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| A hora do lançamento do ISE |
| Rosângela Santiago |
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| Marcelo Linguitte |
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Foi-se o tempo em que só os conceitos de eficiência econômica dominavam a ação das empresas. Amplia-se agora a noção de que a eles devem acrescentar-se a preocupação com os impactos sociais e ambientais, formando um tripé que incorpora responsabilidades com fornecedores, consumidores, funcionários, acionistas, aspectos éticos e legais. Estimuladas pelas exigências de transparência e governança corporativa - e por esforços como os da Organização das Nações Unidas (ONU), que criou o Pacto Global com essa finalidade -, multiplicam-se as empresas que aderem a essas idéias. Trazem consigo, no mercado de capitais, investidores que também começam a montar suas carteiras com ações de companhias sensíveis a esse perfil.
Em resposta a essa demanda, nada mais natural que se procure criar uma referência - o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). É com esse objetivo que trabalhou durante meses um comitê formado pela Bovespa, Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Instituto Ethos, Ministério do Meio Ambiente, com participação da International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial para financiar empresas privadas.
A estruturação do novo índice, segundo Ricardo Pinto Nogueira, superintendente-executivo de Operações da Bovespa, baseia-se em quatro pilares: desenvolvimento econômico; relacionamento com clientes, funcionários e consumidores; governança corporativa; e preocupação ambiental e social. "É uma demanda de mercado, e também dos investidores, crescente desde a década de 90", diz. O lançamento do ISE está previsto para dezembro e o processo de seleção das companhias teve início com uma lista das 150 ações mais líquidas do pregão da Bolsa nos últimos 12 meses. Para se candidatar, elas responderam a um minucioso questionário (que está disponível no site das entidades e no da Fundação Getúlio Vargas, responsável pela metodologia).
Ao final do processo de seleção, até 40 companhias das mais bem classificadas entrarão na composição do ISE, que será ponderado pelo total de ações em circulação no mercado (free float). A carteira será reavaliada uma vez por ano. De acordo com Rubens Mazon, coordenador do Centro de Estudos de Sustentabilidade (CES), da FGV, existem outros três índices do gênero no mundo (Estados Unidos, Inglaterra e África do Sul). No Brasil, dada a relevância do tema, a governança corporativa ganhou tópico específico.
Sem exclusão - No processo de construção do índice, nenhuma companhia teve seu acesso vetado, a priori. Marcelo Linguitte, gerente de Relações Institucionais do Instituto Ethos, acredita, porém, que o fator pontuação pesou negativamente para empresas vistas de forma negativa pela sociedade. "Não haverá exclusão, mas quem já tem bom desempenho em Bolsa e obedece a modelos perfeitos de responsabilidade social tende naturalmente a avançar no ISE."
Na análise de Antônio Cruz, diretor da Abrapp, responsabilidade social não é norma, mas atitude das empresas - por isso, devem ter a oportunidade de, participando do índice, aperfeiçoar seu comportamento. "É preciso permitir que o investidor possa escolher em que tipo de empresa quer aplicar seu dinheiro", diz. "Se ela estiver fora do ISE, porque a peneira será fina, pode se beneficiar entrando em outros índices, como o de Tag Along (ITAG)".
Para atender ao interesse do mercado por informações, a Apimec promoveu um curso de introdução ao investimento socialmente responsável, voltado para analistas e investidores. Está previsto ainda o lançamento de uma cartilha sobre o assunto, com financiamento da IFC. (Rosângela Santiago) |
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Os ganhos da sustentabilidade
Administradores de recursos estão se preparando para criar novos fundos, que possam juntar rentabilidade e sustentabilidade (econômica, social e ambiental), aproveitando a demanda pelo que já se chama de "investimentos éticos". Aguardam apenas o lançamento do ISE para montar carteiras diferenciadas. É possível medir a expectativa dos investidores com base na experiência dos fundos socialmente responsáveis já existentes, lançados pelos bancos ABN Amro e Itaú. O ABN, por exemplo, tem os fundos Ethical I e II, os primeiros do gênero no mercado brasileiro. Desde a sua criação, em novembro de 2001, até junho deste ano, o Ethical I acumula valorização de 147,24% diante da uma alta de 120% do Índice Bovespa (Ibovespa). É um desempenho semelhante ao do índice de referência nesse campo, o Dow Jones Sustainability (formado por ações de empresas socialmente responsáveis), que nos últimos 11 anos acumula valorização de 117,3%, enquanto o Dow Jones tradicional teve alta de 90,7%.
Segundo dados divulgados no site financeiro Fortuna, os fundos Ethical I e II juntos possuem patrimônio de R$ 73 milhões e os três fundos Itaú Excelência Social totalizam R$ 19,5 milhões. É pouco quando se compara com o patrimônio total dos fundos de ações (R$ 41,5 bilhões no fim do primeiro semestre). Mas é assim que se começa e que se despertam as potencialidades, chamando a atenção das próprias empresas. Veja-se o caso da Natura, que lançou em maio de 2004 seus papéis na Bovespa a R$ 35,00, valor considerado alto na época por muitos analistas. Mas em 15 de julho as ações já estavam a R$ 74,00.
A tendência vem sendo sancionada pelas pesquisas. Trabalho recente - Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do Consumidor Brasileiro, realizado pelo Instituto Akatu - aferiu a percepção dos consumidores brasileiros quanto ao papel social das empresas, bem como suas expectativas quanto à contribuição empresarial para o desenvolvimento econômico e social. A pesquisa ouviu mil pessoas entre 18 e 74 anos nas regiões metropolitanas de Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Distrito Federal, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Dentre os temas abordados no levantamento, destacam-se as questões ligadas à globalização, à economia, ao envolvimento das empresas com os problemas sociais e à confiança nas instituições.
O estudo revela que vem se cristalizando entre os consumidores a percepção de que as empresas devem contribuir para a construção de uma sociedade melhor: 44% dos entrevistados acreditam que elas devem ir além do que é determinado na lei para atingir padrões éticos mais elevados e cumprir plenamente seu papel na sociedade. A percepção é crescente: foi de 35% em levantamento realizado no ano 2000 e de 39% em 2002. "Isso demonstra que adotar a gestão socialmente responsável como estratégia de negócios atende a uma parcela cada vez mais significativa de consumidores brasileiros", diz Oded Grajew, presidente do Instituto Ethos. "O engajamento das empresas nos problemas sociais do País tende a ser uma preocupação cada vez mais ampla, atingindo todos os segmentos da sociedade."
Na opinião de Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu, a evolução no comportamento do consumidor apontará novos caminhos para as empresas. "Há uma mudança de atitude em curso. O consumidor brasileiro manifesta de forma cada vez mais afirmativa sua percepção sobre a responsabilidade social empresarial", diz. "As empresas que desejarem ganhar ou mesmo manter seus mercados terão de se adaptar às exigências de consumidores cada vez mais conscientes". (R.S.) |
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