na qual amargou perdas no mercado acionário. "Somente agora entendo que ela teve prejuízo mesmo por falta de informação e orientação na tomada de decisão de seus investimentos", justifica. Entretanto, para desfazer a sensação de que a Bolsa era algo ruim, Rosita precisou ouvir também explicações das parceiras de tênis. "As orientações me deram coragem para resgatar parte dos meus recursos e aplicar num clube", lembra. De temerosa a incentivadora, a antiquária já convenceu outras pessoas a investir em ações: entre elas o marido, que também entrou no clube. Da diretoria do fórum participam consultoras, advogadas, jornalistas, representantes de entidades populares, de clubes de investimento, líderes sindicais e até mesmo uma representante das esposas dos corretores.
 
Paradoxalmente, Mara é um exemplo de como pode ser difícil conciliar a vida doméstica com a profissional - e justamente na sua especialidade. Apesar de seu conhecimento profissional do assunto, passou por uma séria crise financeira pessoal. "Pura falta de organização", confessa. "É engraçado: estava tão empolgada escrevendo sobre dívida externa, derivativos, ou taxas de juro, que achava a maior perda de tempo preencher o canhoto dos cheques", conta. Como o descontrole das finanças pessoais não distingue homens e mulheres, seu próximo livro provavelmente terá o título Como Reestruturar Suas Finanças Pessoais. "Espero que agrade a todos. Se você não se preocupar com o seu dinheiro, o banqueiro vai achar ótimo", brinca. "Ajudei muito a engordar o lucro dos bancos".

Como se lerá nas próximas páginas e nas próximas edições desta seção, que se incorpora à Revista Bovespa a partir deste número, a distribuição hierárquica e desigual das tarefas da produção e da reprodução social entre homens e mulheres ainda é um eixo de desigualdade nas sociedades em desenvolvimento, como a brasileira. Mas, à medida que a sociedade e os papéis mudam, essa desigualdade - no mercado de ações e em qualquer outro campo - tende a ser cada vez menor.
 
Um site feminino

Renata Martins

Informações adequadas para pessoas que têm vida mais longa

Com o avanço do programa Mulheres em Ação, a Bolsa criou um canal específico para mostrar o mercado de capitais ao público feminino, um mini-site exclusivo www.bovespa.com.br/mulheres. "As mulheres estão mostrando sua força e agora têm à sua disposição mais uma ferramenta para auxiliá-las nas tomadas de decisões financeiras do dia-a-dia", diz Angela Barros, uma das coordenadoras do projeto Mulheres em Ação, referindo-se ao novo site.

Nele não entram apenas conceitos, artigos e reportagens sobre como funciona o mercado. Entram temas mais abertos. Por exemplo: a importância da poupança para a educação dos filhos, como economizar para o casamento e se preparar para situações como divórcio e aposentadoria. "É importante a mulher ter informações adequadas para que possa se financiar no futuro; afinal, ela vive mais do que o homem e, muitas vezes, ganha menos", explica a supervisora de internet da Bovespa, Renata Martins.

As páginas on-line terão participação de mulheres que já atuam no mercado ou que criaram e dirigem o próprio negócio. Casos de êxito nos investimentos em ações serão mostrados sob a forma de depoimento. O site divulgará uma agenda de eventos e palestras do programa Mulheres em Ação, fóruns e seminários. Numa de suas seções, o portal mostrará como a mulher poderá testar seu perfil. Será também um canal de comunicação para solicitar o Bovespa Delivery - agendar uma visita de promotores da Bolsa. A definição de um layout para o site foi cuidadosa, ligada à mulher. "Para isso, foram criadas cores que exploram os tons pastel - azul, verde e rosa -, numa página central com três mulheres latinas", resume Renata.
 

Mulheres em Ação entrevista Mara Luquet

Mara Luquet

Mais mulheres querem se informar sobre as ações

Autodidata em economia, a jornalista Mara Luquet é uma das mais bem-sucedidas colunistas de finanças pessoais do País. Escreveu na Gazeta Mercantil, na Isto É e em outras publicações especializadas e hoje tem uma coluna semanal no Valor Econômico, edita o Valor Investe, faz comentários diários na rádio CBN respondendo a dúzias de e-mails de ouvintes e leitores e já publicou vários livros, entre eles dois guias de finanças pessoais.

Mara Luquet tem por fontes diretores do Banco Central e presidentes de algumas das mais importantes instituições financeiras. E achou tempo para criar, junto com outros jornalistas de economia, uma editora especializada em finanças pessoais. "Há uma grande lacuna no mercado editorial nesta área", diz. "Nos EUA, por exemplo, há uma indústria voltada para esse segmento com nichos que incluem livros como 'finanças pessoais para mulheres latinas' ou 'finanças pessoais para a terceira idade'. Nem começamos a engatinhar nessa área no Brasil." Em março de 2005 a editora Letras & Lucros colocará nas livrarias uma leva de autores nacionais, entre eles gestores de carteiras e investidores bem-sucedidos. "Acho importante que haja um registro do que deu certo", diz. "É um compromisso histórico com as próximas gerações". Mara trabalha agora em seu próximo livro: nele vai contar como reestruturou as próprias finanças após três meses com o limite do cheque especial estourado.

  • Como é o dia-a-dia de uma repórter que tem acesso a presidentes de bancos e diretores do Banco Central?
    Apesar de ter livros e guias publicados, sou basicamente uma repórter. Gosto da apuração, de estar na rua, levantar dados, pesquisar. Vou muito no centro de documentação da Bovespa para pesquisar, vendo histórias do passado, para fazer uma apuração perfeita, estar segura do que estou escrevendo.

  • Você freqüenta a redação do Valor Econômico ou faz tudo pela internet?
    Já freqüentei mais a redação, mas no momento passo no jornal apenas dois dias por semana. Todas as manhãs faço ao vivo um boletim de finanças pessoais na rádio CBN com o Carlos Alberto Sardenberg. Dá trabalho porque os ouvintes mandam muitos e-mails, com perguntas complexas e difíceis de responder. Em geral são ouvintes e leitores que acompanham o mercado e querem saber coisas difíceis de apurar. Nesse processo acabo tendo uma primeira noção de como está o mercado, quais são os temas do dia, o que é relevante.

  • Você nota uma participação maior das mulheres entre ouvintes, leitores, ou mesmo entre suas fontes?
    Aumentou o número de mulheres entre minhas fontes. Hoje posso dizer que é meio a meio. Quando eu comecei eram mais homens. Apesar de o mercado financeiro ter enxugado muito, a proporção de mulheres aumentou.

  • Comparando suas fontes há diferença entre homens e mulheres, ou o que conta é a formação técnica?
    As mulheres são mais fáceis de conversar, mais tranqüilas para dar entrevista. Com os homens a intimidade chega com o tempo, mas com as mulheres é quase imediata. As mulheres são também mais seguras. É mais fácil uma fonte insegura entre homens que entre mulheres.

  • Você teve alguma dificuldade na profissão por ser mulher numa área predominantemente masculina?
    A dificuldade maior que tive foi entender economia...

  • Em relação às finanças pessoais: a questão é técnica ou há outros fatores envolvidos, psicológicos ou emocionais? Como as pessoas lidam com dinheiro?
    Finanças pessoais é cada vez mais questão que extrapola a mera matemática financeira. Hoje há neurocirurgiões, psicólogos e economistas estudando em conjunto o relacionamento das pessoas com dinheiro, que é algo muito mais complexo do que podemos supor a princípio.

  • E como estão as suas finanças pessoais hoje?
    Equilibradas. Mas já tive problemas sérios. Cheguei a um estado de desorganização financeira tamanha que o limite do meu cheque especial ficou estourado por três meses. Para pôr minha vida em ordem tive de abrir mão de cheque e cartão de crédito. Agora só uso cartão de débito. Sou mais para gastar do que economizar.

  • E como você resolveu?
    Você tem de planejar. Não pode entrar numa espiral de endividamento, principalmente num país onde os juros são absurdos. Na verdade não é tão difícil se controlar. É mais uma questão de informação. A maioria das pessoas entra em crise financeira não porque não consiga se controlar, sofra de compulsão ou algo no gênero; em geral é pura falta de planejamento, de organização, de informação. Não sofri muito para colocar a vida em ordem. Ao contrário: minha vida melhorou 100% porque parei de me preocupar o tempo todo com a conta do banco no vermelho.

  • E o que você recomenda para que as pessoas mantenham suas finanças pessoas sob controle?
    Entre meus livros escrevi um para crianças. Planejamento das finanças pessoais é como escovar o dente: uma vez aprendido de criança, vira um hábito. Basta se organizar, ter algumas noções: o que é custo de oportunidade, o que é juro composto. Costumo dizer que se eu consegui colocar minhas finanças em dia qualquer um consegue.

  • Dinheiro é parte do dia-a-dia de todo mundo...
    Muita gente vê dinheiro como uma preocupação menor. Mas, se você não se preocupa com o seu dinheiro, o banqueiro vai achar ótimo. E com o mínimo de organização você consegue viver uma vida financeira mais planejada. Você pode ser antropóloga, socióloga, filósofa, seja o que for, tem de pagar as contas no final do mês. A falta de informação sempre favorece o banco.

  • Qual a sua opinião sobre o projeto Mulheres em Ação?
    Eu acho importante porque investimento não é a mesma coisa para todo mundo. Depende do gênero, da idade, da classe social, da tolerância a riscos, de uma série de fatores. Cada um tem um perfil: homem, mulher, criança, aposentado. Por exemplo: em uma separação, quem fica com os filhos em geral? A mulher. Quem engravida? A mulher. Quem se ausenta do mercado de trabalho porque tem filho? A mulher. As necessidades de planejamento financeiro são muito diferentes.

  • E em relação ao mercado de ações: as mulheres ainda não chegaram lá?
    Não, acho que o problema aí não é uma questão de gênero. É um problema cultural: os brasileiros em geral ainda estão fora do mercado de ações. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde metade da população investe em ações, as mulheres também estão no mercado, inclusive as aposentadas, como mostrou aquele célebre caso do clube das velhinhas que fez uma fortuna na bolsa.

  • As mulheres diferem dos homens no que diz respeito à percepção do risco?
    Tenho a impressão de que a mulher entende melhor os riscos que ela corre. O homem em geral é mais ganancioso: quer lucrar muito e rápido. É comum receber de leitores homens e-mails ou cartas perguntando qual a ação que vai lucrar mais. Como se eu soubesse... Mas veja só que coisa interessante: uma leitora mandou uma carta com a seguinte questão. Ela tinha comprado uma carteira de ações e ao ver a composição da carteira percebeu que constavam ações de uma companhia de cigarros. E, como a carteira era uma poupança para o filho, ela não queria ações de empresas de armas ou tabaco. Acho que se fosse um homem ia se importar mais com os dividendos... Mas essa leitora agiu com um alto sentido de responsabilidade social: faz sentido ter armas ou tabaco na carteira de ações de um filho?

  • O que você lê fora finanças e economia?
    Faço parte de um clube de leitura onde a gente lê um livro por mês, e se reúne toda sexta-feira para discutir. São todas mulheres ligadas ao jornalismo financeiro ou econômico, mas vale qualquer assunto, menos finanças e economia. Atualmente estamos lendo Balzac.

  • As novas tecnologias de informação e as exigências de um mundo cada vez mais globalizado estão deixando as pessoas mais estressadas?
    Temos de nos policiar para poder ter tempo para nós mesmos. Você tem de trabalhar com calma, se não o seu trabalho não fica bom. A principal coisa da vida é ser feliz. Esse é o principal objetivo de todo mundo: não conheço ninguém que não queira ser feliz. O trabalho, as finanças, tudo tem de estar em função disso e não o contrário.
 

Mulheres em Ação entrevista Maria Helena Santana

Primeira mulher a galgar uma posição no escalão mais alto de diretores da Bolsa, Maria Helena Santana é superintendente-executiva de Relações com Empresas da Bovespa. Economista formada pela FEA-USP, é um exemplo de como as mulheres chegam a posições de grande destaque no mercado de capitais. Chefia 30 pessoas e tem papel fundamental no mercado de ações. Supervisiona a divulgação de informações ao mercado de 390 empresas registradas na Bovespa, e mais de 100 na Soma. Num dia típico, Maria Helena monitora os dados que as empresas abertas são obrigadas a fornecer ao mercado e as notícias veiculadas pela mídia, para garantir a transparência das informações.

  • Como você vê o projeto Mulheres em Ação?
    Acho um conceito muito interessante. As empresas têm de fazer uma análise profunda do seu mercado-alvo, segmentar, se possível, esse mercado de acordo com suas características e procurar atingi-lo com a comunicação mais adequada e eficaz. A Bovespa partiu para isso, fez uma pesquisa apurada para conhecer a mulher investidora, como é o relacionamento das mulheres com o mercado de capitais e está desenhando um canal de comunicação mais eficaz com esse segmento.

  • Maria Helena

    Finanças da família ficam com o cônjuge

    Muitas empresas que têm a mulher como um importante mercado-alvo estão chegando à Bovespa: Grendene, Natura, Delboni Auriemo. O momento é favorável para empresas "femininas" abrirem o capital?
    Nosso papel é atrair empresas bem-sucedidas, sólidas, que compreendem o que é ser uma companhia aberta, que esta é uma decisão estratégica com conseqüências positivas para a empresa. Por isso, estão dispostas a arcar com as obrigações decorrentes - prestar contas para o mercado de forma permanente. Muitas já estão há muito maduras para dar esse passo e não creio que haja uma razão especial, conjuntural, para isso. Essas empresas querem ter sua imagem associada ao lado mais moderno da economia e a abertura de capital é importante para isso.

  • Como mulher, você sente alguma dificuldade num mercado até recentemente dominado pelos homens?
    Ser mulher é entrar no mercado de trabalho como minoria. Por ser minoria, a mulher tem de se esforçar mais, superar o preconceito. Ela se dedica mais para obter o reconhecimento que um homem conseguiria, talvez, com menos esforço.

  • Hoje já há três mulheres na diretoria da Bolsa. Algum dia teremos uma mulher presidente?
    Acho difícil porque há poucas mulheres à frente das corretoras. Já tivemos uma mulher no conselho da Bovespa, a Renata Rizkallah, hoje acho difícil que uma mulher tenha representatividade suficiente para chegar à presidência.

  • Pessoalmente, como administra as suas finanças?
    Quem cuida das finanças da família é meu marido. Ele é um profissional de administração de recursos; nada mais natural, portanto, do que ele cuidar dos recursos da família.

  • Há uma 'muralha da China' em casa?
    Na posição em que estou, tenho acesso a informações que ainda não são públicas, não posso falar disso com meu marido. E também não tomo nenhuma decisão de investimento, arranjo que para mim está ótimo.
 
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