|
| Unesco |
|
De Cascadura a Paris
|
| Por René Decol, de Paris |
 |
|
 |
|
|
 |
|
Maria Helena Henriques
|
|
Na Espanha, interesse pela Bolsa de Valores Sociais
|
|
Chefe da seção de jovens da Unesco, o braço da educação, ciência e cultura das Nações Unidas, sediada em Paris, Maria Helena Henriques ocupa um dos mais altos postos da organização multilateral. Ela é um desses exemplos de que o Brasil pode se orgulhar: nascida em Cascadura, um subúrbio do Rio, passou pela PUC e pelas universidades norte-americanas de Berkeley e Harvard. "É muito difícil colar o começo da minha história com esta seqüência", diz. "Venho de uma família de classe média baixa, não fui à escola até os 10 anos de idade. Jamais poderia esperar ter feito uma carreira como a minha. Tive a sorte de ter acesso a boas escolas, sempre com bolsas de estudo, e sou muito grata aos adultos que me abriram oportunidades. Por isso, a coisa mais importante que a gente pode fazer pelos jovens é abrir oportunidades."
A socióloga Maria Helena fez um pouco de tudo no terceiro setor. Formada em sociologia e demografia - em Berkeley e Harvard - foi assistente de Kingsley Davis, considerado um dos mais importantes demógrafos-sociólogos da atualidade, foi professora da Fordham University, em Nova York. De lá foi para a Turquia, em 1988, onde trabalhou na área de saúde, ensinando bioestatística e epidemiologia para médicos nos grandes hospitais daquele país.
Em 1991, de volta aos Estados Unidos, trabalhou na Organização Mundial de Saúde. Na Unesco desde 1993, esteve em nome da organização na Bósnia, em 1994, em plena guerra. "Tive a satisfação de trabalhar com Sergio Vieira de Mello", lembra ela, citando o brasileiro que ocupou, nos últimos momentos de sua carreira, o cargo de Alto-Comissário de Direitos Humanos da ONU, antes da morte trágica em agosto de 2003.
A senhora chefia um grupo de jovens da Unesco e tem escrito e trabalhado muito sobre a questão da juventude, propondo inclusive o conceito de 'transição da juventude'. Poderia explicar melhor esse conceito?
- Temos de entender a juventude como um conjunto de processos de transição, hoje todos eles bastante problemáticos. Uma dessas transições é a saída da família de origem e a construção da família de destino. Mas viver na cidade para o jovem de hoje não é fácil: o domicílio urbano se tornou caro, o custo de vida é cada vez mais alto. O segundo ponto é se sentir satisfeito com a sua educação. Ninguém, quando se forma, está satisfeito com a sua educação. Em todos os meus níveis, quando terminei minha educação, sempre me perguntei: será que estou preparada? Mas hoje essa situação se agravou. Confrontado com o mercado de trabalho, o jovem percebe que há um fosso entre sua formação e as exigências do mercado. Há um grande desafio que é repensar o mundo da educação, que tem sua âncora na escola. Mas a escola tem que se abrir para o resto da sociedade, tem que convidar o setor privado para dar palestras, convidar gente satisfeita com suas carreiras para falar delas, convidar entidades que trabalham na área de educação não formal para dar cursos profissionalizantes de curta duração. Toda a educação tem de ser repensada porque não está dando conta do recado. A terceira transição é a do mercado de trabalho. A taxa de desemprego dos jovens em qualquer país do mundo atualmente é duas ou três vezes maior do que a taxa de desemprego dos adultos. Esse é um fenômeno inaceitável. O jovem desempregado faz o quê? Não faz nada, já saiu da escola. Um paradoxo que aliás também existe no Brasil é que você aumenta a educação, a escolaridade, mas aumenta o porcentual dos jovens que não estão nem na escola nem no mercado de trabalho. É preciso repensar a articulação da educação com o mundo do trabalho. E o quarto desafio é o jovem conseguir algum meio de obter sua renda. O status hoje em dia, até mesmo na relação entre homem e mulher, depende cada vez mais da renda. O ganho do jovem está sendo insuficiente para as expectativas criadas. A pobreza é outro componente dessa transição que não existia na minha geração. Antigamente você era pobre porque nascia em uma família pobre. Hoje em dia a entrada na pobreza na juventude é quase igual em termos porcentuais à entrada na pobreza no momento do nascimento. Isso também não é possível. Temos de quebrar esses pontos de estrangulamento da formação do capital social que é a formação do jovem em qualquer sociedade.
Neste ponto entra o problema da migração internacional...
- Acho que essa é a grande batata quente dos próximos anos. Ela é basicamente uma migração de jovens, homens e mulheres jovens. O resto da família vem depois. A meu ver, essa é uma discussão que deveria sair da esfera de cada país e passar para o nível das organizações multilaterais. A migração vai ser cada vez mais uma forma de ajuste, e eu diria mesmo, do sucesso ou do fracasso da globalização. Com as mudanças demográficas em curso no mundo, 85% dos jovens estão no sul, no mundo em desenvolvimento. E esse porcentual vai crescer: de cada dez nascimentos, nove serão no mundo em desenvolvimento. Ou seja, de cada dez jovens, nove estarão nos países em desenvolvimento. De onde vem a mão-de-obra do mundo desenvolvido? Claro, do mundo em desenvolvimento. Essa é uma questão importante na hora de negociarmos uma formação adequada para nossos jovens, para a formação do nosso capital humano. Essa vai ser uma grande discussão, em que as Nações Unidas vão ter de entrar: a necessidade de formação de capital humano nos países em desenvolvimento.
Como a iniciativa privada, e particularmente o mercado de ações, poderia contribuir?
- Nós das Nações Unidas acordamos tarde para a importância de abrir parcerias com o setor privado. Algumas dessas parcerias se multiplicam de forma rápida e poderiam ser muito mais bem exploradas. Na Europa, por exemplo, atualmente é muito popular a prática de a empresa pagar as férias de um funcionário em algum país onde ele fará algum tipo de trabalho solidário com a comunidade local. Mas pode se avançar muito mais. O mercado tem de se abrir no sentido de ver as brechas onde ele pode entrar e desempenhar o seu papel em termos de políticas sociais que o Estado não consegue dar conta. Recebi outro dia uma ligação de um funcionário da Bolsa de Valores de Madri que dizia ter descoberto que a Bovespa tinha um braço de ações sociais [a Bolsa de Valores Sociais] e ele queria mais informações para poder imitar esse projeto lá na Espanha. A Bolsa de Valores Sociais é uma iniciativa fantástica porque coloca as organizações não-governamentais em contato direto com os mecanismos de financiamento. O setor privado tem muito a oferecer, mais experiência com mecanismos de prestação de contas. E isso é importante até mesmo na luta contra a corrupção.
Como alguém que fez uma carreira internacional no terceiro setor vê o dinheiro?
- Levei muito tempo para lidar bem com dinheiro. É um instrumento que completa outros ingredientes da minha satisfação. É importante, é planejado, faz parte das minhas negociações tanto na vida pessoal como na profissional, mas não é o ingrediente essencial. Antes, faz parte de um conjunto: o que estou procurando como desenvolvimento pessoal e profissional, quais são as outras pessoas com quem vou trabalhar, a quem vou beneficiar. É neste sentido que já estou pensando na minha aposentadoria: como vou aplicar com as populações carentes do Brasil as boas iniciativas que tenho visto pelo mundo afora. |
|
|
|
[-] voltar |
|
|
|
|
|
|
 |