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Uma década depois, a Localiza chega à Bolsa |
| Jorge Wahl |
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Maior empresa do setor de locação de veículos da América Latina, a Localiza abriu o capital dia 23 de maio, como a 10ª companhia a ingressar do Novo Mercado da Bovespa, que prevê o mais elevado nível de governança corporativa e como a 51ª empresa a compor o Índice de Governança Corporativa (IGC), que inclui também as empresas listadas nos níveis 1 e 2 do Novo Mercado. Ela colocou 21,4 milhões de ações, o equivalente a 34,4% de seu capital (algo em torno de R$ 247 milhões) e usou os canais de mercado mais modernos e apropriados para companhias interessadas em estreitar laços de longo prazo com os acionistas, aos quais são oferecidos mais direitos, maiores garantias e transparência. "Para uma organização que, como a nossa, trabalha em uma atividade que requer muito capital, foi da maior importância iniciar, através da Bovespa, um relacionamento de longo prazo com os investidores", enfatizou o diretor de Relações com Investidores (RI), Sílvio Guerra.
O ingresso de novas empresas na Bovespa é bom para as companhias, que podem se capitalizar, e para a Bolsa, empenhada no desenvolvimento de um mercado secundário maduro, em que os acionistas têm liquidez para suas ações. Em 2004, sete companhias abriram seu capital e captaram R$ 4,5 bilhões. Neste ano, quatro empresas seguiram o exemplo, levantando R$ 1,4 bilhão e outras cinco companhias abertas se preparam para seguir a mesma trajetória. "É através da Bovespa que muitas empresas estão conseguindo obter recursos para desengavetar seus planos de investimentos", enfatiza o estrategista-chefe da Fator Corretora, Cláudio Monteiro.
A Localiza é a primeira locadora de carros a abrir o capital no País, mas nem por isso se deve pensar que os brasileiros estão se atrasando na abertura de companhias do setor. A Hertz, uma das maiores do mundo no setor e controlada pela Ford, ainda se prepara para fazer o mesmo nos Estados Unidos. Liderança - A Localiza é líder absoluta do mercado brasileiro, e abrir o capital era um sonho antigo dos seus sócios. Em 1994, a Localiza começou a se preparar para realizar uma oferta pública inicial de ações (ou seja, uma IPO, na sigla em inglês). Mas, com a crise mexicana e o abalo nos mercados emergentes, o projeto foi adiado. Há cerca de dez anos, a empresa adaptou sua contabilidade à legislação dos Estados Unidos (denominada US GAPP), que é vista como uma das mais exigentes e transparentes do mundo. "Já fizemos o nosso dever de casa e, por isso mesmo, chegamos agora com muita naturalidade ao mercado de capitais", nota o presidente Salim Mattar, chamando a atenção para o longo caminho que preparou a Localiza para os parâmetros de transparência do Novo Mercado.
Além da transparência, a Localiza quer gerar resultados, conforme mostra a experiência dos fundos de investimentos estrangeiros geridos pelo DLJ Merchant Banking e que, em 1997, constituíram uma sociedade, denominada MBPII, para investir US$ 50 milhões na Localiza. Era deles a quase totalidade das ações que agora estão sendo vendidas no processo de abertura do capital, permitindo-lhes sair do negócio com US$ 108,8 milhões, isto é, mais que o dobro do capital investido há apenas oito anos. No lugar desses fundos, a empresa conseguiu atrair, por intermédio do mercado da Bolsa, 785 investidores individuais, que ficaram com 58,3% das ações adquiridas no mercado doméstico.
A Localiza foi fundada em 1973 pelas famílias Mattar e Resende, que hoje mantêm o controle detendo 63,1% do capital. O restante está distribuído entre investidores estrangeiros, com 31,7%; aplicadores institucionais, com 3,01%, além de pessoas físicas e outras pessoas jurídicas, com 2,1%. A empresa iniciou sua trajetória de sucesso a partir de uma única loja, localizada no centro de Belo Horizonte e uma frota formada por seis "Fuscas" usados. Agora, muito robusta, lidera o setor em número de lojas situadas em cidades (é maior que as três empresas que a seguem no ranking, somadas) ou em aeroportos (onde é maior que a soma dos pontos da vice-líder e da terceira companhia do mercado). No total, a Localiza tem 299 agências, mas este número já foi maior - 428, em 2000. Desde então, em busca de racionalizar mais a sua rede, a empresa vem cortando os pontos de atendimento, em especial aqueles instalados em aeroportos pouco utilizados. A eficiência da rede cresceu, observa Guerra, e "com um número 30% menor de franquias passamos a operar um volume 32% superior de carros". A título de comparação, a segunda melhor empresa do mercado brasileiro opera uma rede com 80 agências, um número de três vezes menor do que o da Localiza.
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A empresa tem 16% do mercado brasileiro, ou seja, quase a metade dos 35% de participação no mercado atribuídos às quatro grandes do setor. Nesse grupo, além da Localiza, estão a Unidas, a Avis e a Hertz, com uma frota total da ordem de 33 mil veículos. "Na verdade, como entre as quatro grandes a Localiza é a que tem uma presença mais bem distribuída no País, suas maiores concorrentes acabam sendo as 2 mil pequenas locadoras", resume Guerra. Para Gustavo Alcântara, gestor de fundos da Mercatto, algumas das maiores armas da Localiza nesse mercado são a tradição de mais de três décadas, a marca fortemente lembrada e o fato de ter conseguido transformar em bom negócio a venda de seus automóveis seminovos. Resultados - Os resultados da estratégia de longo prazo da Localiza são expressivos. Entre 2000 e 2001, o faturamento cresceu 35,9%, atingindo R$ 403 milhões, antes da expansão de 13,5% em 2002, para R$ 457 milhões, de 12,7% em 2003 (R$ 516 milhões) e, finalmente, para 19,5% no ano passado, quando atingiu R$ 616 milhões.
No primeiro trimestre de 2005, a Localiza obteve um lucro líquido de R$ 34,2 milhões, que superou em 44,2% o do mesmo período de 2004. Esse crescimento veio, segundo Guerra, da expansão das receitas líquidas de aluguéis e vendas, que aumentaram 47,1%, passando de R$ 146,8 milhões para R$ 216 milhões entre os primeiros três meses de 2004 e de 2005. O crescimento decorreu do aumento do volume de diárias de aluguel de carros e da quantidade e do preço dos automóveis usados vendidos para reposição. O aumento do lucro líquido decorreu, ainda, do crescimento da diferença entre os valores de venda e de custo dos carros vendidos, bem como da expansão da estrutura de vendas de carros. E o lucro bruto aumentou 41,2%, saltando de R$ 55,6 milhões, no primeiro trimestre de 2004, para R$ 78,6 milhões, em igual período deste ano.
Para Guerra, há muitas razões que explicam os resultados da Localiza. A primeira é a existência de uma plataforma de negócios sinérgicos que combina aluguel de carros, franchising, administração de frotas e uma rede de pontos-de-venda de carros usados. Todos esses elementos, acredita a empresa, proporcionam a ela um grande diferencial competitivo, uma vez que todas são operações complementares, que ainda garantem margens competitivas e boa performance financeira. Outros fatores de sucesso mencionados são as dimensões da rede de agências (além do Brasil, a Localiza está em sete países da América Latina) e, em conseqüência, a escala dos negócios.
A tecnologia também tem um peso importante. A rede de telecomunicações da Localiza permite o tráfego de voz e dados com segurança e rapidez, proporcionando um gerenciamento eficiente de informações. E um sistema de gerenciamento de receitas e formação de preços, conhecido como yeld management, ajuda a melhorar a rentabilidade. Por isso, essa ferramenta de gestão de preços foi estendida a todos os negócios da companhia.
O futuro, acreditam os estrategistas da empresa, dependerá mais do estreitamento dos laços com o mercado, cuja receita já é conhecida. Por exemplo, a Localiza abriu um site destinado ao incremento das relações com os investidores (www.localiza.com/ri) e, ainda neste ano, pretende realizar ao menos uma apresentação de novos dados (non deal road show), duas conferências telefônicas e participar de reuniões com analistas. |
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O perfil do empreendedor
O êxito da Localiza confunde-se com o do empreendedor Salim Mattar, presidente da empresa desde sua fundação, em 1973, quando havia apenas seis "Fuscas" para alugar, todos adquiridos a prazo. E a companhia nasceu justamente no ano do primeiro choque do petróleo, o da Guerra dos Seis Dias de Israel com os países árabes, quando explodiram os preços dos combustíveis. Quando veio o segundo choque do petróleo, em 1979 - e por causa do aumento dos preços dos combustíveis -, muitos negócios encolheram mundo afora. Bem nesse momento Mattar decidiu trocar prudência por ousadia, adotar uma agressiva estratégia de aquisições e expandir as operações da sua locadora de Belo Horizonte para o Norte e o Nordeste.
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| Salim Mattar |
| Em 1973, apenas seis "Fuscas" |
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"Crescer em momentos difíceis é uma característica da Localiza", resume. "Quando todos pensam de um jeito, é preciso pensar diferente. Fazendo exatamente o oposto, temos 100% de chance de dar certo." Essa e outras lições fizeram dele o inspirador da Localiza atual, a maior locadora de automóveis do País, com 300 agências em oito países e uma frota de 35 mil carros.
Nascido em Oliveira, interior de Minas Gerais, e filho de libaneses, Mattar começou a trabalhar aos 8 anos. Em depoimento à revista Vencer, falou dos primeiros passos: "Pedi uma bicicleta e meu pai me deu dois sacos e um canivete", recorda. "Um dia, ele me levou para um sítio onde me orientou a colher as melhores laranjas". Dali, foram para a porta do estádio de futebol da cidade. Enquanto, meio envergonhado, descascava as frutas, ouvia o pai gritar para atrair a freguesia: "laranja doce, quem vai querer?" Ao chegar em casa, recebeu a féria do dia, descontado o custo dos sacos e o canivete. "Aprendi como comprar a bicicleta e o que mais quisesse na vida".
Outra lição foi recebida na adolescência, quando Mattar morava na cidadezinha mineira em que nasceu e constatou que o tratamento humano e diferenciado abre e conserva abertos os canais de relacionamento. Trabalhando no armazém de secos e molhados da família, não entendia por que eram oferecidos aos clientes tantos descontos. E ouviu de seu pai a explicação de que esse era o jeito de consolidar uma relação duradoura.
O primeiro emprego foi como office-boy de uma construtora, em Belo Horizonte. Bem mais tarde, já empresário consagrado e ganhador de prêmios, os ensinamentos continuam sendo fonte de inspiração. As lições aprendidas na infância e juventude foram reforçadas. Clientela, acredita, gosta de carinho, perder cliente custa caro e todo momento de crise é uma boa época para crescer. |
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