Pensando o Brasil
Norman Gall
Maria Helena Passos
 
 

Norman Gall

“O Brasil é o melhor entre os Brics”

Comparado com China, Índia e Rússia – que formam ao lado do Brasil o time de emergentes mais promissores (os chamados Brics), o Brasil “é melhor”, pois tem problemas muito menores, afirma um dos mais argutos observadores da cena brasileira, o nova-iorquino Norman Gall, cuja opinião contrasta com a aposta dos países desenvolvidos na China e na Índia, demonstrada na última reunião do World Economic Forum, em Davos.

Radicado há 30 anos em São Paulo, onde chegou como pesquisador da Fundação Carnegie e jornalista da Forbes, Norman vive em meio a milhares de livros que ocupam tanto as paredes de duas salas de seu apartamento em Higienópolis, na capital paulista, como seu escritório no andar térreo do mesmo edifício. São obras escritas em vários idiomas, cujos temas são amplamente diversificados.

Ex-aluno visitante da Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, Norman se especializou em América Latina ao residir e fazer reportagens em Porto Rico, na Venezuela e no Brasil, onde vive desde 1977.

Aos 72 anos, ele preside o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, criado há 19 anos para estudar como fortalecer o mercado em um país marcado pelas mazelas da inflação. Esse problema foi superado, mas não as dores da inserção do País na economia global.

“Salvo na Venezuela e na Argentina, vejo grandes progressos na América Latina”, afirma Norman nesta entrevista à Revista Bovespa.

  • Em que estágio de desenvolvimento está o Brasil, vis-à-vis outros países emergentes?
    — Se você está em Higienópolis, vê um bairro civilizado, avaliado por padrões internacionais. Eu não o trocaria por um bairro de Nova York, é mais humano, mais compacto, mais comunitário. Já as periferias são o grande desafio. Os políticos não estão capacitados para atender a população. A demanda vem de baixo.

  • Como via o Brasil há 30 anos, ao se instalar aqui, portanto?
    — Eu estava trabalhando com a Fundação Carnegie em Nova York e me contrataram para estudar o Brasil como país emergente, no tempo dos militares. O Brasil avançou muito desde aquela época, mas alguns problemas básicos remanescem. Estava então acabando a onda de migração para as cidades, mas não para as cidades médias – estou pensando em Uberlândia, Goiânia, por exemplo – onde a qualidade de vida é bastante boa e onde há uma burguesia em formação que cuida da estabilidade política, econômica e social.

  • É possível comparar o estágio cultural brasileiro daquele tempo ao de hoje?
    — Eu conhecia menos o Brasil. Valho-me da experiência pessoal. Trabalhei em Rondônia num tempo de esperança, das linhas de ônibus que vinham de Cascavel, no Paraná. Mas agora Rondônia se degenerou muito. O Instituto Fernand Braudel queria tratar da institucionalização das fronteiras agrícolas, para ver se as especializações técnicas visíveis na Bahia, em Mato Grosso, Goiás e Rondônia ajudaram a melhorar a qualidade institucional dessas áreas.

    Mas não conseguimos financiar esse estudo. Creio que a comparação no grupo dos Brics favorece o Brasil. No caso da Rússia, o povo brasileiro é mais feliz e tem mais liberdade, mais aspirações. A Rússia tem um sistema corrupto e autoritário que o povo brasileiro jamais aceitaria. Na Índia, além dos problemas sociais, há os sindicatos que estrangulam as iniciativas e um problema gravíssimo de falta de energia, além dos problemas étnicos e religiosos que o Brasil não tem. Na China há grande escassez de recursos naturais, não se sabendo até agora como será resolvido.

    Há os fluxos migratórios e as revoltas dos camponeses, que já preocupam o Partido Comunista. Há falta de terras na China. Ela está superespecializada, mas é como ter uma grande fábrica sem ter recursos para aumentá-la. Comparando com os outros Brics, o Brasil é bem equilibrado apesar de todos os seus problemas. Mas, enquanto a Europa parece ter perdido o bonde do crescimento pelos altos encargos sociais, o Brasil tem um problema semelhante – que é o nosso grande desafio. O Brasil investe no passado, não no futuro – ou seja, em educação. Mas o Brasil tem melhorado muito, apesar de tudo.

  • Vê o crescimento abaixo da média mundial como uma questão conjuntural ou estrutural?
    — É uma questão difícil. Acho que é mais estrutural, temos de fazer poupança e investimento e não gastar dinheiro em besteira.

  • Fale um pouco do Instituto Fernand Braudel, como ele foi fundado, em 1987?
    — Eu era editor da Forbes em São Paulo e cobria economia mundial. Eles me deram grandes privilégios, tive seis meses para fazer um trabalho sobre o Japão. Mas o trabalho ficou muito extenso. Resolvemos nos separar. Com o Roberto Macedo, da USP, criamos o Instituto. A Forbes é quinzenal, tive tempo de preparar o projeto do Instituto e um amigo, presidente da DHL, levou o projeto para casa e me disse no dia seguinte que iria bancá-lo. Durante um ano, ocupei um dos quartos do meu apartamento escrevendo cartas, propostas e projetos e por algum milagre sobrevivi. O Instituto fará 20 anos em 2007.

  • Por que Fernand Braudel?
    — Eu gostei dele. Teve uma visão do mundo e do capitalismo como motor do desenvolvimento econômico. E foi um dos fundadores da Universidade de São Paulo. Infelizmente, sua grande obra, O Mediterrâneo, está esgotada no Brasil.

  • Como vê o avanço educacional dos brasileiros?
    — Mais gente está terminando o ensino médio, fazendo pressão para a criação de vagas na universidade. Há mais gente cursando a universidade à noite e trabalhando de dia, mas eu não vejo tanto retorno em termos de preparar bem essas pessoas e cuidar do ensino.

  • Como avalia a escola brasileira?
    — Eu conheço um grupo de escolas nas periferias de São Paulo. Todos os estudos indicam que o nível é baixo. Muitos meninos não conseguem ler. Isso tem de melhorar, mas faltam políticos com liderança para mudar as coisas. Não se deve pensar numa reforma global da educação, mas em fazer aos pedaços e com a esperança de que as coisas se acumulem.

  • Compara o processo eleitoral de 2002 com o atual?
    — O que a sociedade brasileira expressou em 2002 foi um desejo de mudança dentro da estabilidade. Mas o fato é que não houve mudança. A conquista do presidente foi a de manter a estabilidade.

  • No recém-lançado livro Lula e Mefistófoles, de sua autoria, o artigo que inspirou o título diz com clareza que a resposta do governo e da classe política ao escândalo de corrupção deveria passar por um pacto de longo prazo, no qual se atacassem os dois pontos básicos, cruciais e vulneráveis do País – educação e infra-estrutura. Isso porém, implicaria mexer substancialmente no sistema previdenciário.
    — Exatamente. Fernando Henrique Cardoso e Lula tentaram enfrentar o problema previdenciário e a resistência do sistema político a esse tipo de mudança.

  • Como define o problema previdenciário?
    — Os gastos com a previdência social representam 12% do PIB no Brasil. E olhe que este não é um país de velhinhos. O que se faz no Brasil é um pacto de suicídio. O País olha para o passado e não vê o futuro. O ensino público fica com a sétima parte do que vai para a aposentadoria. E, ao mesmo tempo, gastamos 40% mais por aluno da universidade do que as congêneres inglesas.

  • A previdência é a seu ver uma questão que precede as demais?
    — É o nó principal das finanças públicas.

  • Há maiores probabilidades de se costurar um pacto, nos moldes que defende?
    — Nenhum partido político tem ido à televisão e proposto aumentar a idade para aposentadoria do brasileiro. Isso bastaria para eliminar os fardos da previdência e melhorar escolas.

  • Por quê?
    — Porque esses não são temas populares. Em contrapartida, melhorar estradas é. Mas, veja, se isso ocorresse, o Brasil poderia ter planos ambiciosos de infra-estrutura, os empregos voltariam e os empreiteiros, inclusive, com mais serviços, ficariam mais felizes...

  • A distribuição de renda não seria um fator ainda mais determinante do grau de corrupção, favorecida pelo nível de desigualdade?
    — Bem, eu ouço falarem em má distribuição de renda, etc. Mas é muito difícil corrigir isso. E, quando os governos tentam corrigir isso, eles acabam nivelando por baixo. Quando você tem crescimento econômico, oportunidades na economia não faltam. Os países mais qualificados e mais hábeis sempre têm mais renda. A única saída é investir na base e dar-lhe qualificação para poder competir com as elites. Se as pessoas tiverem mais critérios morais e oportunidades, não precisarão da corrupção. A coisa pública será mais bem vigiada, assim como o destino dos impostos.

  • Algumas das mazelas na educação são relatadas em seus artigos – como os casos verificados nos Círculos de Leitura que o Instituto Fernand Braudel tem feito em escolas públicas da periferia paulistana. Por exemplo, a troca, duas a três vezes por ano, de diretores escolares. Ou “a falta endêmica de professores”, que “deixa os alunos ociosos livres para brincar nos corredores” e “cria um barulho infernal que impede o estudo nas salas de aula em que há um professor presente, ...a maioria dos professores trabalha tanto que não consegue sequer aprender o nome dos alunos, fazem chamadas pelo número deles e ...a maior parte do ensino é feita com o professor virado de costas para a classe, escrevendo na lousa para que os alunos copiem sem nenhuma explicação ou discussão.”
    — Sim, é esse o Brasil da desorganização. O dinheiro é gasto desse jeito nas escolas públicas. É a desorganização da sociedade brasileira. O desperdício de recursos!

  • Em que medida o ensino é uma atribuição da iniciativa privada?
    — Ouço economistas dizerem freqüentemente que qualquer presidente encontra empenhados 85% a 90% do Orçamento Federal. E a minha luta é contrária à deles. Não defendo aumentar essa margem. Defendo, sim, jamais eliminar o mínimo constitucional destinado à educação e à saúde. O que esses políticos propõem é um absurdo.

  • Quais as chances de sua linha de raciocínio vingar?
    — Isso está começando a acontecer. Veja o que o Congresso fez em relação a suas férias e remuneração... É um passo. Talvez possamos chegar a ter vereadores que não mamem nas tetas das prefeituras. E a outra perspectiva de maior moralidade em relação à coisa pública se dá com o eleitorado punindo nas urnas o conhecido corrupto.

  • Uma de suas propostas é a de que ministros de Estado sejam submetidos ao Congresso antes de sua posse, como se faz com o presidente do Banco Central. Isso fortaleceria o Legislativo, pois lhe daria poder.
    — Não é uma questão de poder mas sim de responsabilidade. Penso que, assim, poderíamos ter ministérios mais estáveis e, talvez, ministros mais competentes.

  • Outra proposta sua é a implantação de voto distrital em que o eleito estaria mais ligado à sua base eleitoral do que hoje. Em que medida isso pode enfraquecer o sistema federativo?
    — Minha proposta é para as eleições locais, para se elegerem vereadores, deputados estaduais e senadores, prefeito e governador de modo que a redistribuição dos distritos eleitorais não exigisse mudanças federativas. É só uma idéia para colocar o eleito mais perto do eleitor. Eu prefiro não discutir essa questão de distorção representativa. Ela existe aqui, como existe nos Estados Unidos. Acho que não ocorre assim por acaso, mas intencionalmente, para dar poder aos estados mais fracos. O que proponho, porém, é somente no nível local.

  • Pode explicar os pontos capitais do pacto programático de longo prazo que o senhor sugere no que se refere à infra-estrutura?
    — A formação de profissionais qualificados para a atividade regulatória, que deve ter seu papel fortalecido e a aceleração das privatizações do setor energético para evitar a corrupção e influências políticas. Reativar fundos abolidos pela Constituição de 1988, destinados ao setor de transportes e, sobretudo, alocar os recursos da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) onde devem ser alocados conforme definido em sua criação: a manutenção da malha rodoviária.

  • Como vê a política energética brasileira?
    — É um tema ainda não devidamente discutido no Brasil. Veja: ninguém quer pagar pela água. Mas o que seríamos nós sem a luz elétrica? As pessoas parecem não ter consciência disso. Fala-se em misturar energia barata com a nova, que só é utilizada em época de pico. Mas, para tanto, é preciso uma elite competente que saiba gerir isso. E o que temos é um setor público emperrado, onde o Ministério do Meio Ambiente e o das Minas e Energia não se entendem e o governo não tem uma linha regulatória clara.

  • É preciso capital externo para desenvolver os projetos de infra-estrutura inevitavelmente?
    — É preciso capital. Mas para que o setor privado invista – e ele está disposto a investir –, será preciso regras claras. Ele não investe quando os cálculos permitem aos governos mexer no preço. Nos projetos de infra-estrutura, os que tocam ao transporte interno são os mais graves. É preciso haver segurança quanto ao contrato, senão acontece como na Argentina, onde a companhia francesa que explorava o abastecimento de água acaba de deixar o país.

  • Há um papel para o mercado de capitais nisso?
    — Sim, mas ele só atrai recursos quando há oportunidade de lucro o que, por sua vez, depende de regras claras e estáveis.

  • Como vê hoje a saúde da democracia latino-americana?
    — Eu acho que, felizmente, esses governos populistas – como o de Chávez, na Venezuela, Kirchner, na Argentina, e como parece ser o de Evo Morales, na Bolívia – tendem a durar pouco. No máximo cinco anos, embora Chávez seja um caso especial. Mas, em geral, na América Latina, o populismo dura pouco.

  • Não foi o caso de Perón, na Argentina.
    — Com Perón, o que se passou é que muitos usaram seu nome. Mas o que quero dizer é que os países latino-americanos sempre tendem a voltar aos trilhos democráticos e viáveis. Porque quando aparece gente bloqueando estradas, como na Bolívia, há uma maioria que quer tocar a sua vida... Uma coisa que me irrita muito é a ausência de reconhecimento das pessoas em relação ao progresso na América Latina. Há o caso do Peru e da Bolívia. Progresso em termos democráticos, inclusive. O problema da Argentina e da Venezuela é diferente.

  • A seu ver, Argentina e Venezuela não progrediram em termos democráticos?
    — O problema deles é diferente, mas igual entre si. Vivem uma tendência secular da democracia: são países onde o pós-guerra mergulhou em decadência acentuada sociedades muito ricas.

  • Como vê o papel do Brasil na região?
    — O Brasil tem estatura moral para ser o grande proponente da democracia. Mas os demais países latino-americanos temem a liderança brasileira. Por essa razão, o Brasil não consegue eleger seus nomes nos organismos internacionais. O Brasil sabe que é visto assim e teme ser visto como o líder de um subimperialismo – não sei se hoje há outro termo para isso. A diplomacia brasileira reconhece isso. Anos atrás, Clinton percebeu que o Brasil pode ser admirado na América Latina, como o é de certa forma. Mas está longe de liderá-la. É um país que tem muitos problemas para resolver dentro de casa.

  • Até que ponto o Brasil pode se tornar dependente da política estatal boliviana por causa da questão do gás?
    — O caso com a Bolívia é de dependência transitória, pois o Brasil fez descobertas marítimas de petróleo e gás e quando as estiver explorando, inclusive na Bacia de Santos, ela será ultrapassada. Não se deve esquecer que vender gás ao Brasil é tão relevante para a Bolívia quanto o interesse brasileiro em comprar o produto boliviano. Isso não me preocupa. (Colaborou F.P.J.)

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