Internacional
CalPERS, o fundo que não quer mudar
Maria Helena Passos
 
 
Robert Feckner
Ativismo político em defesa do regime de benefício definido
Se há um gigante entre os investidores americanos, este é o fundo de pensão CalPERS, com sede na Califórnia, ativos de US$ 183 bilhões de 1,4 milhão de participantes, entre os quais funcionários públicos estaduais ativos e um enorme contingente de aposentados e suas respectivas famílias. Todos usufruem ou são candidatos a benefícios de aposentadoria, licença de saúde e assistência médica para doenças longas.

O CalPERS é uma verdadeira instituição financeira com recordes históricos de rentabilidade nos anos 90, mas hoje luta para fechar o exercício anual com rentabilidade líquida próxima de um dígito, pouco abaixo de 10% em 12 meses. O desempenho não destoa do dos fundos congêneres - aliás, a instituição californiana tem leve vantagem, ficando acima da média mas com comportamento que segue o andar da carruagem do mercado norte-americano.

O que há de novo no California Public Employee's Retirement System (CalPERS) é que ele hoje enfrenta uma pressão relevante do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, republicano, responsável pela indicação de dois dos 13 membros da diretoria. O governador quer ver o CalPERS privatizado e no sistema de contribuição definida (em que o participante sabe quanto deposita, mas não sabe com quanto vai se aposentar). Ou seja, quer mudar o sistema que vige desde 1931 - o de benefício definido, em que o valor da aposentadoria é previamente conhecido. Há 74 anos, o CalPERS foi criado por lei estadual.

Schwarzenegger sonha implantar um modelo semelhante ao do 401K, que predomina nos fundos de aposentadoria privada dos EUA. A briga parece longe do final. Na direção do CalPERS predominam os democratas. Seu ex-presidente, Sean Harrigan, foi afastado em dezembro do cargo pela diretoria, em função de sua atividade política em prol do sistema de benefício definido, na contramão das corporações privadas. Robert Feckner, atual comandante da instituição, não parece disposto a abandonar a militância na defesa dos interesses de acionistas, transparência e boa governança corporativa, brigando para transformar traumas, como os da quebra da Enron e WorldCom, em mais do que reminiscências.

No ano passado, o CalPERS concedeu benefícios a 1,002 milhão de membros ativos e inativos e a 416.783 aposentados. É gente que faz parte, em proporções iguais, do serviço público estadual, das escolas públicas do Estado da Califórnia e de agências estatais da unidade federada.

O funcionamento do CalPERS é conhecido dos participantes de fundos estatais de pensão brasileiros: quanto mais tempo de serviço tiver ou mais velho for o participante, maior será o benefício. Em alguns casos, familiares de participantes falecidos também recebem pensões. O fundo ainda provê auxílio para quem sofre de moléstia incapacitante para o trabalho. E os participantes têm acesso a oito programas de saúde.

Originalmente, o fundo de pensão incluía apenas os funcionários públicos da administração direta do Estado. Mas no oitavo ano de funcionamento, incorporou os funcionários de escolas (não professores) e os empregados nas agências estatais. Benefícios de saúde foram incorporados nos anos 60 e, depois, expandidos para abranger todo tipo de participante do CalPERS. Na metade dos anos 90, um novo produto foi incorporado: seguros de assistência médica de longo prazo a base de custo.

Nada menos de 80% da renda obtida pelo CalPERS no exercíciode 2003/2004, de US$ 24,272 bilhões, veio de investimentos e outros tipos de renda. Os empregados fizeram aportes de 13% e os demais membros, o restante. O CalPERS tem dimensão internacional. As despesas administrativas rondam US$ 250 milhões anuais, 1,4% dos ativos.

Desde os anos 80, o ativismo é marca do CalPERS, que clamou contra os benefícios pagos ao ex-presidente da Bolsa de Nova York, Richard Grasso, abrindo um processo que levou à saída de Grasso.

A diretoria do fundo é assessorada por um comitê de investimentos, gerentes e mais de 160 profissionais que tocam as atividades diárias do programa de investimento. Instalados no Lincoln Plaza, na capital da Califórnia, Sacramento, está preparando um edifício adicional para trabalhar, no centro da cidade.

Sindicatos formam as principais forças representativas na gerência do fundo, cuja diretoria tem seis membros eleitos, dois apontados pelo governador da Califórnia, um por um comitê do Legislativo, e mais quatro estatutariamente designados. Feckner veio de Nevada, onde nasceu, e do California Board School Association (associação dos diretores de escola da Califórnia). Trabalhou como motorista de escola por décadas, como empregado da Napa Valley Unified School District, onde, hoje, é especialista em vidraçaria. Feckner se vê como um moderado, foi republicano e, há 17 anos, tornou-se democrata.

Os ativos do CalPERS são diversificados: os papéis de renda fixa emitidos no mercado internacional representam 25,9% da carteira e têm valor de mercado de US$ 46,7 bilhões. As ações correspondem a US$ 72 bilhões investidos no mercado acionário americano (39,9% dos recursos do fundo), mais US$ 40,7 bilhões em ações do exterior (22,6% dos ativos). A participação direta em empresas abocanha US$ 8,5 bilhões e corresponde a 6% da carteira do CalPERS.

Em resumo, as ações abocanham 66% (US$ 121 bilhões) do patrimônio do fundo, que destina ainda 6,2% dos seus ativos à aquisição de imóveis (US$ 11,2 bilhões).

A folha de pagamento do CalPERS referente a 1.687 funcionários implica um gasto administrativo entre US$ 230 e US$ 250 milhões por ano. Os fundos oriundos dos recursos dos participantes têm declinado de 2000 para cá. Em 2002, o fundo lançou um plano de ação e princípios para a reforma do mercado financeiro, para evitar abusos contábeis como o que tornou a Enron insolvente. No ano seguinte, denunciou a necessidade de expatriar empresas do mercado de modo a restaurar a confiança do investidor norte-americano no mercado. Adotou um plano para acabar com os abusos na compensação aos executivos nas empresas em que investe.

E ainda processou a Bolsa de Valores de Nova York por abusos cometidos por corretores especialistas que prejudicaram investidores.

O CalPERS é classificado como investment grade (com baixíssimo risco de insolvência) pelas agências de classificação de risco, com nota máxima. Adotou práticas politicamente corretas em sua política de investimentos - por exemplo, uma de suas campanhas pretende que os recursos sejam aplicados em empresas que cuidam do meio ambiente - e chegou, no ano fiscal que está terminando, ao recorde histórico de ativos.

A seguir, Robert Feckner discute alguns aspectos desse gigante do investimento em entrevista, por telefone, à REVISTA BOVESPA.
  • Antes de sua posse, em fevereiro, o CalPERS registrara lucratividade baixa durante dois anos. Qual o diagnóstico dos resultados magros?
    - Tivemos algumas perdas em 2001 e 2002, como todos os investidores. Mas os resultados foram melhores do que o da maioria dos fundos de pensão públicos nos EUA.

  • Como administra recursos tão vultosos como os do CalPERS?
    - Em dez anos, teremos de diversificar o portfólio e buscar programas que gerem retornos adicionais para o fundo. Alguns dos programas serão, sem dúvida, os fundos de governança corporativa, os de hedge e os de investimentos nos mercados emergentes.

  • Os mercados emergentes também são alternativa interessante para investir no momento?
    - Sim, Há algumas oportunidades específicas na América Latina. Observe que o Latin América Index registra uma alta de 34% em moedas locais - e este é um patamar de ótimo negócio.

  • Com a Europa em dificuldades para aprovar sua Carta, as alternativas de investimento em mercados emergentes são mais atraentes, não?
    - Pode ser.

  • O CalPERS tem se interessado em investir na Ásia. Há alguma razão?
    - Acredito que você se refira à notícia de que estamos explorando fundos de hedge na Ásia. Nosso pessoal realmente viajou para lá recentemente e manteve contato com vários gerentes de fundos de hedge em Tóquio, Hong Kong e Cingapura, como Sparks Asset Management and Vision Investment Management e KBC Alpha Asset Management. Mas, de fato, não temos no momento nenhum investimento por lá. E, por ora, não planejamos mudanças em relação a ações e bônus.

  • O dólar em queda no mercado de câmbio internacional preocupa de algum modo?
    - Já preocupou mais. Três meses atrás, a situação era pior. O dólar se fortaleceu nos últimos dois meses.

  • Como avalia, em tal cenário, o comportamento do mercado acionário norte-americano neste ano?
    - Ele está particularmente fraco. Por uma série de motivos, creio que o mercado está subvalorizado. As pessoas estão preocupadas com a perspectiva de mais puxões na taxa de juros pelo Fed. As taxas subiram 3 pontos porcentuais neste ano e os analistas esperam mais 0,75 ponto até o final do ano. Ao mesmo tempo, o barril de petróleo tem fechado ao preço de US$ 60 o barril. E há muita preocupação de que os gastos dos consumidores estejam em processo de desaceleração. E há receio de uma inflação maior, derivada do preço das commodities e de pressões salariais. Decididamente, o cenário é complicado e pouco promissor.

  • Quanto o CalPERS investe em venture capital, aquisições de controle e fundos imobiliários?
    - Os investimentos em private equity (venture capital, aquisição de controle) atualmente representam 5% do total de ativos. Já as aplicações imobiliárias correspondem a 6,2%.

  • Quanto ao mercado imobiliário nos EUA, acredita que há bolha?
    - Não diria que haja uma bolha. Temos um portfélio imobiliário muito diversificado. Cada segmento imobiliário reage diferentemente a alterações no mercado. Na verdade, acredito que há algumas oportunidades consideráveis no momento para que apropriemos alguns ganhos com nossa carteira imobiliária. Nos últimos seis a oito meses, fizemos uma mudança gradual na carteira: vendemos mais do nosso principal tipo de ativos (edifícios comerciais) e mais ênfase aos investimentos em segmentos especializados, como moradias urbanas.

  • Qual sua opinião acerca do ativismo que o CalPERS exerceu desde os anos 80 no meio corporativo norte-americano? Acha que esse tipo de postura deu frutos?
    - Nós tivemos um número grande de sucessos nas últimas décadas. Duas coisas, em particular, considero importantes. A primeira é a de que nosso ativismo fez com que os mercados financeiros se tornassem um lugar melhor para investidores e acionistas. Há hoje maiores proteções para os acionistas no mercado. Nossos interesses, na maioria dos casos, estão alinhados com a gestão corporativa e as diretorias das corporações. Mais importante ainda, é que nosso ativismo adicionou valor a nossos fundos. Um estudo da Wilshire Associates avaliou o efeito da presença do CalPERS e suas ações de governança corporativa no desempenho de 113 companhias onde investiu entre 1987 e 2003: as ações dessas companhias ficaram 97% abaixo de seu parâmetro de mercado (os índices do Standart & Poor's 500 ou o Dow Jones Wilshire 4500) durante os cinco anos anteriores ao ativismo e superaram os índices em 8% nos cinco anos seguintes.

  • O CalPERS foi muito citado por apontar os valores elevados pagos a Richard Grasso, ex-presidente da Bolsa de Valores de Nova York...
    - Para nós, o pagamento de executivos é um assunto importante, assim como para muitos outros investidores institucionais. Pode conduzir ao comportamento errado se a conferência e as contas adequadas não são feitas ou se não há pacotes de compensação atrelados ao desempenho do profissional. As corporações devem pagar salários competitivos para atrair e reter talentos. Mas é necessário ligar esse procedimento a um desempenho sustentável de longo prazo. Em junho, a diretoria decidiu publicar uma lista de pacotes de pagamentos conspícuos e criticar os piores infratores das regras de compensação dos executivos. Estamos pedindo às empresas que definam políticas melhores de compensação de executivos e obtenham o aval dos acionistas para adotá-las.

  • A Lei Sarbanes-Oxley, introduzida nos EUA após 2002, tem sido adequadamente adotada? Ela é apropriada para resolver questões de transparência e governança corporativa nos mercados?
    - A Lei Sarbanes-Oxley foi um passo significativo rumo à reforma do mercado financeiro e da proteção ao investidor. De fato, ajudou a esculpir a escultura. Ela demanda mais supervisão e independência nas instâncias de diretorias e requer que os presidentes de uma companhia certifiquem-se da acurácia dos balanços financeiros.

  • Algumas corporações dizem que os procedimentos requeridos pela Lei Sarbanes-Oxley estão indo longe demais...
    - Absolutamente não. Nosso fundo de pensão sofreu por causa de todos os escândalos que se produziu no mercado. Nós necessitamos que a Sarbanes-Oxley aperte e reforce a integridade no mercado norte-americano e restaure a confiança do investidor.

  • O governador da Califórnia, o republicano Arnold Schwarzenegger, é favorável a transformar os fundos de pensão públicos em privados, possivelmente adotando o mesmo modelo do mais popular fundo dos Estados Unidos, o 401K. Que pensa a esse respeito?
    - Não é um plano bem pensado. Se vingar, prejudicará a segurança da aposentadoria de futuros membros do fundo e a nossa habilidade de investir ativos apropriadamente no longo prazo.
 
 
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