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Histórias de Sucesso |
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Raul Randon |
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José Antônio Ribeiro |
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O império que brotou das cinzas
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| Raul Randon
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| "Estamos cercados de gente boa. Sem ela, não é possível crescer" |
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Caxias do Sul (SC), 2 de maio de 1951, domingo, dia de Nossa Senhora do Caravaggio. Um incêndio transforma em cinzas a pequena oficina metalúrgica dos irmãos Ercílio e Raul Randon. Naquele dia, os jovens, filhos do ferreiro Abramo e netos do italiano Luiz Cristof Randon, que chegou ao Brasil em 1888 para trabalhar na agricultura, não entenderam os desígnios da santa, muito venerada pela colônia italiana: um castigo? Hoje, Raul diz que foi uma bênção: "A santa deve ter pensado. Esse negócio de produzir máquinas tipográficas não vai dar em nada. Vamos destruir isso para que eles criem uma coisa melhor". No início de 1953, os dois irmãos inauguraram a Mecânica Randon Ltda., uma pequena fábrica de freios a ar que, aos poucos, foi ampliando e diversificando sua linha de produtos destinados ao transporte de cargas. "Perdemos a pequena oficina, mas não perdemos a vontade de trabalhar", lembra Raul. A pequena mecânica transformou-se num império. A grande arrancada ocorreu, principalmente, a partir de 1971, quando abriu o capital e construiu uma moderna fábrica. Agora, a Randon Implementos e Participações é a holding de um conjunto de sete empresas que atuam nas áreas de implementos rodoviários, vagões ferroviários, veículos especiais, autopeças, sistemas automotivos e serviços. Com 6.600 empregados e produtos colocados em mais de 100 países, diretamente pela rede própria de distribuição e por suas joint ventures, a empresa gaúcha exportou US$ 34,1 milhões no primeiro trimestre, com expansão de 62% em relação ao mesmo período do ano passado, apesar da valorização do real. Em 2004, as exportações já haviam crescido 21,2%, fechando o ano em US$ 118,5 milhões. Para 2005, espera vendas externas entre US$ 140 milhões e US$ 150 milhões.
O presidente Raul Anselmo Randon e Astor Milton Schmitt, diretor corporativo, comemoram: "Sob todos os pontos de vista, 2004 foi o melhor ano da história da empresa". E, com base nos resultados do primeiro trimestre, acreditam que a dose poderá se repetir em 2005. O otimismo se justifica. Após amargar prejuízo em 2000, a empresa consolidou um processo de forte recuperação iniciado em 2001 e recuperou o bom desempenho a partir de 2002, culminando com lucro líquido de R$ 124,9 milhões no ano passado, 78% a mais que em 2003. No primeiro trimestre deste ano, o lucro líquido consolidado atingiu R$ 33 milhões, 35% a mais que no mesmo período de 2004; a receita líquida consolidada cresceu 33%, alcançando R$ 467,3 milhões no trimestre. A geração bruta de caixa consolidada (Ebitda) fechou 2004 em R$ 309,3 milhões, com margem de 19%, acima dos R$ 168,2 milhões e 15% alcançados em 2003.
Os negócios do grupo correspondem a duas grandes divisões: veículos (reboques, semi-reboques, vagões ferroviários e caminhões fora-de-estrada), responsável por aproximadamente 48% do faturamento geral; componentes (peças, sistemas e serviços), com os restantes 52%, onde operam três joint ventures: Master Sistemas Automotivos, maior fabricante nacional de freios a ar para veículos comerciais, criada em 1986 com a americana ArvinMeritor; Jost Brasil, líder nacional na fabricação de sistemas de acoplamento e articulação para caminhões, criada em 1995 com a Jost-Werke da Alemanha; e Suspensys Sistemas Automotivos, criada em 2002 também com a americana ArvinMeritor, hoje uma das maiores fabricantes mundiais de vigas de eixo para veículos comerciais. A Randon estima que 50% da frota de carretas que circulam pelas estradas brasileiras levam sua marca, o que corresponde a 140 mil veículos.
As ações preferenciais da Randon S.A. Implementos e Participações valorizaram 159,4% no exercício de 2004, encerrando o mês de dezembro cotadas a R$ 7,47. No ano, foram realizados no mercado à vista da Bovespa 11.708 negócios, que movimentaram R$ 37 milhões de ações preferenciais. O volume médio diário de negócios ficou em R$ 766 mil (R$ 162 mil em 2003). Considerando o mercado de ações importante fonte de recursos, a Randon valoriza as práticas de governança corporativa. Em novembro do ano passado, a Fras-le S.A., uma de suas controladas, formalizou adesão ao nível 1 das Práticas Diferenciadas de Governança Corporativa da Bovespa no mercado à vista.
Neto de agricultor e filho de ferreiro, Raul Anselmo Randon, 76 anos incompletos, herdou o lado camponês do avô italiano, Luiz Cristof Randon, que desembarcou no Rio de Janeiro no dia 12 de maio de 1988, aos 21 anos, com destino ao município de Caxias do Sul (RS). Do pai, Abramo Randon, ferreiro e forjador, ficou com a vertente industrial. De ambos, o amor ao trabalho. Ele garante: "Meu maior lazer é trabalhar todos os dias".
Mas e nos fins de semana? "Antes gostava de caçar, mas parei quando percebi que o cachorro começou a andar mais rápido que eu". Além de industrial de sucesso, Raul Randon tem seu lado agropecuarista bem- sucedido em Vacaria (RS), onde normalmente passa os fins de semana na fazenda que produz 32 toneladas de queijo por mês, uva, soja, milho e outros produtos. Para ele, não é difícil conciliar atividade industrial com os negócios da fazenda: "Temos lá pessoal especializado que cuida de tudo. São mais de 700 funcionários nas diversas atividades da fazenda".
Sem fanatismo, torce pelo Grêmio em Porto Alegre e o Juventude em Caxias do Sul. Mas não costuma ir ao estádio. Se alguém comenta que não dispensa um carteado com amigos, reage: "Mas não se joga a dinheiro". E o que é mais rentável, indústria ou fazenda? "Certamente, a indústria. Fazenda depende também de São Pedro".
Em 15 de junho passado, um dia antes de receber da Agência Estado o prêmio pelo segundo lugar no ranking das melhores empresas de capital aberto de 2004, o presidente Raul Randon, ao lado do diretor Astor Milton Schmitt, concedeu a entrevista cujos trechos principais vêm a seguir:
- As empresas que integram a holding são consideradas lideres nos seus segmentos. Quais as vantagens e desvantagens da liderança?
- Desvantagem não há. O que existe é a preocupação em manter a liderança. Isso se faz com mão-de-obra boa. A Randon sempre valorizou esse aspecto. Estamos cercados de gente boa. Quem não fizer isso não consegue crescer. A liderança é uma conquista. A manutenção da liderança é um desafio.
- O que caracteriza uma empresa global?
- Há quem pense que a Randon é uma empresa familiar. Não é verdade. O controle é familiar, a gestão é profissional. A Randon pode ser considerada empresa global. Tem acionistas e investidores fora do País através do mercado de ações; tem sócios com presença global, clientes nos cinco continentes, fornecedores em escala global, desenvolve negócios no mundo todo. Sua estrutura é cada vez mais capilarizada, tem centros de distribuição na Argentina e nos EUA, vários escritórios comerciais na Europa, EUA, México, Argentina e Chile, distribuidores e concessionários em vários países, montadores em diversos países da África. Tem, portanto, bons motivos para se considerar uma empresa global.
- Valeu a pena abrir o capital em 1971, com lançamento de ações, quando as bolsas iniciavam uma forte tendência de queda?
- Quando o mercado ainda estava eufórico e as pessoas vendiam até apartamento para comprar ações foi que fechamos o contrato com o Arão Birmann, dono do Grupo Crefisul, para abertura do capital. Em seguida, os preços começaram a cair e, mesmo assim, negociamos as ações com o Birmann por um preço ainda bom. Ele ficou com os papéis em carteira. Quatro anos depois recompramos os papéis a uma cotação inferior ao que ele nos havia pago. Desde então, vemos o mercado de ações como bom parceiro e uma boa alternativa de captação de recursos. De 1972 até agora, a Randon foi ao mercado periodicamente e obteve sempre recursos muito importantes para seus projetos de expansão e desenvolvimento.
- O que motivou a empresa a recorrer ao mercado de ações?
- Em 1970, aproveitando uma viagem à Itália e à Alemanha, eu (Raul) visitei algumas feiras relacionadas às nossas atividades e fiquei encantado com o nível de desenvolvimento econômico e com o dinamismo do setor de transporte. Convenci-me de que o Brasil também iria crescer e crescimento econômico não se faz sem equipamentos para movimentação de cargas. Quando voltei, decidimos montar uma fábrica com capacidade para mil semi-reboques por mês. Na época produzíamos 700 unidades. Fizemos o projeto, o BNDES-Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (na época, BNDE) financiou a fábrica, com prazo de oito anos. Depois, com o lançamento de ações, utilizamos também o mecanismo da Embramec-Empresa Brasileira de Mercado de Capitais, porque os controladores nem sempre tinham recursos suficientes para acompanhar o aumento de capital. O BNDES financiava o controlador e ficava com as ações em garantia. Fomos pagando as ações por mês e amortizando o financiamento. Com a abertura dessa moderna fábrica para os padrões da época, a Randon Veículos se transformou, em 1974, na primeira montadora nacional de veículos automotores pesados (caminhões fora-de-estrada) do sul do País.
- Na situação atual das bolsas, a Randon recorreria ao mercado para novos investimentos?
- Em algum momento, a empresa certamente voltará ao mercado. Ela está nele, é uma empresa aberta. Mas, é claro, sempre se escolhe um momento favorável para essa iniciativa. É de conhecimento público que acabamos de cancelar um projeto de oferta secundária de ações, porque os acionistas vendedores consideraram que, com a recente queda dos preços, seria saudável esperar uma oportunidade melhor. Para uma oferta primária, vale o mesmo raciocínio: conjugar momento adequado com necessidade da empresa.
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| Raul Randon |
| "Recorremos ao mercado de capitais conforme o momento da economia" |
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Existem várias fontes de recursos para novos investimentos. Quais são os mais adequados?
- As linhas de financiamento de longo prazo do BNDES e do IFC (Corporação Financeira Internacional do Banco Mundial, que financia investimentos do setor privado em países em desenvolvimento) são bastante atraentes. O BNDES normalmente é mais atraente porque opera com moeda nacional, sem riscos da variação cambial.
- E os recursos do mercado de ações?
- Temos tido sempre uma política bem definida com relação às necessidades de recursos para investimentos. Nosso desenho básico é este: do que for percebido como boa opção de investimento, em torno de 50%, no mínimo, deve ser feito com recursos próprios - é a política corporativa. Para os outros 50%, além do BNDES e IFC, que têm sido parceiros importantes para nossos projetos, utilizamos recursos de sócios atuais ou alguns que possam surgir. E, como é uma prática generalizada no Brasil, recorremos também a programas de incentivos, subsídios e vantagens fiscais que o País propicia para projetos de expansão e desenvolvimento; e, lógico, recorremos ao mercado de capitais. Não é ordem de prioridade. A prioridade depende das condições e das perspectivas de cada segmento no momento em que se decide captar recursos.
- Quando o senhor se refere a recursos captados no mercado tem em mente, também, investidores institucionais de outros países?
- Nossos investidores são basicamente nacionais. Mas, se nos basearmos em informações dos indicadores de mercado, o apetite de investidores estrangeiros por papéis brasileiros é crescente, o que se verifica pelo grande volume de investimentos externos na Bovespa. A Randon, obviamente, desenvolve um grande trabalho de marketing, de divulgação, de governança corporativa e de presença no mercado para atrair os investidores. Afinal, para se colocar papel no mercado, é preciso ter comprador. No Rio Grande do Sul dizemos que "se um não quer dois não brigam". A versão pacifista também é válida: para captar recursos é preciso que haja interesse da empresa e do investidor.
- Como a empresa vê o papel de parcerias e associações?
- A Randon sempre procurou fazer joint venture, não apenas para atrair recursos financeiros, mas também para abrir novos mercados a seus produtos. Nossos parceiros em joint ventures são multinacionais americanas e alemãs, que agregam mercado e tecnologia. Por outro lado, esses parceiros contribuíram para que a Randon se consolidasse como uma empresa global. Junto com os sócios, alcançamos os principais mercados mundiais.
- O bom desempenho das exportações resulta disso?
- Sem dúvida, nossas joint ventures têm papel muito importante. Mas, paralelamente, sobretudo em nossos produtos finais (reboques, semi-reboques, caminhões fora-de-estrada, entre outros), atuamos com nossa estrutura de distribuição, que tem feito um bom trabalho de desenvolvimento de mercado e de progressiva penetração na América Latina, Mercosul, África e Oriente Médio. É preciso lembrar também que temos uma longa tradição de mercado externo. Começamos a exportar em 1973. São, portanto, mais de 30 anos de persistência. Uma das bases de qualquer negócio de sucesso é ser persistente e acreditar no que se faz. Estamos presentes em mais de 100 países.
- O que a empresa considera como porcentual ideal de exportações em relação ao faturamento global?
- Consideramos ideal um porcentual de 30% a 35% de exportação, com base no seguinte cálculo: se as exportações caem, ainda ficam os 70% e a empresa sofre menos. Agora, se a empresa estiver, por exemplo, com 50% de exportação e essa receita cair muito em conseqüência de retração do mercado ou da desvalorização do dólar em relação à moeda nacional, o baque é muito grande.
- O que a Randon faz para valorizar e manter seus colaboradores?
-Temos várias iniciativas para colaboradores e dependentes. Por exemplo: promovemos cursos de capacitação e aperfeiçoamento, temos convênio com universidades, inclusive no exterior, para aperfeiçoamento de executivos; temos convênio com o Senai; proporcionamos plano integral de saúde. A Randon foi uma das pioneiras a adotar, desde o chão de fábrica, programas de remuneração complementar variável por desempenho. Em 2004, a remuneração variável e o prêmio por metas atingidas elevou a remuneração para 14 a 15 salários/ano.
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