Memória seletiva
Na hora de investir, fuja das decisões “intuitivas”
Por Juliana Garçon em 05/03/2010
A inflação vai subir? E o dólar? E a Selic? E a Bolsa? As empresas novatas no pregão vão bombar? Os setores que foram bem no ano passado vão repetir o desempenho este ano?
São tantas dúvidas na hora de investir o dinheiro. Daí que, muitas vezes, a gente acaba tomando decisões meio “intuitivas”, apoiadas apenas na vaga lembrança de um artigo que leu no jornal ou de uma entrevista que viu na televisão. A intenção de tomar uma atitude para multiplicar o patrimônio é boa, claro, mas o resultado...
Ora, tomar decisões em contextos de incerteza é difícil mesmo. Por isso, exige um estudo atento das opções disponíveis no mercado. Temos de ir muito além do “ouvi dizer” para entender os riscos e as probabilidades de que se materializem. A esse respeito, li um comentário animal no livro “Finanças Comportamentais – Pessoas Inteligentes também Perdem Dinheiro na Bolsa de Valores”, dos financistas Claudio Henrique da Silveira Barbedo e Eduardo Camilo da Silva, ambos ligados ao Coppead de Administração, um centro de excelência de Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para falar sobre a forma como interpretamos os fatos, eles tomaram como exemplo uma tese desenvolvida por amigos que criam gatos. Um desses amigos afirmou ter conhecimento, em relatos de outros amigos ou na internet, de 15 gatos que despencaram de alturas maiores do que sete andares, sem registrar nem uma morte sequer.
Assim, ele concluiu que quanto mais alto o tombo, maiores as chances do gato sair ileso. A explicação é interessante. Aparentemente, nas quedas mais curtas, os gatos estendem as pernas de maneira mais rígida, o que aumenta a probabilidade de que se machuque. Em velocidades maiores de queda, especula-se que o gato relaxa e alonga lateralmente suas pernas, aumentando a resistência do ar e ajudando a distribuir o impacto da queda no solo.
“Você também não se sente incomodado com essa estranha teoria?”, questionam os autores, que acabaram achando uma comunidade na internet de donos de gatos acidentados e, assim resolvendo o mistério: muitas pessoas tinham perdido seus bichanos em quedas, mas simplesmente não ficavam falando sobre isso. “Portanto, a estatística que era conhecida pelos meus amigos era simplesmente a estatística dos sobreviventes”, explicam. “Isso significa que ocorrências prontamente disponíveis na memória exercem forte pressão no processo de decisão do indivíduo, ainda que não sejam totalmente fundamentadas.”
Ou seja, assim como os fãs dos gatinhos, os investidores podem se enganar ao avaliar a probabilidade de ocorrência de um evento por se apoiarem na lembrança de eventos similares e em dados parciais.
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