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Queda de braço no mercado
Ações mostram bom resultado no longo prazo

José Pio Martins
Transatlântico pronto para superar tormentas
O mercado de ações enfrentou neste ano - e, até agora, está vencendo - um alto grau de volatilidade. Foi intensa a queda-de-braço entre os investidores de longo prazo e os aplicadores do dia-a-dia, que se assustam com as oscilações. Alguns números mostram as dimensões da volatilidade: o índice Bovespa chegou perto dos 42 mil pontos, no início de maio, declinando depois para pouco mais de 34 mil pontos, em fins de junho. Ações de primeiríssima linha chegaram a oscilar 30%, recuperando-se em parte, no terceiro trimestre. Mais do que fatores internos, foram as incertezas em Nova York as responsáveis pelas oscilações. Só entre fins de julho e início de agosto, quando os juros básicos do Fed, o banco central norte-americano, apontaram para a estabilidade em 5,25% ao ano - e, sobretudo, que a economia dos Estados Unidos deu sinais de desaquecimento - que o nervosismo começou a declinar. A queda-de-braço voltava a privilegiar os aplicadores de longo prazo, que mais se beneficiam dos investimentos em bolsa, pois sabem que as boas empresas são as que têm maior capacidade de enfrentar obstáculos, achar nichos de atuação, investir na expansão e manter lucros.

No Brasil, a Bovespa tem passado por uma verdadeira revolução voltada para o longo prazo, com a entrada de mais companhias no Novo Mercado e a adesão de milhares de pessoas físicas aos clubes de investimento, que está mudando o perfil dos aplicadores e popularizando os negócios com ações. Este ano, foram abertos 255 clubes até julho. O número de carteiras subiu para 1.517 e o de cotistas passou de 125 mil. Eles descobrem as ações num momento de amadurecimento institucional, em que as companhias emissoras aceitam regras mais rígidas de governança, transparência e respeito aos minoritários.

Certas coisas nunca mudam na Bolsa. A volatilidade das cotações e a necessidade de olhar o horizonte remoto continuam determinando lucros e prejuízos. Quem cede ao nervosismo nos piores momentos não só perde dinheiro como deixa de aprender uma lição fundamental: no longo prazo, a Bolsa sempre se recupera e se mostra mais rentável do que outras opções de investimento.

É verdade que é bem difícil a tarefa de convencer um novato na Bolsa a ter calma durante a tempestade. O exercício, porém, vale a pena. O momento mais difícil, neste ano, foi quando o Ibovespa iniciou uma trajetória de queda depois de bater sucessivos recordes de alta. O Ibovespa vinha de três anos seguidos de crescimento. Em 26 de abril, passou a barreira dos 40 mil pontos - o mais alto nível de valorização, em termos reais, desde que começou a ser apurado, em 1968. Mais oito pregões e o índice atingiu 41.979 pontos, numa alta acumulada de 25% no ano e de 70% em 12 meses. Foi quando surgiu uma onda de pessimismo e incertezas nos mercados financeiros mundiais quanto ao rumo das taxas de juros nos Estados Unidos e, de uma hora para outra, as cotações desabaram no Brasil, seguindo a tendência das bolsas internacionais. Entre 9 de maio e 13 de junho, o Ibovespa caiu 22%.

Em momentos como esse, muitos investidores entram em pânico e vendem seus papéis com prejuízo ou por um valor bem menor do que poderiam obter se mantivessem a calma e esperassem um pouco. Quem agüentou firme até o final de julho assistiu a uma valorização de 13% do Ibovespa, de volta à casa dos 37 mil pontos. O sobe-e-desce das cotações no curto prazo, portanto, não deve ser o principal motivo por trás dos investimentos em ações, recomenda o professor e economista José Pio Martins, autor de Educação Financeira ao Alcance de Todos (Editora Fundamento). "As ações devem ser vistas como um investimento de longo prazo", diz. "A Bolsa é como um transatlântico: de vez em quando atravessa tempestades em alto-mar, balança nas ondas e, no final, sempre chega lá."

Muitas tormentas abalaram a Bolsa nas últimas décadas. No final dos anos 70, as vilãs foram a alta dos preços do petróleo e a subida violenta dos juros nos Estados Unidos, que culminaram com a crise da dívida externa dos países latino-americanos no começo dos anos 80. No Brasil, a inflação ganhou força e dominou a agenda política e econômica do País por mais de duas décadas. O malogro de vários planos de estabilização (como Cruzado, Cruzado Novo, Verão e Collor I e II) e o caso Nahas marcaram os anos seguintes. Na década de 90, as crises do México, da Argentina, do Sudeste Asiático, da Rússia e do Brasil castigaram os mercados, reduzindo os ganhos obtidos com o êxito do Plano Real e as privatizações. Os primeiros anos do novo milênio foram sacudidos pela desaceleração da economia americana, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e os escândalos corporativos da Enron e da WorldCom. Aqui, a eleição do presidente Lula, em 2002, trouxe mais instabilidade aos mercados locais. E o ataque dos EUA ao Iraque piorou o humor internacional, levando de novo o preço do petróleo às alturas.

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Todos esses eventos resultaram em quedas muito fortes dos índices de Bolsa. Na série histórica deflacionada pelo IGP-DI, o índice Bovespa fechou no vermelho em 16 períodos anuais. Porém, as recuperações pós-crises também foram espetaculares e o Ibovespa fechou com ganho real em 22 dos seus 38 anos de história. E a tendência de alta no longo prazo - observe de novo a linha do gráfico - prevaleceu. Medido em dólares, o Ibovespa ofereceu um retorno anual composto de 14,4% ao ano desde 1968, ressalta Thomas Tosta de Sá, diretor da Mercatto e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). "Pode haver sofrimento no caminho, mas no longo prazo a Bolsa é o melhor investimento", diz ele. "O importante é observar os ciclos econômicos e aproveitar os momentos de alta." Tosta de Sá identificou quatro grandes ciclos históricos no mercado de ações brasileiro. O Ibovespa cresceu 800% em dólares de 1968 a 1971. De 1983 a 1986, a alta foi de 600%. De 1991 a 1997, o ganho foi de 3.000%. E, de 2003 a abril de 2006, disparou 980%. "Estamos vivendo um período de ajuste, mas não acho que é o fim deste novo ciclo", afirma.

As estatísticas mostram que investir em ações por longos períodos de tempo é mais vantajoso do que aplicar em papéis de renda fixa, mesmo num país com as taxas de juros das mais altas do mundo. Um investidor que tivesse aplicado o equivalente a R$ 1,00 numa carteira semelhante à do Ibovespa em janeiro de 1968 teria, em julho de 2006, o equivalente a R$ 100,02, considerando-se a inflação do período (veja gráfico "Desempenho de Investimentos"). O mesmo recurso valeria R$ 1,01 atualmente se tivesse sido investido em dólar e R$ 5,32 se a opção escolhida fosse a caderneta de poupança.

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Nesse tipo de comparação histórica, é importante lembrar que o Ibovespa representa uma carteira dinâmica, renovada periodicamente conforme as negociações dos papéis na Bolsa. Ou seja: as ações com pior desempenho acabam perdendo liquidez e são excluídas ao longo dos anos. Para ter um desempenho semelhante ao do índice, uma carteira de ações precisa ter o mesmo espírito de renovação, afirma Rodrigo Bresser Pereira, sócio da Bresser Asset Management. "A gestão de ativos em Bolsa no longo prazo deve ser dinâmica." Saber a hora de comprar é tão importante quanto o momento de vender, pois a economia muda, as empresas também e muitas blue chips de hoje poderão ser os micos de amanhã. Alguém se lembra do que aconteceu com as ações da Estrela? Ou da Varig?

O problema é que até mesmo os gestores mais experientes têm dificuldade em determinar o timing ideal para a compra e a venda dos papéis. "Todas as pessoas que ganharam dinheiro no mercado de ações não venderam no último dia de alta nem compraram no último dia de baixa", diz Roberto Teixeira da Costa, vice-presidente do Conselho de Administração da Sul América Seguros e ex-presidente da CVM. "Acertar o dia perfeito é impossível." Por isso, ter estratégias de longo prazo na Bolsa é importante para assegurar um retorno superior ao dos demais investimentos. Quanto maior o horizonte de tempo envolvido na carteira, maiores são as possibilidades de as ações superarem os demais investimentos. A probabilidade de o Ibovespa bater o dólar, por exemplo, é de 51% no dia-a-dia. Em um ano, ela sobe para 56%. Em cinco anos, para 71%. E, em dez anos, chega a 97%. Os cálculos são do consultor Mauro Halfeld, autor de Investimentos - Como Administrar Melhor Seu Dinheiro (Editora Fundamento). "O risco de investir em Bolsa diminui com o tempo", diz ele.

O longo prazo é fundamental para assegurar bons rendimentos, mas por si só não é garantia de retorno. Todo investidor tem uma tendência "suicida" de comprar na alta e vender na baixa, acredita Luis Stuhlberger, responsável pela área de gestão de fundos de investimento na corretora Hedging-Griffo. "A Bolsa tende a render mais do que outros investimentos no longo prazo, mas tudo depende do momento da compra e da venda das ações", afirma. "E é muito difícil saber se está na alta ou na baixa", diz. Ele cita o caso da China, país que tem crescido há décadas a taxas impressionantes de 10% ao ano, em média. "Quem investiu em ações chinesas nos últimos seis anos perdeu dinheiro", observa. A explicação para esse paradoxo está tanto em indefinições do governo chinês como nas expectativas muito exageradas do mercado.

Administrador de fundos bem-sucedidos, Stuhlberger diz que procura, em primeiro lugar, avaliar o custo de oportunidade das aplicações. No Brasil, com os juros altos, esse custo "é um dos mais altos do mundo". Uma NTN, por exemplo, rende 9,4% ao ano além da inflação medida pelo IPCA. Feitas as contas da empresa, como a projeção de fluxo de caixa descontado para os próximos 20 anos, ele embute um prêmio de risco de 3% a 10% ao ano e vê se vale a pena comprar ou vender. Com o aumento da complexidade da economia mundial, muitos outros fatores entram nas análises de investimento. Em primeiro lugar, o crescimento do País. Supõe-se que a demanda de empresas de boa qualidade aumente de acordo ou mais agressivamente do que o PIB. Em segundo lugar, a conjuntura internacional: a Bolsa brasileira cada vez tem mais correlação com o mercado norte-americano e as empresas brasileiras estão mais integradas ao mercado internacional.

Alguns setores são mais sujeitos a ciclos globais de crescimento, como as commodities minerais. Outros, como o varejo, são alheios ao que acontece lá fora, mas não significa tratar-se de um mercado estável. "Nada impede que surja um concorrente que adquira uma participação importante de mercado", diz Stuhlberger. "Hoje, nada é perene, é preciso acompanhar de perto o business e os fundamentos econômicos." Reavaliar constantemente as opções é importante para as correções de rota. O mercado de celulares parecia promissor e mostrou-se pouco rentável.

Um passo importante para o investidor iniciante é definir o prazo do investimento. "O que é longo prazo para você?", questiona Teixeira da Costa. "A definição de prazo está ligada à expectativa de cada um sobre o tempo disponível para investir em ações e a capacidade de poupança."

As premissas da estratégia devem ser sempre reavaliadas. Vale a pena seguir a orientação estratégica do lendário investidor americano Warren Buffet, recomenda Teixeira da Costa: "Você deve comprar porque gosta da ação e vê fundamentos. E esqueça dela durante cinco anos."
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