Histórias de Bolsa
O fio do bigode
 
 
 
Theodoro Quartim Barbosa

No passado, o valor da palavra empenhada

Houve um tempo em que o fio do bigode e a palavra dada valiam tanto ou mais do que uma escritura. Em fins dos anos 60, promulgada a Lei 4.728/65, que regulou o mercado de capitais, começava a ser implantado o modelo de mercado financeiro segmentado e as instituições pediam ao Banco Central permissão para abrir companhias de crédito, financiamento e investimento, de crédito imobiliário e bancos de investimento, bastando integralizar parte do capital e comprovar alguma experiência.

Predominavam, então, figuras tradicionais como José Maria Whitaker, Gastão Vidigal, Walther Moreira Salles, Magalhães Pinto, Alfredo Egydio de Souza Aranha (tio de Olavo Setúbal, que com José Carlos Moraes Abreu fundara o Federal Itaú, em 1964, iniciando sua trajetória bem-sucedida), Aloisio Foz, Luiz de Moraes Barros, Amador Aguiar, Eudoro Villela, João Nantes, Adolpho da Silva Gordo e Avelino Vieira -, alguns dos quais titulares de bancos que acabaram caindo no ranking do setor ou que, simplesmente, desapareceram, como o Banco do Commercio e Indústria de São Paulo, em cujo prédio está localizada, desde os anos 80, a Bolsa de Valores de São Paulo.

No auge da história do Commercio e Indústria, uma figura se destacava pela extrema austeridade, a de Theodoro Quartim Barbosa, com suas enormes sobrancelhas brancas. Um episódio dos anos 60, com o doutor Theodoro, como era chamado, retrata o velho (e saudoso) Brasil.

Os Bancos do Commercio e Indústria e Francês e Italiano detinham, cada qual, a metade das ações de uma próspera instituição de financiamento do crédito varejista, a Comit. Theodoro resolveu comprar a parte dos italianos e convidou os diretores do Francês e Italiano a visitá-lo no 3o andar. O doutor Theodoro definiu um valor que julgou correto e propôs a operação de compra. Os italianos concordaram com a avaliação, mas fizeram um reparo. "Pelo preço proposto, nós compramos sua parte", disseram ao presidente do Commercio e Indústria. E ocorreu o que hoje pareceria improvável. Impassível, o doutor Theodoro concordou e chamou os advogados para fazer os contratos, como relata um jornalista que conheceu de perto os bastidores do banco, Robert Appy. O doutor Theodoro vendeu os 50% da Comit para os italianos e, pouco tempo depois, fundou outra financeira, a Comind, partindo do zero.

Numa época em que as negociações verbais de compra e venda de instituições tinham tanta força quanto continuam tendo hoje as transações fechadas em Bolsa, o gesto de Theodoro Quartim Barbosa simbolizou o valor da palavra e o conceito do preço "justo". Se era "justo" para ele, por que deixaria de ser "justo" também para o vendedor? Uma cena, convenha-se, inimaginável nos tempos atuais, em que não se pede licença para fazer uma proposta hostil e tentar tomar o controle de uma empresa nas grandes bolsas do mundo.
 
 
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