Mayana Zatz é uma das mais conhecidas cientistas brasileiras. Professora da USP, é especialista em genética humana e médica. Tornou-se referência nacional em questões ligadas à pesquisa genética, e assumiu papel preponderante na discussão pública que acabou levando à aprovação da Lei de Biosegurança.
A senhora fez uma carreira brilhante como cientista. O fato de ser mulher desempenhou algum papel nessa trajetória? - A carreira profissional se torna mais difícil no momento em que a mulher decide ter filhos. Aí a dupla jornada de trabalho fica pesada. Isso explica por que há menos mulheres nas posições de chefia: em geral, quando a mulher conquista um ponto mais alto na carreira profissional, depois dos 35 anos, é o momento em que tem de dividir a carreira com a maternidade.
Como uma bióloga encara a questão de gênero? - Como mulher sou muito feliz. Se tivesse de nascer de novo gostaria de ser mulher novamente. A mulher pode ser menos competitiva e em geral ela é mais dotada de intuição e paciência, o que é muito importante na pesquisa científica.
Como avalia a situação das universidades brasileiras e da educação em geral no Brasil? - Ando muito preocupada com o ensino no Brasil como um todo. Tem de haver um investimento massivo em ensino básico; cotas não vão resolver o problema. Tenho medo que possa acontecer com a universidade o que aconteceu com o ensino básico.
E na sua especialidade? - Há muito interesse em biotecnologia, uma área que explodiu no mundo. Há muitos grupos no Brasil com grande competência científica. Mas, em uma área que está se tornando cada vez mais competitiva, é preciso expandir esses grupos. Infelizmente eles estão concentrados em São Paulo, graças à atuação da Fapesp. O Ministério da Ciência e Tecnologia também tem sido muito bem conduzido, e está alerta para áreas de pesquisa com grande potencial.
A senhora teve uma atuação de destaque na discussão sobre a nova Lei de Biosegurança e particularmente na questão da pesquisa com células-tronco. Qual o balanço da sua atuação política? - Tive um retorno muito positivo. Houve um envolvimento maior da comunidade científica com o público, com questões éticas. O único problema é que esse tipo de atividade toma muito tempo... Mas o retorno foi grande e valeu a pena. A aprovação da pesquisa com células-tronco embrionárias foi um passo muito importante. Foi muito interessante ver a participação de cientistas, pacientes e médicos na campanha pela aprovação da lei. É importante que os cientistas expliquem para a população a importância de temas como esse.
Pessoalmente, como administra as suas finanças? - Pessoalmente, aquilo que sobra - e como professora da USP não sobra muito - deixo a cargo do gerente do banco. Como pesquisadora, administro verbas que chegam a milhões de reais. Não é fácil: é preciso prestar conta de tudo, não pode haver erro. Já foi muito mais difícil no tempo da inflação alta.
Quais as publicações internacionais, jornais, revistas e sites que utiliza mais freqüentemente para se manter informada sobre política e economia? - Leio muito revistas como Science e Nature. Mas leio também na internet o New York Times e o Times, de Londres. (René Decol)