Empresas

Construtora com jeito de banco
Jorge Wahl
 
  A Cyrela busca na Bolsa recursos para ampliar seus investimentos

A Cyrela Brazil Realty, uma incorporadora e construtora com 40 anos de vida, é vista no mercado imobiliário como um banco, devido à sua estrutura de capital e forma de atuação. Não foi estranha, portanto, sua chegada ao Novo Mercado da Bovespa, em fins de outubro último, com um fato inédito: na reta final da oferta pública de ações, foi elevada a faixa de preço dos papéis que estavam sendo colocados - de R$ 11,50 a R$ 14,00 para até R$ 16,00, mais próximo do valor final de R$ 15,00. Apesar do ineditismo, poucos investidores desistiram de comprar e, como a demanda pelas ações superou em oito vezes a quantidade ofertada, no primeiro dia de negócios com as ações da Cyrella no pregão registrou-se alta de 17%.

A Cyrela Brazil Realty, conduzida ao mercado em operação coordenada pelo Credit Suisse First Boston (CSFB), traz outras boas notícias. Primeiro, o setor em que atua - o imobiliário - parece ter acordado para a capacidade de o mercado acionário dar impulso às empresas que querem crescer. Segundo, duas outras construtoras paulistas, a Klabin Segall e a Company, já estudam seu ingresso no novo mercado de acesso da Bovespa e a Rossi Residencial contratava um formador de mercado para ampliar a liquidez de suas ações - num sinal de que poderá estar preparando nova emissão de papéis. Além disso, o lançamento da Cyrela reforça a expectativa de que o total da captação de recursos pelo conjunto de empresas, via Bolsa, poderá atingir R$ 18 bilhões, neste ano, ou seja, o dobro da marca de 2004. Para Rodolfo Riechert, diretor do Banco Pactual, a tendência é de o mercado de capitais dobrar, em 2005, tanto o número de operações de captação como o montante captado. Dos quatro fatores apontados para explicar esse crescimento, dois estão diretamente ligados à atuação da Bovespa: a popularização do pregão e a criação do Novo Mercado, como enfatizou o presidente da Associação dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec), Milton Luiz Millioni.

Quantidade e qualidade - A Cyrela contribui para o crescimento do mercado não só no plano quantitativo, mas também qualitativo. A construtora e incorporadora é a 15ª empresa a emitir ações e aderir ao Novo Mercado e a 57ª a integrar o Índice de Governança Corporativa (IGC), indicador de preços que reúne as companhias mais comprometidas com o respeito aos pequenos e médios investidores em seus papéis. Além disso, os títulos da empresa figuram no universo de 44 companhias que fazem parte do Índice de Ações com Tag Along Diferenciado (Itag), que se refere às organizações que conferem aos minoritários o direito de venderem suas participações pelo mesmo valor obtido pelos controladores na hipótese de saída da sociedade.

A Cyrela fez uma oferta pública de 52,3 milhões de ações ordinárias (correspondendo, na proporção de 56,7%, a uma emissão primária de ações e 43,3%, a papéis originários da carteira do controlador, o empresário Elie Horn). Captou, portanto, R$ 902,1 milhões. Na nova composição acionária, 52% das ações ficaram com o grupo de acionistas controladores e os 48% restantes com investidores em geral. Os recursos provenientes da emissão das ações serão destinados à compra de terrenos, lançamento de projetos, ampliação do financiamento aos compradores de imóveis e redução do endividamento. Isso mostra que a companhia procura trabalhar com elevado volume de recursos em caixa, dependendo menos das instituições financeiras em seus empreendimentos. Pagar à vista pelo terreno é um diferencial importante da empresa. Esse ativo responde, freqüentemente, por cerca da metade do custo total de um empreendimento na capital paulista. Justificadamente, portanto, a expressão "solidez financeira" se aplica ao perfil que a empresa busca transmitir ao mercado.

Mais uma informação interessa de perto aos investidores: é a quantidade de ações da empresa que de fato circulam no mercado, podendo ser negociadas, aquilo que os profissionais chamam de free float. No caso da Cyrela, esse número cresceu expressivamente, saltando de 8,2% para 41,4%, porcentual considerado adequado para uma empresa que quer ter títulos com boa liquidez na Bolsa.

Lucro e receita - No primeiro semestre deste ano, quando se anunciou a incorporação da Cyrela pela Brazil Realty, a empresa havia obtido, no período, um lucro líquido de R$ 75 milhões, a partir de uma receita bruta operacional de R$ 332,4 milhões. Um dos fatores que explicam os lucros regulares é que existe boa aceitação dos produtos da Cyrella no mercado: no primeiro ano de lançamento, em média 70% dos imóveis oferecidos são comercializados, quando o porcentual médio do mercado está na marca dos 50%.

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E, segundo a Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), a Cyrela lidera há nada menos de quatro anos o mercado de incorporação e construção. Em 2004, a companhia lançou mais de US$ 283 milhões em imóveis residenciais e comerciais, valor cerca de 140% superior ao do ano anterior. Tal crescimento é substancial, ainda mais quando comparado aos 8% de média do mercado. Somando São Paulo e Rio, houve 16 lançamentos no ano passado. Esse número, segundo as projeções da própria Cyrela, deverá repetir-se em 2005.

Ubirajara Freitas, diretor de Incorporação e Terrenos da Cyrela, nota que a sua empresa tem posição de liderança tanto no mercado de imóveis residenciais quanto no de comerciais, tendo encerrado o ano passado com 401,025 mil metros quadrados de área construída, à frente de suas maiores concorrentes. Até agora, a companhia já construiu 2,5 milhões de metros quadrados e prefere a diversificação, incorporando tanto residências de médio e alto padrão como shopping centers, pavilhões de feiras e eventos, além de edifícios de escritórios e hotéis.

Há três anos consecutivos a Cyrela aparece em um levantamento da revista Carta Capital entre as Empresas mais Admiradas do Brasil. Também repetindo o desempenho de anos anteriores, o jornal O Estado de S. Paulo concedeu à empresa o prêmio Top Imobiliário 2004. Pouco depois, foi a vez de a Associação dos Dirigentes de Vendas do Brasil (ADVB) premiar a companhia com o Top de Marketing.

Um sinal a mais de que a Cyrela entende de vendas: "em apenas dois dias após seu lançamento, o primeiro empreendimento da empresa em 2005 teve vendidas 180 unidades", resume Freitas. Uma grande importância é atribuída pela organização ao trabalho de pesquisa. O objetivo, muitas vezes alcançado, é negociar todas as unidades de um projeto nos 180 dias que se seguem à sua colocação no mercado.

E essa estrutura de vendas volta-se agora também para a internet, um canal tido como essencial para atrair os brasileiros que vivem e poupam no exterior sonhando com um dia voltar ao Brasil. "Afinal, o melhor canal de vendas para o mercado internacional é a internet", sintetiza Carla Fernandes, gerente de Marketing e Comunicação da Cyrela. Países que reúnem uma grande comunidade brasileira, como os Estados Unidos, Portugal e Japão, não por acaso são a origem da maior parte dos acessos internacionais ao novo portal da Cyrela, que entrou na rede este ano.

A força da internet já se faz sentir. De janeiro para cá o número de acessos ao portal já cresceu, segundo Marcel Vieira, gerente de vendas pontocom da Cyrela, de 46 mil para 400 mil. Por causa disso, a participação da rede no volume de negócios da empresa subiu de 11%, na média do ano passado, para 16% no terceiro trimestre deste ano. Vieira acredita que até dezembro ou início de 2006 será possível chegar aos 20%, com a ajuda, inclusive, de uma versão do portal inteiramente em inglês.

Segundo relatório da empresa, a expectativa para os próximos cinco anos é que 50% das vendas, pelo menos, tenham como origem a rede mundial de computadores. Afinal, existe uma tendência de as vendas de bens de consumo, bens móveis e imóveis ganharem impulso com a evolução dos mecanismos de acesso à internet. Portanto, acredita-se, na Cyrela, que aumentar as vendas pela internet é parte de uma estratégia de sobrevivência para qualquer empresa, em qualquer segmento de mercado.
 
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