FMI

A eqüidade empurra o desenvolvimento
Fábio Pahim Jr., de Washington
 
 
Anoop Singh

Com estabilidade econômica, eleições não são um obstáculo

Se há uma lição a extrair dos últimos encontros do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, realizados em fins de setembro, esta diz respeito à valorização, tanto no setor público como no setor privado, do princípio da eqüidade como mola propulsora do progresso econômico, social e político. Para os países emergentes, como o Brasil, o tom das reuniões anuais de 2005, em Washington, foi dado pelo Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial elaborado pelo corpo técnico do Banco Mundial.

O relatório tem periodicidade anual e elege um tema - em 2005, foi a eqüidade, ou seja, a busca da igualdade de direitos e oportunidades, bem como da medida desses avanços na área privada, avaliados, por exemplo, pela transparência das empresas abertas e pela boa governança corporativa. Para o Banco Mundial, estes são fatores-chave para o crescimento econômico sustentado. Como enfatizou o economista-chefe da instituição, François Bourguignon, tanto "é decisivo" o acesso dos pobres à saúde, à educação e aos serviços, como a construção de "uma sociedade ética e moral", atributos que aumentam a eficiência social e, em conseqüência, contribuem para acelerar o ritmo do crescimento econômico, beneficiando a toda a população.

O tema da eqüidade permeou os discursos das autoridades, em Washington. O presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowits, deu ênfase ao combate à corrupção como essencial para remover os entraves ao crescimento. Não se deve esquecer que uma das características da corrupção é o desprezo pela eqüidade e a tentativa de "levar vantagem", conhecida no Brasil como a Lei de Gérson, o famoso craque são-paulino dos anos 70. "Começamos a ver nas medidas concretas contra a corrupção uma forma de apoio ao desenvolvimento", declarou Wolfowits.

No Brasil, a desigualdade de oportunidades é muito forte, segundo estudo feito por Bourguignon, de que participou o economista brasileiro Francisco Ferreira, da PUC-Rio. Na América Latina, notou Ferreira, o País ainda é "campeão na desigualdade de renda", medida pelo coeficiente de Gini.

Contrapartida - Mas isso ocorre com menos intensidade no mercado de capitais. No item concentração da propriedade acionária medida pelo market capitalization (capitalização de mercado, ou valor das empresas com ações cotadas em bolsa), o Brasil não aparece entre os líderes, que são, justamente, os países asiáticos. No País, a disseminação da propriedade acionária está sendo acelerada pelo programa de popularização do mercado acionário desenvolvido pela Bovespa.

Na Ásia, conforme dados de 1996, apenas dez famílias controlavam 57,7% do valor das ações do mercado na Indonésia; 52,5%, nas Filipinas; 46,2%, na Tailândia; 32,1%, em Hong Kong; 26,8%, na Coréia do Sul; 26,6%, em Cingapura; e 24,8%, na Malásia. E sob essa ótica o Brasil fica menos distante das práticas dos países desenvolvidos, onde a eqüidade é vista como fator decisivo de crescimento econômico.

A situação brasileira só não é melhor, enfatizou Francisco Ferreira, por causa da educação precária. A Coréia, por exemplo, investe três a quatro vezes mais do que o Brasil em educação. A renda por habitante da Coréia do Sul, que equivalia à do Brasil duas décadas atrás, hoje supera o dobro da renda brasileira.

Política consensual - O caminho para o desenvolvimento, debatido nas assembléias anuais, é cada vez mais consensual, inclusive quanto às melhores políticas macroeconômicas - e, neste caso, a posição brasileira é mais confortável. O "amaldiçoado" consenso de Washington, em torno de políticas monetária, fiscal e cambial rígidas, acompanhadas de liberalização comercial, transformou-se em prática universal, em países socialistas ou liberais, chegando ao Japão do primeiro-ministro Junichiro Koizumi, autorizado a privatizar os correios, talvez a maior empresa estatal do mundo, hoje. "A economia mundial está firme", declarou o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato, na entrevista à imprensa que antecede a abertura formal das assembléias anuais do FMI-Bird.

Rato elegeu o déficit fiscal norte-americano como um dos maiores problemas para o desenvolvimento mundial sustentado. Os investimentos são baixos nos EUA, onde o consumo é financiado por endividamento e torna o País mais vulnerável a uma mudança de humor dos investidores externos, que compram títulos da dívida pública.

A política econômica brasileira foi elogiada pelo economista-chefe para a América Latina do FMI, Anoop Singh. Ele considerou, após entrevista com a imprensa latino-americana, que "uma taxa de câmbio em torno de R$ 2,40 é perfeitamente satisfatória para o comércio exterior brasileiro". Único especialista do Fundo a mencionar questões de política doméstica do Brasil, Singh, partindo do cenário dominado pelas "incertezas", enfatizou que as eleições presidenciais de 2006 não são, no seu entendimento, "um risco". Uma coisa são as incertezas políticas "num quadro de desestabilização, outra, num quadro de estabilidade". Eleições, afirmou, "não devem ser temidas". No Brasil, "há estabilidade macroeconômica, uma equipe econômica e um contexto muito mais propício para as eleições". Há, ainda, possibilidade de reduzir a dívida pública. Ele previu que o próximo presidente sairá das urnas fortalecido para dar curso às reformas de longo prazo.
 
 
Economia mundial forte, prevê o Fundo

A tônica otimista é uma constante nos relatórios sobre o futuro da economia mundial (o World Economic Outlook) elaborados a cada seis meses pelos técnicos do Fundo Monetário Internacional. O mais importante é que, nos últimos anos, o FMI tem acertado em cheio - e os prognósticos da instituição acabam ajudando os países e os investidores a adotar as melhores decisões de investimento que, em última análise, são as determinantes do comportamento das economias nacionais.

Depois de crescer 5,1%, em 2004, o mundo deverá constatar um aumento do produto de 4,3%, neste ano, e novamente 4,3%, em 2006, segundo as últimas análises dos economistas do FMI, coordenadas pelo diretor de Pesquisa Econômica, Raghuram Rajan. No biênio 2005/2006, as economias desenvolvidas têm uma expectativa de crescimento de 2,5% e 2,7%, respectivamente, e o chamado Hemisfério Ocidental, do qual o Brasil faz parte, deverá crescer 4,1% e 3,8%. No Brasil, em especial, o aumento esperado do Produto Interno Bruto (PIB) é de 3,3%, em 2005, e de 3,5%, em 2006. O cenário contempla apenas uma leve aceleração inflacionária, da ordem de 0,2 ponto porcentual, nas economias avançadas, tanto em 2005 como em 2006, e um pouco mais nos outros países - 0,4 e 1,1 ponto porcentual, respectivamente.

Como as economias emergentes dependem do fluxo de capitais, cabe observar o que vem acontecendo nos últimos anos e o que se prevê, para 2005 e 2006. O investimento direto tende a perder o ritmo de crescimento verificado entre 2003 e 2004, quando passou de US$ 153,4 bilhões para US$ 189,1 bilhões, mas deverá ficar acima dos US$ 200 bilhões anuais, tanto em 2005 como em 2006. No Hemisfério Ocidental, os ingressos foram de US$ 36,1 bilhões, em 2003, e de US$ 46,6 bilhões, em 2004, devendo-se manter nesse nível neste e no próximo ano. As maiores quedas estão previstas no fluxo de capitais privados, com impacto sobre as reservas cambiais - dois itens nos quais, até aqui, o Brasil não foi afetado. Ao contrário, as colocações de papéis são fáceis no mercado internacional e as reservas cambiais estão crescendo, o que se torna mais fácil porque o País apresenta as contas cambiais mais equilibradas da região, com superávit na conta corrente do balanço de pagamentos e inflação declinante.
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