Parceria
Trabalhadores que são sócios dos patrões
 
 
  Empresas alargam a base de acionistas

Grandes companhias de capital aberto, como Suzano, Gerdau e Eberle, estão desenvolvendo programas para tornar os funcionários acionistas das empresas. Elas dão, portanto, um passo adiante em relação às políticas destinadas aos quadros da alta administração, que já têm a opção de adquirir papéis (stock-options) como parte da remuneração indireta decorrente dos resultados das empresas e da valorização dos papéis negociados em Bolsa. Os novos programas alcançam todos os níveis funcionais. O que se nota é que nem todas as políticas de venda de ações aos funcionários são idênticas, apresentando características próprias em cada empresa.


Ao completar 100 anos, em 2002, a Gerdau doou um lote de 30 mil ações (equivalente, hoje, a 60 ações) a cada um dos funcionários. A doação ocorreu antes da enorme valorização dos papéis do grupo, que tem atuação internacional e especialização em siderurgia. "Mais importante do que o valor doado é a filosofia, o fato de os empregados se sentirem sócios", observou o vice-presidente-executivo de Finanças e diretor de Relações com os Investidores, Osvaldo Schirmer. A decisão da Gerdau tem como antecedente histórico o fato de que, já nos anos 40, os empregados participavam com cerca de 4% a 5% da empresa. Posteriormente, "o grupo cresceu baseado no mercado de capitais e na geração própria de caixa", segundo Schirmer. A Gerdau tem cerca de 80 mil acionistas e 22 mil empregados - dos quais 2 a 3 mil são acionistas. No Brasil, não faz emissões primárias há oito anos, mas, nos Estados Unidos, a subsidiária Gerdau AmeriSteel captou US$ 300 milhões e tem vários programas de aquisição de ações, tanto para os executivos como para os empregados em geral. O Grupo Gerdau, com ações negociadas na Bovespa e em Nova York, Toronto e Madri, na prática ampliou para o quadro de pessoal o mecanismo de opções de compra de ações da AmeriSteel, como se constata no site da empresa.

Em novembro de 2003, a Suzano Papel e Celulose decidiu ampliar sua base acionária, atraindo pessoas físicas para o quadro de acionistas e assegurando maior liquidez para os papéis da empresa. Os funcionários puderam comprar ações em condições favorecidas. De um total de 4 mil empregados, cerca de 250 (6%) adquiriram ações, pagando por elas preço idêntico ao dos outros novos acionistas (no total, foram 971 pessoas físicas), mas com a vantagem de obter financiamento bancário em 12 meses, a juros de 6% ao ano mais TR, pelo Unibanco e pelo Itaú, contra um juro de mercado estimado pela empresa em 12% mais TR. "Houve, portanto, um subsídio na taxa de juros, que foi pago não pela empresa, mas pelos acionistas controladores", observou o vice-presidente- executivo João Nogueira Batista. Não houve carência: quem quisesse podia vender as ações antes mesmo de pagar o financiamento. Uma nova emissão do grupo está em curso, desta vez, pela Suzano Petroquímica. Serão repetidas as regras para o pessoal comprar ações e a estratégia destinada a ampliar o número de acionistas pessoas físicas. Para estas está reservado, do montante de 28 milhões de ações que serão vendidas (correspondentes a cerca de R$ 200 milhões), um porcentual de 20%. As ações ofertadas não fazem parte de uma nova emissão, mas de papéis já emitidos. "Será uma oferta secundária de ações com vistas a injetar liquidez para os papéis negociados em Bolsa", observou João Nogueira.

João Nogueira Batista
Financiamento para os funcionários
Também no ano passado a Eberle Mundial decidiu oferecer parte do capital aos empregados. Mas, neste caso, o grupo controlador criou um clube de investimento para comprar ações da empresa. As cotas do clube podiam ser integralizadas pelos funcionários em 12 parcelas, sem carência para resgate. Cerca de 900 funcionários aderiram ao clube, que, no início de 2004, tinha um patrimônio de R$ 1 milhão e um aporte médio de R$ 1.200 por empregado. "O clube é apenas o topo do iceberg. Ter o funcionário como sócio é uma postura moderna e o estimula a se desenvolver dentro da empresa", declarou o diretor-superintendente, Michael Ceitlin.

Governança corporativa
O processo de ampliação do número de minoritários está chegando junto com o aumento dos níveis de governança corporativa das empresas. Isso deve ser visto como natural, pois as companhias com melhor governança tendem a ser mais valorizadas em Bolsa. A Suzano Petroquímica, por exemplo, está no nível 2 do Novo Mercado da Bovespa. O Grupo Suzano, segundo o superintendente-executivo de Operações da Bovespa, Ricardo Pinto Nogueira, dá um bom exemplo. "O grupo foi o primeiro a fazer uma distribuição pública pulverizada de ações, dobrando a base de minoritários. Mostrou ao mercado que havia espaço para atrair pessoas físicas, interessadas em comprar ações de empresas com boa governança corporativa. As novas emissões terão uma tranche (parcela) para o varejo", enfatizou o superintendente de Operações da Bovespa. Após a pulverização, foi contratado um formador de mercado para assegurar liquidez e reduzir a volatilidade das cotações, permitindo à Suzano Papel e Celulose o ingresso, em setembro, no índice IBX 50. "Tratou-se de um processo gradual de abertura e adesão à governança."

Distribuição de resultados
Um estudo em fase de elaboração pelo professor José Pastore, da USP, avalia a possibilidade de as empresas pagarem sob a forma de ações o PLR, ou seja, o programa de distribuição anual de resultados. Esta seria uma forma de acelerar a presença dos funcionários como acionistas e ampliar a base acionária das empresas, podendo ser exercida por opção do empregado. As empresas debatem embrionariamente a idéia. Na Gerdau, segundo Schimer, "não é política instituir um PLR para pagamento em ações, mas é possível estimular a aquisição de ações que estão em tesouraria pelos empregados."

É diferente a situação dos executivos. Na prática, muitos já têm - como nos Estados Unidos, porém evitando as distorções que surgiram naquele mercado - o benefício conhecido como stock-options, ou seja, a opção de adquirir ações, que será exercida em caso de alta das cotações. Na Suzano, notou João Nogueira Batista, "para os executivos parte da remuneração é variável e vinculada à performance das ações, sem, contudo, a emissão de novos papéis".

 
 
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