Capital de Risco
Oportunidade para Empreendedores
Théo Carnier
 
  Um mercado crescente para elevar o lucro das carteiras

Impulsionado pelo fortalecimento do mercado de capitais e pelo incentivo à governança corporativa, bem como por sucessivos lançamentos de ações, neste ano o capital empreendedor, também conhecido como capital de risco, prevê dez anos promissores. Esse será o segundo ciclo de uma atividade que começou no Brasil em 1995, quando foi regulamentada, encontrou seu apogeu na época das privatizações e se encerrou no ano passado. Ela diz respeito aos fundos de private equity (que investem em empresas promissoras) e de venture capital (que aplicam em projetos ainda em estágio inicial - portanto, em empresas nascentes). Agora, a perspectiva volta a ser "muito animadora", afirma Álvaro Gonçalves, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), para quem a atividade se mede em ciclos de dez anos. "A segunda safra de fundos de capital de risco vai trabalhar, nesse novo ciclo que se inicia, em um terreno firme e fértil, preparado pelo fortalecimento do mercado, que inclui a Lei das Sociedades Anônimas, a nova Lei de Falências e, principalmente, o Novo Mercado da Bovespa, que foi um catalisador para esse tipo de investimento."

Segundo Gonçalves, atualmente existem 15 fundos de capital empreendedor em operação e 20 em processo de captação de recursos. As aplicações acumuladas somam entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões, e há aproximadamente cem empresas nas carteiras dos fundos. "Ainda é uma parcela reduzida quando comparada aos cerca de US$ 500 bilhões que se investem no mundo via fundos de capital empreendedor, mas o que anima é que o mercado brasileiro tem enorme potencial, que está se confirmando na prática."

Alexandre Saigh, sócio do Banco Pátria, que investe no capital de risco, também está otimista. Com o Novo Mercado, afirma, as empresas emergentes encontraram espaço para mostrar que merecem a confiança do investidor, com a opção pela transparência que é fundamental para quem vai investir. Ao mesmo tempo, afirma, a campanha de popularização da Bovespa trouxe mais aplicadores para o mercado, o que favorece os investimentos em novos negócios, pela diversificação de aplicadores.

Bovespa Mais - A criação do Bovespa Mais, que abrirá espaço às médias empresas, é outro estímulo. "Além da possibilidade de ofertas de ações em volume menor, o Bovespa Mais vai permitir a venda de papéis de forma concentrada, com a perspectiva de uma operação posterior de uma colocação pulverizada", diz Maria Helena Santana, superintendente de Relações com Empresas da Bovespa. "Será um ambiente para empresas promissoras, que acreditam no crescimento e estão comprometidas com a governança corporativa." Além disso, a Bovespa adotou iniciativas em conjunto com a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do Ministério da Ciência e Tecnologia, que dá apoio a empresas emergentes de base tecnológica. E o Fórum Brasil Capital de Risco, em que empresas inovadoras recebem apoio de consultores para apresentar seus projetos a investidores, já selecionou 15 companhias dentro desse perfil.

Assim, o capital de risco encontra ambiente propício para deslanchar. Lançamentos recentes de ações foram feitos por empresas que recorreram ao private equity. É o caso da Gol Linhas Aéreas, que em 2003 recebeu recursos de US$ 26 milhões da AIG Capital Partners; no lançamento dos papéis da empresa, em 2004 passado, o fundo vendeu metade do que investiu, por US$ 86 milhões. Na mesma linha, a Banco Pátria investiu US$ 30 milhões há seis anos na Dasa (Diagnósticos da América, que reúne laboratórios de análises clínicas) e teve retorno de 30% quando vendeu sua participação; animado com esses números, o Pátria planeja investir de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões em capital de risco nos próximos anos.

Álvaro Gonçalves
Um novo ciclo de novas empresas
Esses resultados chamaram a atenção dos fundos de pensão. Um deles é o Petros (fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, o segundo maior do País), como conta seu diretor financeiro e de investimentos, Ricardo Malavazi: "Estamos fazendo este ano, pela primeira vez, investimentos em fundos de venture capital. São seis fundos, no valor total de R$ 70 milhões. Já atuamos em private equity, principalmente em infra-estrutura, como no Fundo Brasil Energia, administrado pelo Banco Pactual." Os fundos estão de olho tanto no potencial de ganho quanto ao aspecto de maturação a longo prazo, que se encaixa naturalmente em seu perfil. "Adotamos essa estratégia de administração do portfólio, porque o capital de risco tem potencial de rentabilidade atrativa a prazos bem mais amplos - superior até ao ganho com os juros", diz Malavazi. "Pelos nossos cálculos, private equity e venture capital devem render em média 15% ao ano acima da inflação, no prazo médio de cinco anos". Por isso, o Petros planeja investir até R$ 100 milhões.

Também o Previ, maior fundo de pensão do País, pretende ampliar sua atuação em capital de risco. Até agora, o fundo (dos funcionários do Banco do Brasil) vinha atuando em private equity, mas decidiu este ano entrar também em venture capital, com investimentos de R$ 350 milhões. A seleção de gestores deve começar em setembro. A entrada dos fundos de pensão é fundamental. Nos EUA, esses fundos dedicam de 5% a 6% de suas aplicações ao capital empreendedor, contra 0,5% na média brasileira.

Juros e tributos - Com a disposição manifestada pelos fundos de pensão brasileiros, essa média tende a crescer rapidamente. "Houve grande avanço no ambiente regulatório, pela Comissão de Valores Mobiliários e pelo Banco Central", diz Carlos Antônio Rocca, sócio do Risk Office e um dos idealizadores do Plano Diretor do Mercado de Capitais. "Esse avanço dá segurança ao investidor e às empresas, injetando ânimo também nas companhias que estão começando e desejam conseguir recursos via mercado de capitais". Rocca prevê que nos próximos anos haverá "forte diversificação" das carteiras dos investidores institucionais. "No ano passado, os aplicadores institucionais investiram um total equivalente a 44% do PIB. Daqui a cinco anos, deverão ter 60% de seus recursos aplicados no setor privado, deixando de lado a preferência por títulos públicos e voltando a atuar sob a perspectiva de queda nos juros. Essa situação vai dar grande impulso ao capital empreendedor."

Por enquanto, os juros são um inimigo. "Muitos investidores preferem a 'segurança' das taxas altas oferecidas pelos títulos públicos. A concorrência é grande, porque juro elevado representa, para muitos, ganho sem a necessidade de correr riscos", diz Álvaro Gonçalves, da ABVCAP. Outro obstáculo é a carga tributária - alta para todos, mas com peso maior para as pequenas e médias, que são o alvo dos investimentos de private equity. Além disso, diz Rocca, leva ao aumento da economia informal, "que é inimiga das empresas que querem se estabelecer e conquistar investidores".

Os obstáculos existem, mas os interessados descobrem como superá-los. Em junho, 12 empresas de origem tecnológica participaram de encontro com investidores para apresentar seus projetos e conseguir recursos. Uma delas foi a Bionext, que produz curativo usado em queimaduras. Segundo Nelson Levy, sócio da empresa, a injeção de capital de um sócio investidor permite investir em novos produtos e em projetos de exportação da companhia.

Para essas empresas, a entrada na Bolsa é uma etapa obrigatória. Além de obter recursos com custo menor que o do empréstimo bancário, elas se comprometem com a transparência para mostrar aos investidores a seriedade de seus planos. "Empresas que desde o começo se comprometem com a governança corporativa merecem a atenção dos fundos de pensão, que fazem aplicações pensando no prazo de 10 a 15 anos", diz Malavazi. "Por isso, é fundamental que elas apliquem práticas do Novo Mercado da Bovespa."

Gonçalves, da ABVCAP, para quem a Bovespa "é uma aliada", comemora a chegada do Bovespa Mais, que trará mais médias empresas para o mercado. "Serão as equivalentes às small caps (pequenas e médias empresas negociadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos)", diz. Sua previsão é de que, em 2010, haverá cerca de mil empresas com ações negociadas na Bolsa, mais que o dobro do número atual. "Acreditamos que de 50% a 60% dessas companhias irão para o mercado com o apoio de private equity e venture capital, mesmo nível dos Estados Unidos."
 
 
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