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Na linha de frente das corretoras
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Milton Gamez |
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Papel crescente das mulheres no mercado acionário
Outono de 1983, Estados Unidos - Shirley Gross, uma das mais famosas investidoras americanas, explica a um alto executivo da Prudential Securities por que seu clube de investimentos havia comprado tantas ações da rede de varejo Wal-Mart. "Toda vez que vou ao Wal-Mart tenho de dar a volta toda no estacionamento até encontrar uma vaga", começa. "Quando eu entro, os corredores da loja estão entupidos de gente empurrando seus carrinhos cheios de mercadorias", argumenta. "O senhor já entrou alguma vez em um Wal-Mart?", dispara Shirley, uma das sócias do Clube de Investimento de Mulheres de Negócios e Profissionais de Beardstown.
Primavera de 2005, Brasil - Juliana Buchaim, gestora de um fundo multimercado de arbitragem - o Lyonnais Long Short -, procura oportunidades de investimento para sua carteira. O Ibovespa acumula queda de 10% no mês, depois de uma série de altas históricas. A tarefa de Juliana nesse fundo é aproveitar as distorções de fundamentos entre ações, quaisquer que sejam as possíveis direções do mercado acionário. Ela opera nos mercados à vista e de derivativos (opções e futuros) da Bovespa. Em seu menu de estratégias está a compra de ações com expectativa de alta e o compromisso de venda de papéis com tendência de queda. "Também avalio possíveis arbitragens entre ações de uma holding e sua subsidiária, entre empresas de um mesmo setor e entre as ações do Ibovespa e o próprio índice no mercado futuro", explica.
As "Ladies de Beardstown", como ficaram conhecidas as senhoras de uma pacata cidade do Estado de Illinois, ganharam muito dinheiro no mercado de ações utilizando um dos principais atributos femininos: a sensibilidade e a capacidade de observação de detalhes. Mais de 20 anos depois, no Brasil, algumas mulheres vão muito além do clichê e aplicam sofisticadas estratégias de análises de empresas e de cenários na montagem de suas estratégias de Bolsa. Juliana Buchaim, Hanane Mohamad Ayoub, Jane Vendrame, Maria Cristina Lara Dias de Souza e Juliana Chu são representantes de um grupo crescente de mulheres que estão fazendo história na Bolsa do século 21.
Hoje, os mercados estão muito mais sofisticados, a tecnologia domina as mesas de operações e os derivativos potencializam os riscos e as oportunidades. As profissionais de investimentos em Bolsa conquistaram espaço num ambiente que, no passado, foi um reduto puramente masculino. Elas dominam as finanças e o mercado de capitais, como os colegas homens - competência e profissionalismo não têm nada a ver com o gênero sexual -, e ainda emprestam à atividade um charme e uma sensibilidade que só as mulheres têm.
Pequenos adesivos de borboletas e corações coloridos decoram o monitor no qual Hanane Mohamad Ayoub, a Tuca, decifra as cotações e os enigmas do mercado acionário para seus clientes na corretora SLW. Ao ser perguntada sobre as borboletas, Tuca, uma agente autônoma de investimentos com 22 anos de mercado, logo clica nas telinhas em busca de opções da Petrobras, com vencimento em novembro (PetrK). "É fácil montar um spread borboleta. Veja: compra uma 32, vende duas 34 e compra uma 36. Ih, essa não é interessante", lamenta.
Ela ri quando percebe que a pergunta referia-se à decoração do seu monitor, e não à clássica compra de um spread borboleta. "Comprei na papelaria mesmo, só para alegrar um pouco", diz. A montagem da operação borboleta é simples, explica, e consiste na realização simultânea de três movimentos: a compra de uma opção de compra de um determinado ativo a um preço de exercício mais baixo; a venda de duas opções de compra a um preço de exercício médio; e a compra de uma opção de compra a um preço de exercício mais alto, com a mesma diferença de pontos entre as duas posições anteriores.
Economista de formação, Tuca nasceu no Líbano e imigrou com os pais para o Brasil ainda pequena. Naturalizada brasileira, aos 17 anos já trabalhava na Corretora Capital, em São Paulo. Atua como operadora há 16 anos na SLW, sendo que os últimos de forma independente, em dupla com o colega Léo Jaskulski. Sua especialidade são as operações de financiamento, que combinam a compra de ações no mercado à vista e contratos de opções.
Enquanto executa com uma rapidez impressionante as ordens eletrônicas de compra e venda de ações que recebe de outros escritórios de investimentos, clicando e digitando nas janelas do sistema Megabolsa, Tuca oferece operações de financiamento a outros clientes, por telefone. "Essa é boa, não acha? Dá 5,99% de proteção e 3,03% de efetiva mês", diz a um deles, com voz tranqüila, depois de calcular o retorno do financiamento com opções da Usiminas. Nos últimos anos, o uso das planilhas eletrônicas tornou mais fácil a montagem dessas operações. Mesmo assim, a indefectível HP 12C, desgastada pelos anos de uso, está sempre a postos na mesa da operadora.
Com ela, oito mulheres trabalham com ações nas mesas da SLW, ao lado de 33 homens. É uma proporção elevada (19,5%) em comparação à média do mercado, de 9,9%. Existem, segundo a Bovespa, 109 mulheres com poder de decisão e negociação nas corretoras, para um total de 998 homens. Elas somam 79 operadoras, 21 diretoras, oito diretoras/operadoras e uma conselheira.
A fatia feminina, se depender delas, deve aumentar. Nos últimos três anos, 94 mulheres se inscreveram no curso Formação de Operador no Mercado de Ações, promovido pela Associação Nacional das Corretoras de Valores, Câmbio e Mercadorias (Ancor). Entre elas, 48 foram aprovadas. Em média, as mulheres representaram 13% dos formandos das 17 turmas montadas entre janeiro de 2003 e setembro de 2005 em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
O curso é obrigatório para quem quiser se habilitar como operador de Bolsa na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Não são poucos os conhecimentos exigidos dos participantes. No primeiro módulo, eles estudam os fundamentos dos mercados financeiro e de capitais, das companhias abertas, dos mercados de ações, das Bolsas de Valores (mercados à vista, a termo e de opções, além do Novo Mercado). Ainda estudam análise de ações, demonstrações financeiras de empresas e matemática financeira. No segundo módulo, operacional, dominam os sistemas, as formas de negociação, os regulamentos e a legislação das Bolsas e do mercado de capitais, além de estratégias com derivativos e processos de liquidação.
Passar nos testes de conhecimentos obrigatórios não basta para definir o sucesso das mulheres nas mesas de ações das corretoras. Elas precisam, no dia-a-dia, estar com as antenas ligadas no mundo ao redor, captando notícias da economia, da política e das empresas em particular. Assim, podem detectar as oportunidades e medir os riscos das operações que comandam. Juliana Buchaim, responsável pela área de renda variável da Crédit Agricole Brasil DTVM, lê dois jornais antes da reunião diária da equipe, às 8h45. Em seguida, analisa detalhadamente os relatórios das empresas que recebe de outras instituições. "Quando o mercado abre, fico pensando nas operações interessantes, quais tipos de arbitragens podemos fazer", diz Juliana, que investe R$ 38 milhões captados por dois fundos, o multimercado Lyonnais Long Short e o Lyonnais Selection Caspia, de ações.
Formada em administração de empresas, Juliana é especialista em análise setorial e de balanços, área na qual trabalhou por três anos na Fator Administração de Recursos. Ela começou como analista na Crédit Agricole, mas logo pulou para a gestão de fundos, em 2001. Seu perfil técnico lhe permite ir muito além da intuição na hora de selecionar as melhores ações para as suas carteiras. "Baseamos nossa escolha de papéis na análise fundamentalista", afirma, em referência ao tipo de avaliação que leva em conta a evolução dos indicadores econômicos e financeiros das companhias.
Cozinheira exigente nas horas vagas, Juliana sabe que a qualidade dos ingredientes é fundamental para o sucesso do prato, por mais simples que ele seja - atualmente, sua paixão é risoto de parmesão e limão. Ela olha com lupa os números das empresas e seus mercados e também avalia as pessoas que comandam as companhias abertas nas quais investe. "Sempre tento escolher ações de empresas que tenham bons gestores", afirma.
A área de fundos de ações da BankBoston Asset Management (BAM) também tem uma funcionária apaixonada pela análise fundamentalista. Juliana Chu, uma administradora de empresas com especialização em Finanças em Berkeley (University of California), faz recomendações de compra ou venda de papéis para os gestores dos fundos. Ela especializou-se nos setores de papel e celulose, mineração e siderurgia, petróleo e petroquímica.
Com formação em auditoria de balanços - trabalhou quatro anos na Price Waterhouse -, Juliana Chu discorre sobre o fluxo de caixa descontado e o Ebtida (lucro antes da dedução de juros, impostos, depreciações e amortizações) das empresas com muita naturalidade. Ela nem percebe quando solta um free cash flow yield no meio da conversa. O "financês", por sinal, é seu quarto idioma: ela também fala inglês e mandarim. Para Juliana, a característica mais importante do seu trabalho é a capacidade de prestar atenção nos pormenores. "Precisamos estar atentas a todos os detalhes da empresa, ao que está acontecendo no setor no Brasil e lá fora", diz.
As mulheres são, por natureza, muito detalhistas. Essa é uma característica indispensável para quem elabora estratégias de Bolsa e análises de empresas. Também é fundamental, no mercado de ações, a capacidade de realizar muitas tarefas simultaneamente - acompanhar notícias na internet e na TV, ler relatórios, atender telefonemas de clientes, dar ordens de compra e venda, conciliar as operações, etc. Durante o trabalho, muitas ainda coordenam tarefas domésticas a distância e dão atenção aos namorados, maridos e filhos. "As mulheres são capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo", diz a economista Maria Cristina Lara Dias de Souza, diretora da corretora Dias de Souza. Veterana na Bolsa, ela foi a primeira mulher a trabalhar no pregão da Bovespa, nos anos 80, quebrando um tabu quase secular.
Se a ousadia também explica o avanço das mulheres no mercado de ações, há outras qualidades que ajudam as profissionais no trabalho com os homens. Solidariedade, compartilhamento do conhecimento, cooperação e facilidade de relacionamento são alguns dos ativos considerados femininos que abrem portas num mercado masculino, ou seja, extremamente competitivo. "As mulheres têm mais facilidade para conversar com os clientes, são atenciosas e sensíveis", diz Marcos Monteiro de Barros, diretor da Corretora Paulista, a Socopa.
Como a inserção das mulheres no mercado de trabalho é relativamente recente, elas ainda precisam provar que são tão eficientes quanto os homens. "Alguns clientes dizem que as mulheres são mais dedicadas. Para sobreviver, elas têm de ser muito boas no que fazem", afirma Jane Vendrame, assessora de Investimentos da Socopa.
Com mais de 20 anos de mercado, Jane trabalhou quatro anos no back office de três corretoras até que, aos 21 anos, ganhou uma posição na mesa de ações da Limite Corretora. Realizou a vocação e nunca mais teve salário fixo. Hoje, ela atua nos mercados de ações e de derivativos, inclusive na BM&F, para mais de 40 clientes, principalmente pessoas físicas. Seu negócio, diz, não é vender ações e, sim, estratégias de investimento. "Eu vendo idéias", afirma, com brilho nos olhos.
Os investidores atendidos por mulheres sofisticadas como Jane, Juliana, Tuca e Maria Cristina precisam de bons argumentos para ignorar suas idéias. Se, nos anos 80, já era difícil contestar a sabedoria de uma velha senhora de Beardstown - Ralph Acampora, o executivo da Prudential, visitou o Wal-Mart depois da conversa com Shirley Gross e mudou de opinião sobre a empresa -, agora ficou impossível resistir.
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