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Artigo

Nordeste é promessa para as próximas aberturas de capital

Por Eduardo Monteiro da Silva Filho*

12|07|2010

Eduardo Monteiro da Silva Filho

O número de fusões e aquisições no Brasil registrou um recorde histórico no primeiro quadrimestre de 2010, sendo o bom desempenho puxado pelas operações do setor de alimentação, que representaram 11% das transações. Segundo dados da PriceWaterhouseCoopers, no total, foram 236 operações e fusões e aquisições registradas entre janeiro e abril deste ano. Este número recorde de transações é um sinal de que o crescimento da economia brasileira, a estabilidade e o aumento da demanda interna tornaram as empresas capitalizadas e preparadas para se consolidar.

Já em relação às expectativas do mercado com as ofertas públicas iniciais _ os IPOs (Initial Public Offering), é possível dizer que Brasil tem uma das melhores relação risco-retorno do mundo no pós-crise e as perspectivas para o Brasil são excelentes, graças ao tamanho da economia, à estabilidade política e econômica e ao potencial de crescimento. Nesse contexto, os setores que os especialistas identificam como de maior potencial são varejo/consumo (por causa do mercado interno forte), financeiro (expansão do crédito a pessoas físicas e empresas), infraestrutura (Copa do Mundo de 2014, Olimpíada de 2016 e exploração do pré-sal), imobiliário (programa Minha Casa, Minha Vida e alta do crédito ao setor) e óleo e gás (pré-sal).

Se o Brasil é a “bola da vez” para os investidores, o Nordeste é a “bola da vez” para o Brasil. Com 52 milhões de habitantes e um PIB aproximado de US$ 250 bilhões, a região Nordeste fica à frente de muitos países das Américas, apenas atrás dos EUA, restante do Brasil, México, Canadá, Argentina e Colômbia.

Os grandes projetos voltados ao Nordeste hoje incluem (a) projetos de infraestrutura, como o Projeto São Francisco, com a transposição do Rio São Francisco e irrigação a vários pontos do semi-árido nordestino, a Ferrovia Trans-Nordestina, ligando o cerrado aos portos de Suape (PE) e Pecem (CE), o pólo urbano-industrial do Recife, o pólo petroquímico Petrobás/PDVSA, a Siderúrgica da CSN, o estaleiro da Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, etc ; (b) grandes investimentos em turismo, como hotéis, aeroportos, centros comerciais e hospitais; (c) industria de ponta, voltada para tecnologia da informação e comunicação (TIC), com criação de serviços de base tecnológica, como o Projeto Digital, desenvolvido a partir da Universidade Federal de Pernambuco; e (c) os projetos sociais do governo federal e governos estaduais, promovendo uma transferência de renda anual de aproximadamente R$ 15 bilhões de reais e atendendo mais de 38 milhões de pessoas.

Tudo isso tem proporcionado a geração de novos empregos e melhoria da condição de vida da população, com aumento de renda e consumo acima da média brasileira. Por outro lado, existe a necessidade de capacitação de mão de obra para atender à demanda de crescimento. Atualmente mais de 70% das empresas têm dificuldade na contratação de mão de obra especializada.

Com a retomada do crescimento, especialmente na região Nordeste, as empresas estão buscando, cada vez mais, “ganhar musculatura” e se capacitarem para enfrentar os desafios da demanda e concorrência de grandes players nacionais e internacionais.

O exemplo recente mais emblemático na região foi a fusão da baiana Insinuante, com a mineira Ricardo Eletro, criando a segunda maior empresa brasileira de móveis e eletrodomésticos, com mais de 500 lojas espalhadas pelo Brasil. Com o crescimento do poder de consumo da classe C, concentrada especialmente na região Nordeste, as redes regionais tendem a se fortalecer para brigar por esse consumidor emergente e fazer frente ao megaconglomerado formado por Pão de Açúcar e Casas Bahia.

Certamente o caminho natural, após a consolidação, será partir para o IPO. É importante lembrar, contudo, que o IPO não é um objetivo-fim, mas um meio através do qual as empresas adquirem uma ferramenta a mais para permitir seu crescimento.

Portanto, se por um lado uma IPO bem realizada é uma ferramenta importantíssima para o crescimento de uma empresa, por outro lado, se mal feita, poderá significar a frustração em futuros lançamentos de ações. Várias são as empresas que se precipitaram na abertura de capital e lançamento de ações no mercado e, hoje, amargam ver a cotação de suas ações na Bolsa em valores bem inferiores ao lançamento. Das 59 ofertas de 2007, 39 estão no vermelho. Em alguns casos, o preço atual chega a estar mais de 80% menor que o de lançamento.

Porém, muitas empresas foram bem sucedidas em suas IPOs. Um exemplo clássico de sucesso foi a IPO da Natura. Lançada, inicialmente, no Novo Mercado (o segmento de mais alta qualidade no quesito governança entre os três existentes atualmente: Níveis 1, 2 e Novo Mercado), mesmo em uma época difícil para a economia brasileira, o mercado demonstrou que podia reconhecer valor em uma empresa sólida que contava com boa governança e que levaria a extraordinários resultados operacionais, o que de fato aconteceu. Suas vendas cresceram 33% em 2004, atingindo R$ 2,5 bilhões, e levando a um crescimento de 117% ao longo dos três anos seguintes.

Tendo em vista este cenário, é fundamental que as empresas preparem-se para o processo bem antes do prazo, em um período entre 18 e 24 meses antes do IPO. Esse cuidado se torna mais importante ainda quando estão envolvidas empresas familiares, que é a principal característica das empresas do Nordeste.

Para esse processo destacam-se:

  • Due Diligence, estudo e diagnóstico da empresa, incluindo estrutura organizacional, financeira, patrimonial e societária;
  • Avaliação da empresa;
  • Definição do posicionamento da empresa perante o mercado e concorrentes (nacionais e internacionais);
  • Análise de possibilidade de associações com empresas concorrentes e/ou complementares;
  • Promoção da estruturação patrimonial, societária e contábil da empresa;
  • Implementação de governança corporativa, com estrutura societária e gerencial compatível, na forma de S.A., incluindo estatuto social e acordo de acionistas prevendo Conselho de Administração que inclua, ao menos 1/3 de Conselheiros independentes e corpo executivo profissionalizado;
  • Análise da possibilidade e necessidade de associação com fundos de private equity.

Ao final deste processo a empresa poderá decidir se pretende ou não seguir em frente e partir para a fase seguinte: a abertura de capital e a realização de sua IPO. Essa decisão deve ser tomada com cautela, levando-se em conta o momento da empresa e a “janela” de oportunidade econômica, interna e externa, lembrando, ainda, que essa fase deve ser posta em prática, pelo menos, 12 meses antes do lançamento.

* Advogado, sócio da área Societária de Martorelli e Gouveia – Advogados

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