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| Dispara o interesse pelo mercado |
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Theo Carnier |
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Bovespa chega ao nono lugar no ranking mundial de lançamento de ações, um salto de dez posições no ano
Aparentando indiferença acerca da evolução da crise política e de mudanças relevantes para todo o mundo - como a substituição, marcada para o início de 2006, de Alan Greenspan por Ben Bernanke como chairman do Federal Reserve System (Fed) -, o interesse dos investidores pelo mercado de ações brasileiro está em alta. A Bolsa de Valores de São Paulo chegou em 2005 ao nono lugar no ranking mundial de lançamento de ações. Foi um salto de dez posições na classificação global de novas emissões no período, que levou a Bovespa a suplantar, nesse item, congêneres de grande porte, como a norte-americana Nasdaq. A captação de recursos via Bovespa, incluindo os lançamentos de ações, foi a opção de 15 companhias neste ano, até outubro, com volume superior a R$ 7 bilhões, dos quais cerca de R$ 2,5 bilhões via emissões novas. O contingente cresceu ainda mais em novembro, quando a Cosan, maior produtor mundial de açúcar e álcool, lançou suas ações. E a UOL, provedora de acesso à internet, já manifestou interesse em fazer operação semelhante até dezembro.
Além de numerosas, as operações chamam a atenção pela diversidade. A Lojas Renner, por exemplo, realizou em junho e julho a inédita venda totalmente pulverizada de ações, colocando 100% de seu capital à disposição dos investidores. No final de outubro, a Nossa Caixa, controlada pelo Governo do Estado de São Paulo, tornou-se o primeiro banco a fazer parte do Novo Mercado da Bovespa, com uma bem-sucedida oferta de ações que resultou na venda de 28,7% de seu capital (a previsão era que a oferta chegasse a 25%). Além disso, duas empresas (Energias do Brasil, controlada pela Energias de Portugal, e OHL, grupo espanhol de concessões rodoviárias e de construção) fizeram ofertas públicas de ações que superaram R$ 860 milhões. Foram as duas primeiras companhias estrangeiras a captar recursos no ano com vendas de ações no País. No segundo semestre, também Unibanco e Cyrela Brazil Realty fizeram ofertas públicas de ações. Antes disso, nos primeiros meses do ano, três empresas - Submarino, Localiza e Renar Maçãs - lançaram ações e seis outras fizeram ofertas públicas, entre as quais a TAM e a Gol Linhas Aéreas.
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| José Galló |
O ritmo de investimentos da Renner deverá duplicar nos próximos anos |
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Contabilizando as distribuições de ações realizadas de 2004 a outubro deste ano, o volume supera R$ 16 bilhões. Além do volume expressivo, há crescente opção pela governança corporativa: em novembro, 17 empresas já haviam aderido ao Novo Mercado, segmento da Bovespa que reúne companhias altamente comprometidas com a transparência e 59 companhias já fazem parte do Índice de Ações com Governança Corporativa (IGC) da Bovespa.
Esses números são reforçados com a "fila" de empresas que planejam fazer operações do tipo. Em setembro, quatro empresas apresentaram a investidores institucionais e instituições financeiras, no 4º Fórum Brasil Abertura de Capital, seus planos de ingressar no mercado de capitais: Company, Democrata, Netuno e Grupo TCI. O Fórum foi realizado pela Bovespa e pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do Ministério da Ciência e Tecnologia. Além disso, Magazine Luiza, CVC Turismo e Zoomp, entre outras, anunciaram intenção de tomar a mesma iniciativa.
Houve também, em setembro e outubro, a segunda oferta pública de cotas do fundo Papéis Índice Brasil Bovespa (PIBB), do BNDES, que somou R$ 2,285 bilhões, mais que o dobro da previsão inicial de R$ 1 bilhão. A operação atraiu cerca de 120 mil investidores de varejo (veja pormenores na seção Em Revista).
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Eduardo Guardia |
Liquidez para as ações da Nossa Caixa |
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Pela transparência - O resultado positivo dessas operações foi um dos motivos que levaram a Nossa Caixa a optar por uma emissão pública secundária de ações ordinárias em outubro. Segundo o diretor de Finanças e Relações com Investidores da instituição, Rubens Sardenberg, "o bom desempenho do mercado e das últimas ofertas públicas realizadas, além da opção pela transparência, levou o governo do Estado a deflagrar o processo de abertura de capital". O processo de transparência, segundo ele, incluiu a ampliação da abertura de informações financeiras e a realização de reuniões com analistas e investidores.
Essa postura, de acordo com Sardenberg, levou também o banco a entrar no Novo Mercado, "assumindo compromisso com a transparência das informações, com o tratamento igualitário dos acionistas, e com o respeito aos direitos de participação no capital'.
Na Lojas Renner, a operação de pulverizar o controle também animou a companhia: segundo seu presidente, José Galló, a Renner planeja utilizar R$ 40 milhões dos R$ 232 milhões conseguidos com o aumento de capital para abrir 32 lojas, em quatro anos. "Vamos dobrar nosso ritmo de crescimento, com cerca de oito novas lojas por ano", afirmou Galló depois da operação.
Com a oferta pública de ações, que somou R$ 886,028 milhões, a Lojas Renner fez a venda de 100% de seu capital, na primeira operação desse tipo no Brasil. Após a colocação dos papéis, realizada pela americana J.C. Penney (que controlava a Renner e embolsou R$ 543 milhões na operação), nenhum acionista ficou com mais de 8% de participação no grupo. O limite estabelecido pela companhia era de participação de 19,9%. De acordo com Galló, a J.C. Penney optou pela venda porque planeja concentrar suas operações nos Estados Unidos: "A Renner era responsável por 3% das vendas totais da companhia", informou. A Lojas Renner é uma das três maiores redes de lojas de departamentos do País, com 64 lojas, e teve receita bruta de R$ 1,3 bilhão no ano passado.
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A operação confirmou a importância de se manter a política de governança corporativa, tratada com prioridade pela Renner. Mesmo com a pulverização, Galló continuará como presidente da companhia e toda a diretoria será mantida. O conselho de administração passou a ser composto por membros independentes, e para a presidência do conselho foi escolhido Francisco Gros, que já presidiu o BNDES e a Petrobras. Além disso, a iniciativa mostrou-se lucrativa para a Lojas Renner: as ações da companhia tiveram valorização superior a 45% no período entre sua entrada na Bolsa, no início de julho, e a metade de outubro.
A caminho da Bolsa - Para Rubens Cavalieri, diretor de Finanças Corporativas do Unibanco (que coordenou a operação da OHL), existem mais iniciativas para o mercado de capitais "a caminho da Bolsa". A disposição das empresas que fizeram lançamento de ações confirma essa tendência. O presidente da Energias do Brasil, Antônio Martins da Costa, garante que a operação realizada pela empresa estabelece "o início de uma parceria de longo prazo com o mercado de capitais brasileiro". A empresa emitiu 24,161 milhões de ações ordinárias ao preço unitário de R$ 18. A OHL ficou satisfeita com sua oferta de 23,961 milhões de papéis, e também com o preço de R$ 18 por papel. A empresa planeja utilizar parte dos recursos para ampliar sua atuação em concessões.
Na Energias do Brasil, além dos R$ 435 milhões obtidos com a emissão de ações, foram capitalizados R$ 670 milhões de créditos que a EDP (Energias de Portugal) tinha com a companhia. Essa operação representou a emissão de 37,2 milhões de ações adicionais. No total, as operações superaram R$ 1 bilhão, maior volume deste ano até julho.
De acordo com Antônio Martins da Costa, presidente da Energias do Brasil, a operação com ações "dá maior visibilidade aos ativos" da empresa, além de "prover recursos para financiamento de projetos de expansão, com destaque para investimentos na geração de energia elétrica". Além disso, segundo ele, a oferta pública de ações "dá maior solidez financeira para a companhia".
Na emissão dos papéis, 95% das ações foram adquiridas por investidores institucionais e 5% com o "varejo", que inclui pessoas físicas. Segundo Vasco Barcellos, diretor de Relações com Investidores, parte dos recursos será usados na amortização da dívida, "contribuindo para reduzir o endividamento, ao mesmo tempo que também se reduz a exposição cambial".
A Energias do Brasil também conseguiu mais R$ 14 milhões com as vendas que podem ser exercidas pelos acionistas minoritários, que transferiram papéis das subsidiárias para os ativos da companhia. Barcellos lembrou que, no dia da operação, 30% desses acionistas venderam papéis. Antes de aderir ao Novo Mercado, a Energias do Brasil transformou as distribuidoras Bandeirante, Escelsa e Enersul em subsidiárias integrais.
A operação da Energias do Brasil animou outras empresas do setor a dar destaque ao mercado de capitais em suas estratégias. A Light, por exemplo, anunciou no final de julho sua entrada no Novo Mercado e em novembro foi a vez da Tractebel tomar essa iniciativa. A Endesa, de capital espanhol, planeja emitir ações, a partir da reorganização de suas empresas, como Coelce e Cerj, que formariam uma holding. Os planos da companhia incluem também o lançamento de ações no Novo Mercado, com a principal finalidade de conseguir recursos e participar dos leilões de energia nova.
Para Cavalieri, a política de abertura das empresas rumo ao mercado de capitais é importante também para outros grupos interessados em atrair a atenção no âmbito do processo de consolidação de seus setores: "Para essas companhias, é importante ter ações líquidas na Bolsa porque com isso se cria a possibilidade de fazer troca de ações e futuras aquisições e fusões". Na avaliação do diretor do Unibanco, há uma importância adicional para os grupos estrangeiros: "O mercado de ações brasileiro, com sua consolidação, tornou-se uma opção real de financiamento para essas companhias".
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| Rubens Cavalieri |
Atrair outros grupos empresariais para o mercado acionário |
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Mais investidores - O crescente interesse do investidor mostra que esse caminho tem dado resultados. O secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Eduardo Guardia, lembrou que 9 mil investidores pessoa física participaram da operação da Nossa Caixa. Funcionários e aposentados da instituição tiveram direito a 5% da oferta total, com desconto de 15%.
O interesse dos aplicadores fez que o lote previsto a princípio para a colocação de ações do Banco Nossa Caixa fosse aumentado em 4,013 milhões de papéis (a oferta inicial prevista era de 26,758 milhões). A operação rendeu R$ 829,5 milhões ao governo paulista, bem acima da estimativa inicial de R$ 700 milhões.
Os números são animadores, mas o resultado positivo no lançamento de ações só é alcançado quando as empresas mostram aos investidores que estão comprometidas de fato com a abertura de informações, avalia Rubens Sardenberg, do Banco Nossa Caixa: "O banco implantou uma série de ajustes para se tornar uma companhia aberta, listada no Novo Mercado. O conselho de administração, por exemplo, passou a contar com a participação de membros independentes".
A demanda é acentuada quando se adota esse tipo de postura. Com o sucesso da operação realizada em outubro, a Nossa Caixa poderá ofertar até 49% de seu capital. "Começamos com 25% porque esse é o piso para entrar no mercado e esse percentual foi considerado bom para garantir a liquidez necessária para os papéis", lembra Guardia. "Novas ofertas vão depender das condições do mercado."
Para a Cosan, do setor de açúcar e álcool, o lançamento de ações resultou em recursos de R$ 770,232 milhões e o resultado foi positivo, segundo o presidente da empresa, Rubens Ometto Silveira Mello. Ele disse que, com a operação, a Cosan poderá colocar em prática planos de investimento, que incluem recursos no terminal de exportação de álcool da empresa no Porto de Santos, e a compra da Destivale, localizada no interior paulista.
Além disso, segundo ele, a Cosan tem planos de ampliar sua capacidade de produção, para aproveitar principalmente o crescimento do mercado mundial de açúcar, cuja demanda cresce no ritmo de 2% ao ano. Além disso, a empresa planeja aumentar as vendas de álcool combustível, que tem crescente procura, com a produção em alta de automóveis flexfuel (bicombustíveis). |
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