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Anna Maria Peliano
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| Valdir Sanches |
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Anna Maria Peliano
"70% das microempresas fazem doações" |
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Mais empresas investem na área social
A socióloga Anna Maria Peliano passou os últimos anos pesquisando a atuação das empresas do País na área social. Pós-graduada em Política Social, é um nome prestigiado em sua área. Os trabalhos que publicou se voltaram sempre para a avaliação das políticas públicas. Entre diversas atuações, coordenou o Núcleo de Estudos da Fome da Universidade Nacional de Brasília, de 1992 a 1994. E a elaboração do mapa que subsidiou a Campanha Nacional Contra a Fome (de Herbert de Souza, o Betinho), em 1993. Como diretora de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), está fechando sua última pesquisa, que compara dados com outra, divulgada em 2001. A pesquisa é inédita, por incluir as microempresas.
Os resultados disponíveis abrangem, no momento, só o Sudeste, mas mostram dados expressivos. Um deles: apenas 1% das empresas que investem no social se beneficiam de incentivos fiscais. "A pesquisa tem mostrado uma disposição para o social muito presente nos empresários, pela convivência com o quadro de pobreza do Brasil", diz Anna Maria. "É difícil ficar alheio aos problemas do País, quando cresce a pressão da sociedade."
Embora 96% das grandes empresas invistam no social, o porcentual de 70% das microempresas que faz o mesmo é visto como relevante. O estudo mostra que 55% das empresas atuam no social por questões humanitárias e apenas 11% visam benefícios à sua imagem. O crescimento de participação na área aumentou (67% em 1988, para 71% em 2003), mas os investimentos caíram. Passaram de R$ 3,9 bilhões em 2000 (0,61% do PIB) para R$ 3,1 bilhões em 2003 (0,35% do PIB). A diretora do Ipea atribui a redução à falta de crescimento econômico em 2003. Mas acha que, com 0,35% do PIB, a ação social das empresas representa muito pouco em relação ao seu faturamento.
A seguir, a entrevista de Anna Peliano à Revista Bovespa.
O empresário que se preocupa com o social é um filantropo ou um profissional eficiente que busca retorno na imagem, com eventuais reflexos no faturamento?
- A questão filantrópica pesa muito na decisão dos empresários de atuar no social. Um filósofo francês diz que a sedução de doar chega a ser maior que a de ganhar. É claro que não é só isso. Mas temos que tomar um certo cuidado quando fazemos afirmações genéricas, porque há um universo muito diferenciado entre as empresas. O reflexo no faturamento é muito pequeno, e se estivermos falando de microempresa não tem reflexo nenhum. Mas há, sim, uma questão de imagem na política de boa vizinhança. À medida que as empresas crescem, aumenta a preocupação da imagem com a sociedade como um todo. Pode ser um bairro ou uma cidade, a vizinhança depende do porte da empresa. O benefício para a empresa é que ela tem melhora na sua relação com a comunidade.
Como a pesquisa revela esses fatos?
- Nós perguntamos às empresas por que elas realizaram ações sociais. No Sudeste, na primeira pesquisa, de 1989, com resultados de 1988, 81% disseram que era por motivos humanitários. Já na segunda, de 2004, com informações de 2003, isso caiu para 55%. Mas atender a pedidos de entidades, ou a demandas comunitárias, pesa muito na decisão de atuar: passou de 34% para 52%. A questão humanitária caiu bastante, mas assim mesmo mais da metade declara que é esse o motivo. O porcentual que declara querer melhorar a imagem da empresa é muito pequeno, passou de 15% para 11%.
E quanto a valores investidos?
- Houve um crescimento na participação das empresas e uma redução no investimento. Na primeira pesquisa, no Sudeste, 67% das empresas disseram que tinham algum tipo de atuação. Em 2003, foram 71%. Subiu 4 pontos porcentuais. Se você quiser olhar só São Paulo, ficou quase estacionado, de 66% para 68%. O Rio cresceu de 59% para 68%. Quem lidera em crescimento é Minas, que permaneceu em 81%. As empresas aplicaram no Sudeste, em 2003, R$ 3,1 bilhões, o que correspondeu naquele ano a 0,35% do PIB na região. Em 1998, a relação era de 0,61% do PIB, com aplicações de R$ 3,9 bilhões em 2000 (ainda não se chegou ao dado recente). Quer dizer, houve uma queda em relação ao PIB. Apesar de haver um crescimento proporcional, ele se deu basicamente por microempresas, talvez por isso não tenha tido repercussão. 2003 foi um ano de crise econômica, não teve crescimento econômico, e isso deve ter repercutido no crescimento e na mudança do perfil. O problema econômico pesa muito... Quando a gente pergunta qual é a maior dificuldade para atuar, eles dizem que é falta de recurso da empresa.
Mas elas não têm incentivos fiscais?
- As empresas no Brasil, de um modo geral, não usam os incentivos fiscais para fazer ação social. Existe o incentivo cultural, mas as que usam são minoria absoluta. Há o incentivo para a doação ao Fundo da Criança e do Adolescente, que muito poucas empresas usam. Da mesma forma, com os incentivos para doações a entidades de finalidade pública. As empresas reclamam, dizem que os efetivos não se aplicam ao que elas fazem ou são recursos pequenos e muito burocratizados, ou que elas desconhecem. Recursos federais e estaduais, por exemplo: as empresas que declaram pelo Simples não podem obter recurso. Outras, dizem que não têm imposto a pagar. Ou seja, por diversas razões eles são muito pouco utilizados no Brasil. Na segunda edição da pesquisa, como mudou o perfil, reduziu o porte das empresas, apenas 1% declarou ter usado incentivo fiscal. Olhando só as empresas grandes aumenta, mas mesmo assim é pequeno o número das que usam os incentivos.
Como é a nossa situação em relação ao exterior?
- Em 2000, o Brasil destinava R$ 4,7 bilhões, o que dava US$ 2,5 bilhões. Representava 0,43% do PIB. Para aquele ano tinha uma pesquisa dos Estados Unidos, mais ou menos semelhante, que mostrava US$ 10,8 bilhões, ou mais de quatro vezes. Só que lá representava 0,11% do PIB. Então, em proporção ao PIB, o nosso chegava a ser maior. E lá os incentivos fiscais são muito mais utilizados do que aqui.
As ações das empresas no social são planejadas e têm continuidade, ou pode haver apenas modismo?
- A freqüência no atendimento foi uma questão que nos preocupou um pouco na comparação entre os dois anos. Mas temos que tomar cuidado, porque hoje nós temos uma participação maior das microempresas. Em 98, chegava a 57% o porcentual das que diziam atuar freqüentemente. Caiu para 36%, em 2003. Perguntamos se tinham planos de ampliar. Em 98, no Sudeste, 36% das empresas que atuavam diziam que queriam crescer nas ações sociais, tinham planos de expansão. Em 2003, esse porcentual subiu para 45%. Havia essa percepção de que podia ser um ano mais difícil, mas a intenção era crescer. Pensar no futuro é pensar no que está levando as empresas a atuar. Por um lado, há as pessoas humanitárias, que sempre estiveram presentes. Mas só isso não é suficiente para sabermos se essa atuação vai crescer ou não. Por outro lado, há a pressão de mercado. Cada vez mais empresas socialmente responsáveis vão se tornando mais competitivas no mercado. Mas tem também o estímulo da pressão do consumidor, que vai depender muito de como vai se comportar. Quer dizer, se houver a pressão da comunidade, da sociedade como um todo, acho que isso vai influenciar.
Como é a participação das pequenas, médias e grandes empresas?
- Das grandes, com mais de 500 empregados, 96% fazem algum tipo de ação social. É preciso considerar que nós estamos falando de pequenas doações eventuais até grandes projetos, bem estruturados. Quando você olha as microempresas, com um a dez empregados, 70% fazem algum tipo de doação. É uma participação muito grande.
Que áreas as empresas beneficiam?
- No conjunto, em 1998, o binômio foi assistência social em primeiro lugar, em segundo, alimentação. Agora, quando nós atualizamos, inverteu. Em 2003, se debateu muito a questão da fome no País. A alimentação passou para o primeiro lugar, a assistência, para o segundo. Quando as empresas crescem o perfil muda, aumenta bastante a participação na área da educação. Ao falarmos no conjunto, estamos falando numa grande maioria de microempresas. Ou seja, é o atendimento às demandas emergenciais das comunidades vizinhas. O principal, para as microempresas, é a criança. As empresas atuam na área de alimentação e assistência para o grupo infantil. Agora, é uma ação muito fragmentada.
Cada empresa atua, muitas vezes, isoladamente e você perde a possibilidade de um impacto maior. As federações, as associações, poderiam estar fazendo ações mais articuladas, por exemplo entrar numa comunidade carente, mais pobre, cada um pega um dos problemas, um ajuda na escola, outro na saúde, para dar um atendimento mais integrado. Mas isso é caminho, isso é processo. Outra coisa é que de fato essa ação representa muito pouco em termos do faturamento das empresas, dos recursos alocados: 0,35% do PIB, é muito pouco em relação à riqueza produzida.
As empresas fazem parceria com ONGs ou com o governo?
- Com ONGs, elas atuam fazendo doações para empresas filantrópicas. Em 2003, por exemplo, 66% das empresas disseram fazer doações para entidades comunitárias e filantrópicas. E 55,1% diretamente para as comunidades. Com o Estado é uma questão que vem se modificando. Até anos atrás, as empresas queriam distância do Estado, mas isso vem mudando. Elas começam a perceber que é importante fazer parcerias com políticas públicas, pode ser federal, estadual, municipal, quer dizer, apoiar escolas, postos de saúde, creches. Cada vez mais isso passa a ser entendido como um avanço na atuação das empresas.
Como a senhora vê as posições antagônicas de dois Prêmios Nobel, o indiano Amartya Sen, que defende o papel social da empresa, e o americano Milton Friedman, para quem a empresa faz esse papel ao dar empregos e pagar impostos?
- Entendo que pagar imposto, gerar emprego, garantir qualidade social é obrigação. É claro que tem repercussão na sociedade e que é importante. Mas também é importante, sobretudo no Brasil, com os problemas sociais que temos, com nossas desigualdades sociais, que as empresas possam ir além de cumprir as suas obrigações. E nós fizemos essas perguntas para as empresas.
Perguntamos se achavam que para contribuir com a comunidade basta pagar impostos, gerar emprego e garantir a qualidade dos produtos. No Sudeste, 34% concordam. Mas 56% discordam. E quando a gente pergunta também se é papel das empresas realizar atividades sociais para ajudar comunidades carentes, a maioria (53%) concorda. A grande concordância é que todas acham que é obrigação do Estado cuidar do social. Concordam com isso 81%, mas a maioria acha que é papel delas também fazer alguma coisa pelo social. |
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