Empresas
Capitalização promove expansão da Lupatech
Jorge Wahl
Líder nacional na produção e comercialização de válvulas industriais, principalmente para as indústrias de petróleo e gás, química, farmacêutica, papel e celulose e construção civil, além de fabricar autopeças, a Lupatech é uma empresa com características bem precisas: tem controle pulverizado em mãos de gestores conhecidos, tradição de bons resultados e dependência de um grande cliente, a Petrobras, responsável por 41,5% do seu faturamento. Para crescer, precisou de recursos e deu preferência à capitalização associada a mais compromissos com a governança corporativa. Em maio, ingressou no Novo Mercado da Bovespa e fez um lançamento bem-sucedido. Seu objetivo é persistir na política de aquisição de outras empresas dos setores em que atua.

"A emissão de ações foi a forma que encontramos para atender à necessidade de captação de recursos para nossos planos de expansão", observou o presidente da Lupatech, Nestor Perini. "Foram R$ 155 milhões que serão utilizados em aquisições e para o crescimento orgânico que queremos empreender nos próximos anos."

A Lupatech não é uma empresa antiga. Nasceu em 1980 e sua principal unidade industrial está localizada em Caxias do Sul (RS). Além das válvulas, produz autopeças complexas, utilizando processos de fundição de precisão e de injeção de aço. Anunciou a compra da argentina Itasa (Industria y Tecnología en Aceros S.A.) e a negociação para adquirir outra fabricante de válvulas, a Mipel. Mantém, assim, a estratégia de comprar companhias menores e fazê-las crescer. Em 2000, adquiriu a metalúrgica Nova Americana que então produzia 300 válvulas por ano, um terço do que passou a produzir em 2005.

Nestor Perini
Tratamento igualitário para acionistas
Governança - Perini defende a transparência. "Optamos pelo Novo Mercado porque nossa companhia estava pronta para esse segmento, já que adota, há muitos anos, as melhores práticas de governança corporativa e porque acreditamos que o tratamento igualitário para acionistas é a melhor forma de relacionamento com o mercado", disse ele. A boa governança rendeu frutos à empresa: a Capital Research and Management (CRMC), uma das maiores gestoras mundiais de recursos, com carteira superior a US$ 1 trilhão, comprou 5,2% do capital da empresa. A Lupatech conta, desde 1987, com outros acionistas conhecidos por seu grau de exigência, como fundos de private equity (ou seja, investidores em capital de risco). É o caso do Bozano Simonsen Advent - Fundo Mútuo de Investimentos em Empresas Emergentes, o CRP Caderi Capital de Risco S.A. e a Giacomar Investimentos e Representações Ltda. Mas esses três investidores deixaram de ser acionistas em 2003, quando a BNDESPar e a GP Tecnologia ingressaram na companhia. Em 2005, o fundo francês Natexis Mercosul Fund, administrado pelo Axxon Group, também entrou como investidor, via Inetexis.

A estratégia da Lupatech incluiu a constituição de um conselho de administração profissionalizado, com a presença de grandes investidores na empresa. Essa prática é recomendada pelos reguladores. O superintendente de Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Carlos Alberto Rebello, sugere, em especial para empresas de médio porte, ter entre seus acionistas um fundo de private equity.

História antiga - Ao ingressar no Novo Mercado, a empresa assumiu compromissos bem definidos. Entre eles o de elaborar, a partir do segundo exercício social encerrado após a admissão no Novo Mercado, demonstrações financeiras anuais, inclusive de fluxo de caixa, em idioma inglês, de acordo com normas contábeis internacionais (U.S. GAAP ou o IFRS); adotar exclusivamente as normas do regulamento de arbitragem da Bovespa; realizar, pelo menos uma vez ao ano, reunião pública com analistas e quaisquer outros interessados, para divulgar informações quanto à sua respectiva situação econômico-financeira, projetos e perspectivas.


A Lupatech estava preparada para isso. "Começamos a seguir as melhores práticas de governança há 19 anos, quando o primeiro fundo de private equity investiu na companhia", enfatiza Thiago Alonso de Oliveira, diretor Financeiro e de Relações com Investidores. Desde então, seis fundos entraram e saíram da empresa, em quatro rodadas de investimento. É uma prática comum a esses fundos, cujo total de vendas de ações já atingiu US$ 4 bilhões no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCap).

Sem controlador - Outra característica apreciada pelos investidores é a inexistência de um controlador. E, no caso da Lupatech, nem sequer existe acordo dos grandes acionistas - a GP Investimentos, BNDESPar, Natexis e Lupapar, esta última representando o fundador da companhia, Nestor Perini, que tem hoje 26% do capital, contra 45,1% em poder do mercado.

Em 20 de junho, a Lupatech anunciou a conclusão da oferta pública primária e secundária de 20,5 mil ações ordinárias, no total de R$ 452,7 milhões. Uma terça parte é formada pela colocação de papéis novos. A oferta secundária (relativa a ações já existentes e que estavam nas mãos de acionistas) permitiu à GP Investimentos, ao BNDESPar e ao fundo Natexis International reduzirem sua participação no capital de 63,9% para 27,8%. Segundo a Lupatech, a demanda superou em 20 vezes o volume de títulos oferecido ao mercado.

Sem queixas - A Lupatech tem uma boa história de resultados. Em 2005, faturou R$ 203,8 milhões, 41,3% mais do que em 2004, e o lucro líquido quase dobrou, passando de R$ 17,4 milhões para R$ 32 milhões. Os analistas vêem como destaque o crescimento do Ebitda (lucro antes das despesas financeiras, tributos, depreciação e amortização). O Ebitda da Lupatech chegou a 29,6%, em 2005 e está projetado em 31,6%, neste ano, pois as receitas estão crescendo. Nos últimos cinco anos, o Ebitda cresceu, em média, 64% ao ano.

A emissão de ações destina-se a manter o ritmo do crescimento dentro da média histórica de 30% ao ano e preservar tanto a geração de caixa como a rentabilidade. Entre 2002 e 2005, as receitas líquidas cresceram a uma taxa média composta anual (CAGR) de 36%, o Ebitda cresceu a uma taxa média composta anual (CAGR) de 70% e o seu lucro líquido operacional dentro de uma média composta anual (CAGR) de 116%.

A Lupatech espera ser favorecida pelo aumento dos investimentos em petróleo e gás, tanto na construção e manutenção de plataformas como no aumento da capacidade de exploração. A Petrobras prevê investimentos de US$ 56 bilhões nos próximos quatro anos, crescimento de 98% em relação ao volume aplicado no período de 2000 a 2004. A valorização do petróleo estimula os investimentos.


Mas os resultados dependem de vantagens competitivas da Lupatech. Analistas se preocupam com a dependência da Petrobras e de contratos firmados após licitação. E, ainda, de clientes do setor automotivo, conhecido por seu poder de negociação com os fornecedores e que responde por 20,4% do faturamento da companhia. Em compensação, com mais de 3 milhões de válvulas instaladas, a Lupatech não apenas é líder como dispõe de tecnologia avançada e uma forte estrutura de comercialização. Está presente em quase todo o País, com mais de 600 distribuidores e tem poucos competidores instalados no País. Conta, ademais, com a política do governo federal de dar preferência aos fornecedores instalados no País.

Com 900 funcionários, a Lupatech dá grande ênfase à qualidade. "A companhia está classificada no nível mais alto de qualidade no cadastro de fornecedores da Petrobras e seus processos e produtos contam com importantes certificações internacionais", lembra Perini.
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