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Tendências |
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O País e o envelhecimento |
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Paulo Tenani
Estrategista do UBS Wealth Management e professor de Finanças Internacionais da Fundação Getúlio Vargas |
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O mundo desenvolvido está envelhecendo. Ano após ano, na medida em que as pessoas têm menos filhos e a expectativa de vida aumenta, uma porcentagem cada vez menor da população dos países desenvolvidos estará ingressando no mercado de trabalho; ao mesmo tempo que uma porcentagem cada vez maior estará atingindo idade para aposentadoria. Esta é uma modificação demográfica sem precedentes na história moderna; uma modificação que não nos fornece exemplos para servirem de guia, mas que, nas próximas décadas, terá impactos significativos sobre a maneira como vivemos, sobre nossas instituições, sobre o progresso econômico e sobre a distribuição de renda entre pessoas e países.
Os números impressionam. Segundo recente estudo do UBS Wealth Management, Demografics: a coming of age, a taxa de fertilidade nos países desenvolvidos - definida como o número de nascimentos por mulher - já caiu abaixo do mínimo necessário para recompor as gerações. Na verdade, a taxa de fertilidade necessária para evitar que uma população decresça - também chamada de "taxa de recomposição" - é geralmente estimada ao redor dos 2,1 nascimentos por mulher. Para muitos países desenvolvidos, a fertilidade já está abaixo disso e, ao longo dos próximos anos, deverá cair ainda mais - em um processo que, gradualmente, irá derrubar a taxa de fertilidade mundial para 1,9 nascimento por mulher em 2050. Mas as notícias não param por aí. Segundo o mesmo estudo, a população dos países desenvolvidos está também vivendo cada vez mais tempo. Nas últimas décadas, os avanços da ciência médica foram tantos que a expectativa de vida de uma pessoa nascida hoje, em um país desenvolvido, é de 76 anos - e deverá aumentar para 82 anos em 2050. Ou seja, olhando para o futuro, os países desenvolvidos estarão se defrontando com um número cada vez maior de pessoas que, apesar de não mais participarem do processo produtivo, continuarão a consumir. E este fato terá conseqüências profundas, que irão muito além do simples questionamento sobre a sustentabilidade ou não dos vários sistemas previdenciários da Europa ou dos Estados Unidos.
Mas o que o envelhecimento da população dos países desenvolvidos significará para o Brasil - um país que, segundo o estudo, "deve permanecer relativamente jovem, dada sua taxa de fertilidade ainda alta; apesar de declinante". Uma coisa é certa: não significará pouco! Ao longo das próximas décadas, e na medida em que o Brasil permanecer integrado à economia mundial, o envelhecimento dos países desenvolvidos será uma força fundamental na direção de inserir todo um contingente de jovens brasileiros - até então relegados ao subemprego - ao mercado de trabalho. Será também uma força na direção de um crescimento econômico mais forte, um salário real mais alto e uma taxa de juros mais baixa. Estas são tendências surpreendentemente favoráveis para o Brasil, um país que, desde a década de 80, vem amargando um crescimento econômico médio de 2,5% ao ano - que mal compensa a depreciação do capital e o crescimento populacional. E o mecanismo pelo qual o Brasil poderá se beneficiar desta nova tendência global será o seguinte.
Comecemos com os países desenvolvidos. Nas próximas décadas, na medida em que o processo de envelhecimento populacional aumentar a proporção entre aqueles que são aposentados e aqueles que são economicamente ativos, o salário real deverá subir nesses países - tornando as indústrias cada vez mais intensivas no uso do capital, e derrubando as taxas de juros reais. Notem que, quando comparado aos emergentes - e ao Brasil em particular - os países desenvolvidos já são caracterizados por salários mais altos e taxas de juros mais baixas. Ou seja, as mudanças demográficas resultantes do envelhecimento dos países desenvolvidos irão, na verdade, amplificar as atuais diferenças; criando condições para um processo de globalização ainda mais intenso; em que comércio internacional, mobilidade do capital e migrações surjam como mecanismos que atenuem tais divergências.
Bem, ainda não está claro em qual destas dimensões - comércio internacional, mobilidade do capital, migrações ou uma combinação desses fatores - o processo de globalização irá intensificar-se. Porém, as conclusões não se alteram: o envelhecimento dos países desenvolvidos resultará, mais cedo ou mais tarde - e através da globalização - em salários mais altos e juros mais baixos também nos países emergentes. Mais ainda, segundo o estudo do UBS Wealth Management, o crescimento econômico também será gradualmente transferido dos países desenvolvidos para os emergentes - com os maiores benefícios sendo auferidos justamente por aqueles países que possuem um excedente de trabalhadores e uma população relativamente jovem. O Brasil, sem sombra de dúvidas, preenche esses requerimentos!
Concluindo, o envelhecimento da população dos países desenvolvidos terá, nas próximas décadas, repercussões que irão muito além do tradicional debate sobre a sustentabilidade ou não dos sistemas previdenciários da Europa ou dos Estados Unidos. Na verdade, tamanha mudança demográfica terá também implicações profundas para a economia brasileira que - na medida em que permanecer integrada à mundial - deverá beneficiar-se de um crescimento mais acentuado, salários mais altos e uma taxa de juros declinante. Mais importante, porém, será a integração ao mercado de trabalho de todo um contingente de jovens brasileiros - até então relegados ao subemprego. Para o Brasil, portanto, as perspectivas são bastante positivas. Afinal, com o envelhecimento dos países desenvolvidos, investir no Brasil deixará de ser uma opção e passará, na verdade, a ser uma necessidade. Cabe ao País: aperfeiçoar suas instituições, aprimorar seu capital humano e abrir a economia - para poder auferir ao máximo os benefícios das mudanças demográficas que estão por vir.
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