Mulheres em Ação
Intuição feminina para a sustentabilidade
Miriam Scavone
Comprar ações pode ser um empreendimento voltado para diversas finalidades: aumentar a renda pessoal, plantar para o futuro, viver de dividendos, diversificar o pacote de investimentos. Mas, nos últimos tempos, boa parte dos acionistas tem se dado conta de que se trata de mais que mera aplicação. Significa acreditar na competência e nos valores da empresa e participar de um movimento econômico com repercussões ambientais, sociais, globais. Para esse grupo, não há dúvida de que é preciso adquirir papéis de corporações que exibem governança corporativa, ética, responsabilidade social. Até porque investimentos de longo prazo exigem visão de futuro e a longevidade de uma empresa de capital aberto está diretamente ligada a bases sólidas de confiança com acionistas e sociedade.

Pois justamente nesse momento histórico, no qual sustentabilidade, governança corporativa e responsabilidade social ganham força como referências para investimentos, as mulheres avançam no mercado de ações. Excelente coincidência! A conseqüência é que elas estão puxando a corrente do investimento responsável. "Na primeira conversa que tive com a corretora perguntei que empresas tinham ações valorizadas. Em seguida, já quis saber quais eram bem transparentes, honestas com os acionistas, e tinham programas que ajudavam a melhorar o mundo", conta a engenheira civil Nicole Gonçalves, de Curitiba. "Não dá para pensar só em lucro, a gente tem que enxergar mais longe", reflete.

Nicole pode não ser ainda uma representante da maior parcela das acionistas do sexo feminino, mas traduz uma postura que tem feito escola. Uma pesquisa divulgada recentemente, feita pelos Institutos Akatu e Ethos, com base nas opiniões de 800 moradores das principais capitais do País, concluiu que seis em cada dez brasileiros defendem a idéia de que o governo crie leis para obrigar as empresas a ter maior responsabilidade social. Mais que isso: mostrou que 88% acreditam que a iniciativa privada tem o dever de participar da solução para problemas sociais e ambientais do País. "Aplicar os investimentos em empresas socialmente responsáveis é um jeito moderno, inteligente de contribuir para o bem pessoal e o da sociedade", comenta Helio Mattar, diretor presidente do Instituto Akatu de Consumo Consciente. "Eu não me surpreendo de ver as mulheres puxando essa onda, porque a preocupação com o todo, a comunidade, o conjunto da sociedade, é uma característica feminina."

Menos risco - Investidores como Nicole ganharam, em dezembro passado, uma excelente ferramenta para direcionar suas aplicações: o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Ele mede o desempenho de 34 ações de 28 empresas de capital aberto que exibem alto grau de governança corporativa e de respeito social e ao meio ambiente - além, claro, de saúde financeira. "São ações lucrativas e com promessa de ganhos a longo prazo", explica Ricardo Pinto Nogueira, superintendente executivo de operações da Bovespa e coordenador do ISE. "Uma empresa que respeita o meio ambiente não irá, no futuro, ser surpreendida por uma multa que comprometerá seus resultados; a que tem boa governança corporativa não prejudicará acionistas minoritários; a que se preocupa com a comunidade terá sempre o respeito dos consumidores garantido e, portanto, venderá mais", diz.

Não existe ainda um histórico que permita garantir que, a longo prazo, ações do ISE darão mais lucro que outras. Mas há dados que merecem consideração. De janeiro a julho deste ano, por exemplo, o índice apresentou alta de 9,5%. Acima, portanto, do patamar de 8,2% do Ibovespa. Outra constatação que merece atenção é a de que índices de sustentabilidade consagrados, como o Dow Jones Sustentability Index (DJSI), nos Estados Unidos, e o FTSE4 Good Global Index, da Inglaterra, já comprovaram o melhor desempenho das ações de empresas com alto índice de sustentabilidade. "Não se trata apenas de ser boazinha", reitera Celina Truman, gerente da área de recursos humanos, que iniciou a experiência com ações há poucos meses e decidiu começar por papéis das empresas relacionadas no ISE. "Com essas empresas é mais difícil acontecer uma tragédia como a que houve com a Enron, nos Estados Unidos."

Ética e responsabilidade - Em dezembro, a carteira do ISE será renovada pela primeira vez. Há vagas para 40 empresas, sendo que as 28 que estão lá, hoje, dificilmente perderão o posto conquistado. O grupo atual - que inclui empresas como Natura, Bradesco, Votorantim, Eletropaulo, Itaúsa e Banco do Brasil - é um bom exemplo para quem almeja entrar para o clube. Todas passaram por um processo de seleção rigoroso, baseado na metodologia criada especialmente para o ISE, desenvolvida pelo Centro de Estudos da Sustentabilidade (CES), da Fundação Getulio Vargas. Ela levou em conta quatro pilares básicos: o desenvolvimento na área ambiental, na social, a governança corporativa e o desempenho econômico financeiro. Além disso, há a avaliação dentro de uma dimensão geral, que leva em conta quesitos como natureza do produto e divulgação de balanço de sustentabilidade. "As empresas selecionadas apresentam transparência em pontos que vão além do financeiro", explica Gladis Ribeiro, diretora executiva do CES. "Esse diferencial tranqüiliza muito os investidores", completa.
 
Fundos que olham para o futuro

Com o surgimento do ISE, a tendência à criação de fundos éticos cresceu no País. Já existem no mercado quatro fundos que tomam como referência esse índice de sustentabilidade, oferecidos pelo Bradesco, Banco do Brasil, Safra e HSBC. "Os investidores se animam porque existe uma perspectiva otimista para essas empresas, já que elas atuam em adequação com o que se exige de uma grande companhia hoje", comenta Wagner Siqueira, analista master da Diretoria de Responsabilidade Social do Banco do Brasil.

Desde 1998, os investidores brasileiros contam com fundos desse tipo. O pioneiro foi o Ethical, do ABN Amro, que chegou com a proposta de aplicações em ações de empresas que, além de apresentarem ótimas perspectivas financeiras, incorporassem a análise de sustentabilidade em seus relatórios. Da data de seu surgimento até julho, o Ethical 1, para aplicações a partir de 100 reais, acumulou uma alta de 254%. Acima, portanto, do Ibovespa, que foi de 228,8%. "Esse fundo existe em outras regiões do mundo e algumas pesquisas indicam que a maior parcela de investidores é formada por mulheres, como é o caso da Ásia", revela Bruno Erbiste, analista de investimento socialmente responsável do ABN Amro. "Não existem dados sobre a segmentação por gênero no Brasil, mas não temos dúvida de que fundos desse tipo interessam muito às mulheres, que sempre olham para o futuro e se preocupam em planejar a vida de toda a família."
 
Gabriella Icaza
Em média, emprestimos de R$ 1 mil por cliente
A empresária Gabriella Icaza, diretora-presidente do Banco Nacional da Mulher, no Rio de Janeiro, acorda todos os dias com uma meta: dar condições para mais uma mulher de baixa renda desenvolver seu pequeno negócio. O banco, criado em 1984, já atendeu mais de 40 mil mulheres. São boleiras, costureiras, tricoteiras, artesãs, profisionais, mulheres, enfim, que precisam de dinheiro para dar um pequeno upgrade na sua atividade.

  • Estar à frente de um banco de microcrédito para mulheres de baixa renda é uma escolha ou uma missão?
  • - É uma escolha. Sou formada em administração de empresas, trabalhei muitos anos como alta executiva de bancos. Sinto-me na obrigação de ajudar aquelas que têm dificuldade para conseguir apoio financeiro.

  • Que tipos de negócios o banco financia?
  • - Para obter o crédito, a mulher precisa já ter um negócio em andamento. Coisas como fazer bolo, ser costureira, fazer cestas de café da manhã...

  • Ele atende mulheres de todo o País?
  • - Infelizmente não temos estrutura para isso. Estamos apenas em cidades pequenas porque fazemos questão de monitorar de perto a evolução dos negócios e temos poucos agentes.

  • Qual pode ser o valor do financiamento?
  • - A média é de R$ 1 mil, mas pode chegar até a R$ 10 mil e sempre se pode pedir um novo empréstimo.

  • E quais vantagens ela tem em relação a um banco comum?
  • - Os juros vão de 3,5% a 4% ao mês e não pedimos garantias além das triviais. Mesmo assim, a inadimplência é muito menor que em qualquer outro banco.

  • Há levantamentos sobre a longevidade desses negócios?
  • - Não, porque o acompanhamento é feito enquanto ela é financiada e qualquer tipo de pesquisa é muito cara. Como o nosso limite de empréstimo é de R$ 10 mil quando a mulher prospera precisa ir atrás de fontes mais formais de financiamento.

  • O que é exigido para garantir que o negócio terá sustentabilidade?
  • - Como as clientes não têm balanço nem escrita, o crédito é baseado em perguntas, respostas, visitas a clientes, verificação de instalações e acompanhamento. O agente apenas recomenda para o comitê, baseado em critérios e metodologia própria.

  • De onde vem o dinheiro?
  • - De bancos de desenvolvimento, secretarias do desenvolvimento social e outras instituições. O dinheiro é repassado para nossas afiliadas, que são organizações da sociedade civil de interesse público (Oscip's). O Banco Nacional, aqui no Rio, é ONG, não recebe dinheiro público.

  • Essas mulheres poupam dinheiro para o negócio e a vida no futuro?
  • - Sinceramente, acho que é um campo que podemos explorar nos próximos anos. Porque essa mulher trabalha muito, mas geralmente não pensa no longo prazo. Uma ação de educação financeira nesse sentido seria muito positivo, até porque ela é uma grande multiplicadora.

  • Como cuida de seu dinheiro?

  • - Não tenho nenhum problema em lidar com dinheiro, mas curiosamente sempre deleguei essa tarefa a outras pessoas. Hoje, quem administra é o meu filho. E ele nunca me decepciona! (M.S.)
     
    Maria Silvia Bastos Marques
    O papel do mercado de ações na capitalização
    A carioca Maria Silvia Bastos Marques desafia o estereótipo do executivo associado ao mundo masculino: administradora de empresas, tem mestrado e doutorado em economia e foi a primeira mulher a ocupar a presidência da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a maior siderúrgica integrada da América Latina. Secretária da Fazenda do Rio na gestão de César Maia, em 1995, ficou conhecida como a "mulher de 1 bilhão de dólares", referência ao valor do caixa do município deixado após sua saída, um fato inédito. Mãe dos gêmeos Olavo e Catarina, participa hoje dos conselhos de administração de empresas como Souza Cruz, Pão de Açúcar e Arce.

  • Fez carreira de sucesso na administração pública e privada. O fato de ser mulher desempenhou algum papel nessa trajetória?
  • - Acho que sim. A administração de uma mulher é diferente da de um homem. Sem juízo de valor, ou seja, se é melhor ou pior. Apenas é diferente. Nunca pretendi atuar como um homem. Sempre entendi que ser mulher é um diferencial importante e que eu deveria usar nossas "vantagens competitivas" (facilidade para trabalhar em equipe, preocupação com o pessoal, fazer diversas tarefas simultaneamente) para realizar melhor os projetos em que estive envolvida.

  • Ficou conhecida por deixar em caixa US$ 1 bilhão quando foi secretária da Fazenda do Rio do Janeiro. Qual foi o segredo?
  • - Este foi o valor que a Prefeitura do Rio chegou a ter em caixa. O segredo foi ter a administração alinhada em torno de objetivos, gestão do orçamento e do caixa sob o mesmo comando (em geral, é feito de forma separada, o que acarreta, muitas vezes, a famosa administração "da boca do caixa"). Todos os órgãos da administração indireta discutiam seus orçamentos e seus desembolsos, previamente, com a equipe da Fazenda. O Plano Real aconteceu durante o mandato do prefeito e nós (os secretários) nos preparamos renegociando contratos, retirando o fator inflacionário, fazendo novas licitações, revendo a estrutura dos impostos, enfim, fazendo o dever de casa. Como resultado, a Prefeitura entrou no Plano Real com o caixa alto, multiplicado com aplicações financeiras corretas (em títulos de outros Estados, na maioria das vezes) e um plano de investimentos bem definido. O grau de profissionalismo na gestão da Prefeitura era muito elevado, não só na Secretaria de Fazenda, como também nas demais secretarias e órgãos de governo. Além disso, o entrosamento entre as equipes das diversas secretarias e órgãos da administração indireta certamente contribuiu muito.

  • O que acha que poderia ser melhorado na administração pública?
  • - É preciso valorizar mais a carreira de funcionário público, para que se torne novamente uma opção concreta de carreira para os jovens que ingressam no mercado de trabalho. Para isto a meritocracia, salários alinhados ao mercado privado e a eliminação da estabilidade no emprego são fundamentais. Obviamente, isso só funciona se acompanhado do profissionalismo na gestão pública e na não-interferência política nos cargos e funções.

  • Como vê o papel do mercado de ações?
  • - Acho que o mercado de ações é fundamental para a capitalização das empresas e o financiamento de projetos de investimentos.

  • Pessoalmente, como a senhora administra as suas finanças?
  • - De maneira conservadora, com um mix de investimentos em renda fixa e renda variável. (R.D.)
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