Antítese - Edição 79 - Março de 2010 - Revista Capital Aberto
A educação financeira deve ser incluída obrigatoriamente no currículo escolar?
09|04|2010
Opinião SIM
Alguém precisa ensinar
Não podemos deixar que a deficiência de conhecimento em finanças seja passada de geração a geração
Por Luiz Roberto Calado*
A alfabetização financeira é um elemento fundamental para o processo de preparação do jovem para a vida adulta. Durante o congresso sobre educação financeira da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), de que tive a honra de participar em dezembro de 2009, ficou evidente o interesse de diversos países do mundo em implementar programas de instrução financeira. O Brasil não foge à regra e, em abril, pretende colocar em prática o Projeto Educação Financeira na Escola, desenvolvido pelo governo federal em conjunto com agentes do setor privado. A ação faz parte da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef).
Vale lembrar que o ensino de finanças se inclui num propósito maior: oferecer condições para que as futuras gerações vivam de forma sustentável em nossa sociedade. Devemos reconhecer que a instrução financeira é uma habilidade da vida, a ser transmitida pelo sistema escolar ou pelos pais. Porém, a carência de entendimento sobre finanças destes últimos gera, muitas vezes, uma espiral descendente, na qual a deficiência de conhecimento é passada de geração a geração. Logo, a absoluta relevância do papel das escolas.
Infelizmente, para que a instrução financeira nos colégios vá adiante, será preciso torná-la obrigatória. Atualmente, as escolas não adotam esse ensino voluntariamente, o que, dentre outros motivos, deve-se à falta de incentivo à aplicação de disciplinas complementares.
Assim, a maneira mais segura de garantir que esse conhecimento seja transmitido é sua inclusão mandatória no currículo escolar. Isso permitiria a democratização do ensino de finanças. O fato de a grade escolar estar lotada não deve ser motivo para preocupação. A educação financeira não precisa ser incluída à custa do ensino de outras disciplinas fundamentais. Conceitos sobre finanças podem ser apresentados aos estudantes em conjunto com outras matérias, como equações e progressões aritméticas, por exemplo.
Por ser uma iniciativa nova, obviamente corremos o risco de não termos professores devidamente preparados para lecionar finanças. No entanto, como esse é um assunto que instiga o aprendizado por ter uma aplicação prática, o treinamento de profissionais não será uma tarefa difícil de se alcançar. Os próprios professores, além dos alunos, seriam beneficiados com esse conhecimento. Poderiam administrar melhor seus gastos de forma a poupar e realizar decisões de investimento seguras. Uma certificação profissional para essa atividade também poderia ser estruturada, bem como uma política de bonificação que incentivasse a participação dos professores.
Por fim, acusar que livreiros, por ganância, seriam parte interessada nesse projeto é desmerecer uma relação madura que existe entre as editoras e o governo. Trata-se de uma visão simplista e tola, que não encontra eco num debate mais sério. Havendo a demanda, o País apresenta total capacidade para criar material didático de boa qualidade e capacitar os professores a usá-los.
Hoje, o Brasil apresenta produtos financeiros de qualidade, em um ambiente eficiente de regulação e autorregulação, além de profissionais preparados para oferecer produtos de investimentos. Todos são obrigados a ter uma certificação profissional, que visa a aprimorar a capacidade técnica desses agentes de realizar uma venda consciente. Nesse sentido, a educação dos nossos jovens, com o objetivo de formarmos uma geração capaz de tomar decisões sábias de investimento, seria a etapa final para concluirmos esse círculo virtuoso no mercado de capitais brasileiro.
* Luiz Roberto Calado é autor de livros voltados a finanças, vice-presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças (Ibef) e gerente de certificação na Anbima
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| Opinião NÃO Prioridade é ler e escrever É justo o governo ensinar quem está condenado ao subemprego a fazer uma poupança? Por Cássia D'Aquino* Enquanto escrevia este artigo, recebi um telefonema da minha editora de livros didáticos. Entusiasmada com os rumores relacionados à introdução obrigatória da educação financeira nas escolas, ela queria comemorar a novidade e, claro, festejar as perspectivas de vendas futuras. Quando, em meio ao seu júbilo, disse-lhe que, no cenário atual, era contra a adoção e que me ocupava naquele momento em espalhar as razões da minha oposição, ela suspirou quase triste. Acho que perdi uma editora. Não conheço em detalhes a lei que trata da obrigatoriedade. Quase ninguém conhece. Portanto, o que tenho sobre ela são dúvidas que caminham para inquietações e deságuam em franca desconfiança. Não consigo vislumbrar como, por força de lei, os professores ensinarão um assunto que eles desconhecem. Quem irá preparar esses profissionais que são, muitas vezes, gestores inábeis do próprio orçamento? Conheço o poder que os professores têm sobre os alunos. Dinheiro é um assunto escondido sob mil véus inconscientes e ideológicos. Apavora imaginar o uso que um educador despreparado ou mal intencionado, acobertado pelo aval da obrigatoriedade, possa fazer desse tema. Também acho espantoso que o governo se empenhe em criar novas disciplinas obrigatórias. Não é segredo que os docentes estão sufocados de conteúdos a transmitir. Nesse cenário de exigências sobrepostas, supor que os professores encontrarão tempo, disposição ou vontade para a educação financeira é pedir mais do que eles podem entregar. É sabido que a qualidade do ensino nas escolas brasileiras é péssima. Países como Paraguai, Equador e Bolívia possuem níveis de educação melhores que os nossos. Na avaliação mais recente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), em 2007, o Brasil ficou em 52° lugar, dentre os 57 países participantes. Sabendo disso, pergunto: o governo não seria muito mais responsável se concentrasse esforços na superação das dificuldades atuais em vez de dispersar energia e recursos na criação de novos conteúdos obrigatórios? É justo que, como política pública, o governo pretenda ensinar a fazer um orçamento ou planejar uma poupança a quem, dada a precariedade do sistema educacional, estará condenado ao subemprego e a depender de favores assistencialistas? Se o governo está interessado, de fato, em preparar a população para lidar com dinheiro, que faça isso cuidando, por exemplo, para que os jovens não mais concluam o ensino médio sem saber ler e escrever. Lidar com dinheiro de maneira adequada e responsável implica reconhecer as escolhas que estão postas na vida financeira. E é evidente que quem não sabe ler e escrever já entra perdendo nesse jogo. Isso para não mencionar a dificuldade de inserção dessas gerações de analfabetos funcionais no mercado de trabalho. Em todo o mundo, a educação financeira é um assunto que cabe prioritariamente às famílias. Jogar o peso dessa responsabilidade para os colégios é ingenuidade ou populismo. Nessa trama, o papel das escolas será sempre coadjuvante. O máximo que podem fazer é lapidar a percepção crítica dos alunos em relação ao consumo exacerbado e, por extensão, à louvação vulgar e estúpida da acumulação do dinheiro. E escola nenhuma precisa de lei para fazer isso. Minha oposição é, portanto, resposta ao temor de que a impulsividade da lei, que exagera os benefícios da educação financeira, resulte num tiro no pé. E que, ao cabo, por seu açodamento, acabe por desmoralizar para sempre um tema que é, por tantas razões, fundamental. *Cássia D’Aquino é especialista em educação financeira e Corresponding Member da International Association for Citizenship, Social and Economics Education (Iacsee) |
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